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Comer, passear e rezar em Minas Gerais

6 de março de 2016

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Eva dos Santos, chef do Bistrô do Victor, foi fisgada pela simpatia dos mineiros em uma viagem gastronômica pelo estado mais acolhedor do Brasil

Sempre acalentei um desejo de conhecer Minas Gerais, mas, diante do tempo escasso de quem administra uma cozinha profissional, de segunda a segunda, esse destino nunca foi prioridade. Até que um belo dia, em novembro de 2013, recebi um convite muito especial, da Fundação Grupo Boticário de Preservação à Natureza, para participar da V edição do Brumadinho Gourmet, o mais importante festival de arte, cultura e gastronomia da região metropolitana de Belo Horizonte, que teve como tema a cozinha quilombola. E o fato é que, uma vez lá, fui fisgada pela simpatia e generosidade dos mineiros, sem contar, é claro, por uma das culinárias mais acolhedoras do Brasil.

minasgerais (1)

O que definiu o meu retorno para a capital de Minas foram as amizades que fiz ali e a vontade de absorver mais daquela cultura e daquela paisagem que me transmite muita paz. Com as passagens compradas, tracei um roteiro de como imaginei aproveitar minha semana de folga do Bistrô do Victor. No entanto, os planos ganharam novos contornos quando soube que não teria acesso ao Quilombo do Sapé – comunidade de negros que se formou após o regime escravista e até hoje mantém fidelidade às suas tradições –, onde pretendia desvendar alguns segredos da cozinha que tem origem na gastronomia africana.

Marmita de Feijão Tropeiro_minasgerais

Bom, vamos aos fatos. Levei de Curitiba uma quantidade generosa de frutos do mar (polvo, siri e camarão) a fim de receber meus amigos com uma verdadeira orgia gastronômica. Cheguei a Belo Horizonte na sexta-feira, ao meio-dia, e depois de me organizar no hotel fui direto a um hipermercado comprar cervejas artesanais. Aliás, a casa onde organizei o jantar é cenário de bons jantares, pelo menos uma vez por semana. O anfitrião, Daniel Coli, é amigo de um amigo meu e os dois atuam na Oficina do Espresso. Meu jantar, harmonizado com inúmeras cervejas, foi interpretado pelos meus novos amigos – um grupo de quinze pessoas – como uma adorável bruxaria.

No sábado acordei cedo e fui desbravar o Savassi, bairro nobre que concentra comércio e entretenimento na medida, e também onde me hospedei, a 100 metros do shopping Pátio Savassi. Depois almocei, sozinha, na Cervejaria Devassa, que fica localizada na tradicional esquina entre a Avenida Getúlio Vargas e a Rua Professor Morais. Já por volta das 16h, no bairro de Lourdes, fui a um bar chamado Mercearia, onde petisquei mignon com vários molhos e bebi chope. Mais tarde jantei na companhia de uma amiga que, por sinal, é professora da PUC de Minas Gerais e também do SENAC, na disciplina de Turismo. Escolhemos o Trindade Bar & Restaurante, comandado pelo chef Felipe Rameh. A culinária brasileira com ênfase em ingredientes típicos de cada região é a proposta da casa. Eu comi leitão à pururuca. No entanto, infelizmente o chef não estava no estabelecimento e fiquei um pouco frustrada.

Domingo foi dia de saborear comida de fazenda num restaurante bem tradicional chamado Xapuri, na Pampulha, que fica próximo à Toca da Raposa. O lugar é maravilhoso e a refeição típica mineira é embalada por moda de viola. Lá eu degustei uma linguiça artesanal feita na chapa com cebola e pimentão. Adorei o fato de ter uma variedade de pimentas à mesa. Uma delas, inclusive, ostentava o rótulo de “a mais forte do mundo.” Também provei e aprovei a galinha caipira com quiabo, servida em panela de ferro. Pena que era só pra mim e sobrou muito. O Xapuri é, sem dúvida, uma parada obrigatória para qualquer turista. E como comer nunca é demais, à noite jantei na Casa dos Contos, que fica também no bairro de Savassi. O restaurante existe desde 1974 e é famoso por reunir todas as gastronomias dentro dele. Ali eu comi tutu à mineira, mexidão e feijão tropeiro.

Segunda-feira foi dia de pegar a estrada. Aluguei um táxi e segui rumo a Ouro Preto para um dia de reflexão. Cheguei às 9h, conheci muitas igrejas, rezei muito, admirei o trabalho de Aleijadinho – escultor, entalhador e arquiteto do Brasil Colonial – e subi muitas ladeiras. Acho que paguei todos os meus pecados e, melhor do que isso, eu me senti muito próxima de Deus. Nessa visita também tive a oportunidade de validar a informação de que a cidade de Ouro Preto é um verdadeiro queijo suíço em virtude das inúmeras minas (2.800 catalogadas) e túneis que cruzam o subsolo. Eu visitei duas minas com a orientação do meu taxista, mas, para quem preferir, existe um guia na frente de cada uma delas. Visitei ainda uma pedreira de sabão e uma feira de rua com inúmeras peças que representam o artesanato típico da terra. Comprei muitos souvenirs.

Artesanato em pedra sabão_minasgerais

Na hora de almoçar não pensei duas vezes para entrar no restaurante Bené da Flauta, que fica num sobrado colonial no Centro Histórico de Ouro Preto. Além das delícias do cardápio, é comum dizer que seu principal tempero está no entorno, com uma vista panorâmica espetacular para a cidade (ladeiras, Igreja de Santa Efiênia, Pico do Itacolomi, entre outros). Degustei um maravilhoso feijão tropeiro preparado com um toque de sofisticação. Para se ter uma ideia da delicadeza, os ovos eram de codorna. De sobremesa me deliciei com uma seleção de doces mineiros como: doce de leite, mamão, fio e goiaba- da. Depois de um dia maravilhoso só restava retornar ao hotel e descansar para o jantar.

E, por falar em jantar, posso me gabar de ter tido a honra e o privilégio de ter sido recebida pelo chef Ivo Faria, proprietário do restaurante Vecchio Sogno. Quando eu cheguei ele estava ministrando uma aula na cozinha, que por sinal é um show, e fui conduzida ao salão para aguardá-lo, bem acompanhada de uma taça de champanhe. O restaurante é finíssimo e estava bem cheio para uma segunda-feira. Achei muito chique a “coreografia” dos garçons ao servir uma mesa de oito pessoas e simultaneamente retirarem as cloches. Foi um espetáculo. Na sequência, o chef Ivo se juntou a mim na mesa e serviu um menu degustação que estava divino. No entanto, ao ouvir o que eu gostaria de conhecer de seu menu, prontamente solicitou um novo menu degustação que comi com muito gosto. Fui a última a deixar o restaurante e, de quebra, ganhei uma carona do anfitrião até o hotel.

Menu degustação do Vecchio Sogno_minasgerais minasgerais

Na terça-feira aproveitei o dia para fazer turismo, onde destaco a visita ao Mirante das Mangabeiras e ao Mercado Central, que com certeza é o melhor de todos que já tive oportunidade de conhecer. Comprei muitos queijos, farinhas, especiarias, um polvilho especial para fazer pão de queijo, tapioca, bastante pimenta e queijos da Serra de Araxá e da Serra do Cipó.

À noite fui com um amigo para o Mercearia 130, um bar, localizado na Serra, onde as pessoas podem comer como se estivessem num restaurante, que por sinal tem uma decoração de boteco divina. As luminárias são feitas de escorredor de macarrão. O dono do restaurante nos tratou muitíssimo bem e serviu as melhores coisas na nossa mesa. Comemos ostra gratinada com molho de alho-poró, ceviche de polvo com tilápia e risoto de parmesão com contrafilé. Tomei todas as cervejas da Bacchi e a minha preferida foi a versão com casca de laranja.

Quarta-feira foi dia de cachoeira em Brumadinho, dentro de um condomínio fechado, com amigos. Al- moçamos na casa da minha amiga, uma refeição simples, porém perfeita. O arroz, feijão e a galinha com quiabo, harmonizados com Pinot Noir, em frente à piscina, com vista para a montanha, fizeram da nossa tarde um momento inesquecível.

Cachoeiraminasgerais

Logo mais, à noite, consegui surpreender meus amigos com um camarote no Mineirão, graças ao meu noivo, Fernando Iatzaki, que trabalha com a esposa do preparador físico do Cruzeiro, Tico dos Santos. Assistimos à partida contra o Vila Nova, enquanto devorávamos uma marmitinha do tradicional feijão tropeiro do Mineirão e o placar só nos deu alegria: 3×1 para o Cruzeiro. Foi um momento único.

Mineirão

Minha quinta-feira começou embalada por um lanchinho no Mercado Central: empadinhas de camarão com jiló e frango com ora-pro-nóbis. Já no período da tarde fui conferir os sorvetes da Alessa Gelato & Caff, que tem pâtisserie e chocolateria comandadas por uma amiga, a chef Nina Guedes. Depois do sorvete fui conhecer a Oficina do Espresso e às 19h encarei uma proposta diferente: ministrei uma aula na PUC sobre Gastronomia Responsável para uma turma do curso de Turismo, composta por cerca de 20 alunos. Acabei ocupando dois horários de aula e interagi com muitos alunos de países diferentes como Peru, Chile, Bilbau, Venezuela e México.

Sexta-feira: reta final da viagem. Reencontrei vários amigos e fiz novos contatos que abriram várias oportunidades. Acho que voltarei muitas vezes para Minas Gerais e espero que na próxima vez eu possa compartilhar com você minha experiência no Quilombo. Mal posso esperar!

Eva dos Santos é chef de cozinha do Bistrô do Victor. Figura carismática e querida por muitos curitibanos.

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