ENTRAR Bem-vindo! Faça login para ter
uma experiência completa.

A impossível arte de delegar

11 de outubro de 2016

(34)
Donos de restaurantes são centralizadores. Eles têm certeza de que são insubstituíveis.

Dono de restaurante normalmente é um cara sem muita instrução, com pouca formação acadêmica. Mas vamos falar a verdade: que formação é necessária pra se tornar dono de restaurante? Espírito empreendedor, uma boa dose de carisma e coragem são suficientes pra começar um negócio. Dinheiro não está em primeiro lugar. Veja quantos são aqueles que começam servindo churrasquinho na garagem da própria casa e se tornam referências nesse negócio. O restaurante talvez seja a atividade econômica formal mais informal de todas. Nada mais é do que tirar o que se tem na geladeira, preparar no fogão e levar até a mesa. É exatamente o mesmo trabalho que você tem pra servir o almoço na tua casa. Mas se comida for boa, você vai precisar de mais gente: teu filho vira garçom e tua mulher vai ajudar na louça. Se crescer ainda mais, você vai chamar teu irmão pra fazer as compras e teu sobrinho pra atender o telefone.

Pronto! A garagem virou um negócio e já sobra um trocado para o aluguel. Você está feliz, virou dono de restaurante. Trabalha incansavelmente, de segunda a segunda, pra atender à fiel clientela. Você conhece cada um, chama todos pelo nome. Por outro lado, seus velhos amigos não te veem mais. Você esquece o aniversário da afilhada e não pode ir ao casamento do melhor amigo. Chega a hora dos primeiros investimentos: trocar as luminárias que estão engorduradas, aumentar a churrasqueira, alugar o terreno dos fundos para estacionamento, etc. E vão aparecer as fiscalizações: vigilância sanitária, bombeiros, urbanismo; e dá-lhe correr pra lá e pra cá com a papelada na prefeitura.

Você conhece cada um, chama a todos pelo nome. Por outro lado, seus velhos amigos não te veem mais. Você esquece o aniversário da afilhada e não pode ir no casamento do melhor amigo.

Cansado dos erros e atrasos do seu sobrinho, você vai brigar com ele, ele vai te processar, e você sentirá, por alguns meses, um enorme desejo de exterminar uma espécie denominada “advogado trabalhista”. Mesmo assim, você aprendeu a lição: vai registrar seu filho, seu irmão, sua mulher, cada um com um cargo e um salário específico. Quatro ou cinco anos se passaram e você, de tão ocupado que esteve, não se deu conta do que aconteceu. Ah, sem falar da televisão… quando te perguntarem o nome da novela das nove, vão rir de você.

E a folga? Ah, a folga…. Se você não tem um sócio, esqueça! Você nunca vai saber qual é o melhor dia pra folgar. Nos sábados e domingos não dá porque são os dias de mais movimento. Nos dias de semana, você lida com os pepinos comuns a qualquer profissão: contas a pagar, reformas a fazer, rescisões, contratações, treinamentos. Com as férias é a mesma coisa. Não existe melhor época. Fim de ano não dá por causa das festas de confraternização. No meio do ano, quando o movimento é ruim, também não dá, porque já que tá ruim você tem que estar ali, agarrado nas economias. Mas tudo bem…. Tua conta bancária está gorda e você tem um carro do ano. Trabalha que nem um camelo, mas é um empresário de sucesso. Afinal, você foi um dos poucos que se deu bem entre tantos outros que também tentaram.

Existe um “Q” de crueldade nessa profissão: tudo depende do dono. A decoração, o trato com o fornecedor, o recebimento da mercadoria, o pagamento das duplicatas, a qualidade da comida, a presença na mesa de cada cliente, a lida com os funcionários, o fechamento do caixa no fim da noite, a obrigação de estar sempre alegre e sorridente. O restaurante é seu filho, é sua cara. Você quer que ele cresça e seja do jeito que você sempre sonhou. É até pior, porque um filho pode ficar na casa da sogra de vez em quando, o restaurante não. Donos de restaurantes são centralizadores. Eles têm certeza de que são insubstituíveis. É a cultura do negócio.

Eu nasci dentro de uma família de donos de restaurantes. Vivi tudo isso bem de perto. Eu era apenas mais um do time dos centralizadores. Um dia passou pela minha cabeça: “E se eu morrer?”. Tentei pegar mais leve: “E se eu ficar doente e tiver que parar?”. Entendi, naquele momento, que meu negócio não poderia depender tanto de mim e vice-versa. Fui um pouco além: “Por que eu tenho que ficar doente pra descobrir se meu negócio sobrevive sozinho? Eram tantas as questões, que fui parar num terapeuta, é claro. Mas deu no que deu: resolvi tirar minha própria “licença-maternidade” e sair por quatro meses. Durante os meses que antecederam meu afastamento, tudo aquilo que eu fazia comecei a passar pros outros fazerem. Descobri um mundo novo. Descobri talento, competência e garra que estavam adormecidos em muita gente. Qualidades intocadas nos membros da minha equipe. Descobri como é poderoso o desejo de superação e como eu poderia usar aquilo a favor de todos: de mim, do restaurante e deles mesmos. Percebi que eu era dispensável, e que isso traria um novo mundo de possibilidades para a minha vida. Ao mesmo tempo, traria medo: eu vivia na zona de conforto do ser indispensável, e tornar-se dispensável, acredite, causa um grande desconforto.

Mais de dez anos se passaram desde a minha primeira longa viagem. Aprendi na marra a me afastar do meu negócio, e acredito que esse modelo funciona. Estou prestes a fugir novamente. Toda vez é um parto! Dá medo de voltar e ver tudo afundado. Mas esse sou eu, e é assim que vou tocando a minha vida. Não quero que a natureza decida por mim o dia do meu afastamento, quero fazer isso por mim mesmo. Se não for assim, nada mais faz sentido.

COMPARTILHE ESTA MATÉRIA
AVALIAÇÕES
(34)
  • Excelente
    17
  • Muito bom
    2
  • Normal
    6
  • Ruim
    4
  • Horrível
    5
DÊ SUA NOTA: