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Um filho de dono de restaurante (parte 2)

30 de agosto de 2016

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A primeira contratação

Ano de 1950. Aquela família humilde, pai, mãe e seis irmãos, saiu de Caxias do Sul e veio parar em Curitiba. Vieram atrás de terras. A notícia de que uma senhora chamada Felicidade Borges estava doando lotes chegou aos ouvidos de Antonio Domingos Madalosso, que percebeu ali a oportunidade de começar uma nova vida. Seu Antonio e Dona Rosa colocaram suas vidas nas malas, os seis filhos em um vagão de trem, e, após cinco dias de viagem, desembarcaram na Estação Ferroviária daquela cidade desconhecida. Dias depois, foram agraciados com um dos lotes de Dona Felicidade, no bairro que, mais tarde, viria a se chamar Santa Felicidade.

Por mais que suas tentativas com a agricultura tivessem fracassado no Rio Grande do Sul, persistiram na atividade quando aqui chegaram, apostando que o clima mais ameno seria mais propenso ao cultivo das uvas. Não vingou. Alguns anos se passaram, os filhos cresceram, e a necessidade de renda fez os mais velhos saírem em busca de emprego. Mas o patriarca Antonio Domingos Madalosso ainda não estava satisfeito. Ele queria empreender, ser dono do próprio negócio. Foi então que fez sua última aposta. Em frente à residência em que moravam, ficava um pequeno parador de caminhoneiros, um restaurante familiar, com apenas seis mesas e vinte e quatro lugares, chamado Florida, que foi colocado à venda.  Seu Antonio não deixou passar. Juntou suas poucas economias às poucas economias de seu genro Admar Bertoli e fecharam negócio. O Florida, naquele momento, mudou de nome e passou a se chamar Restaurante Madalosso.

A história do pequeno Madalosso começou como começa a história de qualquer restaurante. Seu Antonio designou Flora, sua segunda filha, como responsável pela cozinha. Para o posto de garçom, ordenou Carlos, seu quinto filho, que ainda com 17 anos não havia arrumado emprego fixo. O genro Admar, casado com Flora, seria responsável pela recepção e por dar as boas vindas aos clientes. Pronto! Era isso e apenas isso o quadro de “funcionários” com a missão de conseguir pagar as parcelas pendentes do restaurante Florida e, se Deus ajudasse, guardar um dinheirinho no final do mês.

Ninguém recebia salário, claro. Os filhos de Seu Antonio estavam ali para ajudar, para fazer dar certo.

Ninguém recebia salário, claro. Os filhos de Seu Antonio estavam ali para ajudar, para fazer dar certo. Risoto, polenta, galinha ensopada, salada de radicci com bacon e macarrão. Esse era o cardápio. Os insumos vinham de granjas vizinhas de propriedade de amigos da família. O vinho colonial também. As hortaliças eram produzidas no jardim do próprio restaurante, nos fundos da casa – tudo orgânico e artesanal. Carlos e Flora falavam um português pobre, carregado de sotaque italiano, língua oficial dentro da casa dos Madalosso. Suas condições financeiras jamais permitiram que tivessem frequentado qualquer restaurante como clientes e, sem ter ideia de como ou por onde começar, seguiram suas intuições. Afinal, receber bem em um restaurante, como dizia Seu Antonio, não tem tanto segredo assim: “É como receber parentes de Caxias em casa. Servir o que fazemos de melhor, distraí-los para que não vejam o tempo passar, e deixar as portas abertas para que voltem sempre”. A falta de recursos para investimentos em reformas acabou sendo uma aliada. Para decorar a velha casa, trouxeram quinquilharias antigas da família: porta-retratos, panelas e utensílios. Além desses, presentes trazidos por fornecedores e clientes davam alma ao ambiente que, aos poucos, ganhava mais personalidade.

É como receber parentes de Caxias em casa. Servir o que fazemos de melhor, distraí-los para que não vejam o tempo passar, e deixar as portas abertas para que voltem sempre.

O sabor do tempero da Flora agradou, o carisma do Admar e a inocência do trabalho de Carlos, como garçom, também. Não eram profissionais gabaritados. Mas era justamente esse esforço pra dar o melhor com pouquíssimos recursos que encantava e cativava cada cliente. O movimento cresceu, o espaço pequeno não comportava a crescente demanda, e aos domingos no almoço já se formavam filas de espera. Em poucos meses, fizeram a primeira contratação: Ernani Ribas do Valle, mais conhecido como Gordo, funcionário que anos mais tarde se tornaria o maître de restaurante mais famoso e bem quisto de Curitiba.

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Um filho de dono de restaurante (parte 5)
Um filho de dono de restaurante (parte 4)
Um filho de dono de restaurante (parte 3)
Um filho de dono de restaurante (parte 2)

Um filho de dono de restaurante

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