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Abra a porta que eu quero entrar

23 de novembro de 2016

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Beto Madalosso quer cozinhar aí, no seu fogão!

As casas viraram nossas concorrentes. É sim. Tem muito dono de restaurante que ainda está assim, meio tonto, dando a volta no quarteirão, olhando para o lado, espiando por cima do muro pra saber aonde foram os seus clientes. Pode desistir, eles não estão no restaurante do vizinho. Eles estão em casa. Eles estão cozinhando, preparando a própria comida em seus espaços gourmet para grupos de 10, 20, 30, 50 amigos. Usam utensílios de última geração, muitas vezes muito melhores do que aqueles que nós usamos em nossos estabelecimentos.

Isso é uma novidade? Sim e não. Não é de hoje que as pessoas se reúnem em casa. Acontece que há algum tempo – falo de 10 ou 15 anos – essas reuniões se limitavam ao redor da churrasqueira. Era assim: o cara sapecava uma picanha com um pão de alho na grelha e a esposa preparava a salada de maionese, tudo regado a uma Skol 600 ml ou, para os “entendidos”, uma Original Faixa Azul. A cozinha era um aparato essencialmente funcional, um quebra galho, praticamente um estorvo que ocupava espaço precioso da casa. As facas eram ruins e sem fio, e as panelas, de tão precárias, viviam retorcidas por não aguentar o calor.

Os tempos mudaram. Hoje em dia não há condomínio vertical ou horizontal que não venha acoplado de um belo espaço gourmet. Salas amplas, fogões mais caros que carros do ano, cheias de penduricalhos que amassam, picam, descascam, fatiam, moem e decoram as criações dos “chefs por um dia”. E ai de você se aparecer pedindo uma Skol. Skol não harmoniza com mais nada nesse mundo, amigo. Assim como todo mundo virou chef, todo mundo virou sommelier. Para o ceviche, uma Weatbeer; para a sobremesa, uma Porter bem alcoólica. Tudo meio chato demais, meio repetitivo demais, meio “Maria vai com as outras” demais. Bom, deixa essa parte pra lá, outra hora eu meto o pau na turma que cheira rolha.

O que quero falar agora é que o fenômeno da gourmetização penetrou todos os lares e está engolindo nossos clientes como se fossem canapés trufados com pitadas de flor de sal. É uma espécie de economia colaborativa mais informal que a própria economia colaborativa, onde todos se encontram, comem e bebem, e dividem a conta do empório no final da noite. Pior que isso: quando não dividem, saem dizendo “a próxima é lá em casa”, e lá se vai mais um grupo que poderia comer nesse ou naquele restaurante.

Isso não é uma lamentação, é apenas uma constatação: assim como raias de piscina e aparelhos de musculação dentro de casa concorrem com academias, os espaços gourmet concorrem com nós.

A culpa também é minha, eu sei. Gravei muitos programas de culinária e dei muitas dicas de temperinhos e receitinhas da Nonna para revistas especializadas (ou não). Estimulei o cozinheiro doméstico. Dei palestras. Criei uma espécie de dono de restaurante amador, que vive reclamando dos preços dos restaurantes, mas que não entende absolutamente nada de gestão. Só serve pra atrapalhar. Normal, eu faço o mesmo nas minhas horas livres, também cozinho nos espaços gourmet e aprecio cerveja artesanal – só não cheiro rolhas. Aliás, isso não é uma lamentação, é apenas uma constatação: assim como raias de piscina e aparelhos de musculação dentro de casa concorrem com academias, os espaços gourmet concorrem com nós. A diferença é que malhar você malha sozinho, e comer… comer é sempre em bando. Debandaram!

Se meu objetivo não é reclamar, por que, então, escrevo tudo isso? Porque eu acabo de entender que se eu quiser ter vida longa no ramo da gastronomia, não basta sair por aí construindo restaurantes, é preciso ir além. É preciso saber quando e como entrar na casa dos meus clientes. E não estou falando de entregar uma pizza, mas de fazer parte do seu preparo, seja através de livros, ingredientes, ou até mesmo indo cozinhar aí, no seu fogão. Abra a porta que eu quero entrar!

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COMENTÁRIOS
  • Pode vir, aliás é um convite oficial! O espaço no meu vinhedo não é gourmet, é bem rural mesmo rsrs Mas dá pra pegar os ingredientes orgânicos na roça do vizinho de porta e sentir cheiro de grama molhada ou curtir um por do sol conforme a estação da hora! E pra vc que gosta de bike, ainda dá pra abrir o apetite com uma boa pedalada na propriedade ou na vizinhança. Ah, só não vai rolar uma skol rsrs

  • Beto, como sempre amei seu texto! Agora você que precisa dar uma bronca enorme na turma da revista por ter digitado " com nós " e não "conosco" !!! Afinal de contas todo texto genial precisa de revisão!!!rsrsrsrs

  • E ai Beto... eu sou péssimo cozinheiro! Mal sei fazer o famoso macarrão com molho de tomate. Tentei me arriscar algumas vezes mas sem sucesso.
    Enfim, se um belo dia estiver a fim de dar uma aula prática para esse humilde padawan, é só chegar... o fogão e o meu projeto de cozinha estão a sua disposição!! É só falar o que precisa comprar!! :)

  • Muito bom o texto do Beto. Não briga com ele. Precisa de muito amor, carinho e compreensão... e remédios tarja preta. Kkkkkkkk

  • Beleza, Fabio, não vamos mais dar bronca nele! ;) É tanta gente defendendo que ficou difícil, hehehe...

  • Pode deixar, Fatima, que o Beto já está perdoado! Valeu a força!!! ;)

  • Nossa adorei o texto. Cheira rolha, cozinhas gourmets. E realmente Beto você é responsável por varios jantares feitos por cozinheiros amadores que seguem suas dicas de cozinha Kkkk
    E não briguem com ele não pessoal da TUTANO, lemos na página dele e aqui também.

  • Excelente texto Beto.
    Aqui em casa fazemos reuniões com amigos, mas frequentamos restaurantes pelo menos 1 vez por semana (depois do seu texto até fiquei em dúvida se não é pra roubar idéias, kkkk).
    Gostei da idéia de você vir cozinhar aqui em casa, mas teremos que negociar o preço.
    Ah... Fer, não briga com ele não. .

  • Texto sobre galera que cheira rolha, esse vai ser dos bão! ahahhaa