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As aventuras do fotógrafo Edson Walker na Geórgia, República da Abkhazia

5 de março de 2016

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Abkhazia, provavelmente você, assim como eu, nunca nem ouviu falar. Afinal, onde fica isso?!

A história dessa autodenominada república caucasiana é longa e curiosa. Explicá-la em apenas um parágrafo é uma missão complicada, então, melhor pesquisar direto no oráculo. Depois de ter feito isso você já vai saber do que estou falando e vai descobrir, talvez até meio surpreso, que não era essa Geórgia que não saía da cabeça do Ray Charles.

Atravessar a zona da fronteira entre a Abkhazia e a Geórgia foi como entrar no filme Stalker, do diretor russo Tarkovski. Parece uma região proibida, úmida e abandonada. Eu e minha amiga suíça Eveline estacionamos nossas velocípedes no posto policial do lado da Geórgia. Após uma curiosa investigada em nossos passaportes, nos liberaram para entrar na misteriosa e “proibida” Abkhazia. Um rio separa e uma ponte semidestruída une os dois territórios. Cães preguiçosos dormiam no meio da rua, enquanto carroças puxadas por cavalos faziam o serviço de táxi para as poucas pessoas que circulavam pelo local. Do outro lado, na imigração abkhaziana, uma bandeira agitava-se ao vento nas cores verde, branca e vermelha, com um ícone de uma palma da mão aberta pedindo paz. Um tanto ansiosos passamos pela imigração sem maiores problemas. Subimos novamente em nossas velocípedes e começamos a pedalar pela rodovia esburacada, com gigantescos eucaliptos em suas margens e lenhadores cortando galhos e árvores que caíram durante o inverno passado. Alguns quilômetros adiante, paramos para tirar fotos de um cemitério, e um jovem, falando fluentemente inglês, pergunta se não temos um tempo para ir até sua casa e provar uns copos do vinho feito pelo seu pai. Eram 11 da manhã!

Como para um bom vinho eu sempre tenho tempo, fomos até lá, onde conhecemos sua linda casa azul de cerca de 120 anos, cercada por um lindo pomar cheio de parreiras, pereiras, pessegueiros, nogueiras, galinhas e perus. A hospitalidade por essas bandas às vezes não tem limites e logo você percebe que é mais fácil dizer sempre sim. Provamos vinhos, comemos queijos, chocolates e um bom café para dar novamente energia para continuar a pedalar. Como se não bastasse, enchem ainda minha garrafa de água com vinho para a viagem. Eu, naquele leve torpor alcoólico, pensava: “Como a vida é boa quando a gente se expõe”.

Páscoa Ortodoxa

Acordei na manhã do domingo de Páscoa, que no calendário da Igreja Ortodoxa acontece uma semana depois do nosso, com aquela sensação de felicidade, curioso para saber o que o último dia daquela viagem de dez dias em velocípedes pela Abkhazia havia reservado para nós. Na cozinha, Vera, uma dessas mães que demonstram seu amor pelos filhos cozinhando, já estava ocupada arrumando a mesa para o café da manhã com as delícias que havia preparado no dia anterior. Lá fora, ao redor do pátio do antigo complexo habitacional do exército russo, um casal com seu filho gordinho corriam aquecidos pelo sol daquela manhã de primavera. Vizinhos passavam em frente à sacada no segundo andar e cumprimentavam-nos em russo dizendo: “Cristo foi ressuscitado”. “É verdade”, respondia segundo a tradição ortodoxa nossa querida amiga Olga.

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Começamos com a tradição de quebrar os coloridos ovos cozidos. Seguro o meu firmemente e Vera bate o dela contra o meu. O que seguro em minha mão quebra-se e o dela continua intacto. Tento o outro lado do ovo com Olga e perco novamente. Segundo o costume local, o dono do ovo vitorioso fica com os que se partiram, mas isso já são coisas de crianças e no final cada um acaba mesmo comendo o seu. Animados, aprendendo um pouco de russo e de tradições de Páscoa, provamos o prato principal: frango com creme de nozes, chamado de Satsivi. “Ochi Harachô!” Very good, indeed! Foi tudo o que restou da aula de russo daquela manhã.

O frango cortado em pedaços foi cozido no dia anterior. Parte da água da fervura foi misturada no liquidificador com as nozes que eu e Olga moemos naquelas máquinas antigas de moer carne. Mistura-se um pouco de sal, alho e pimenta. Depois, com o frango já frio na tigela, derrama-se o creme e o prato vai para a geladeira e é servido frio mesmo. Para acompanhar, aquela salada de batatas russas cheia de legumes que parece despertar em você uma lembrança de uma infância na Rússia que você nunca teve. Eu, sorrindo, conseguia dizer apenas “ochi harachô”! Terminamos com chá e os tradicionais panetones de Páscoa, feitos na noite anterior por Olga e Vera, que ficaram até as 3 da manhã assando e enfeitando os muitos que fizeram e que iriam trocar com os vizinhos e amigos durante o dia.

Antes de partir, tivemos que passar ainda pela casa de uma amiga da família de Olga, para o segundo café da manhã do dia. Impossível dizer não diante de todos aqueles doces deliciosos. Como se não bastasse, saímos ainda com um pacote para a viagem. Difícil dizer adeus a pessoas tão queridas e generosas. Há sempre um sentimento de retribuição não preenchido, mas acredito que, para elas, nossa presença e amizade são tão valiosas quanto tudo o que nos deram. Foi realmente a minha melhor Páscoa fora de casa. O endereço dessas pessoas eu não dou, afinal essas coisas são especiais apenas quando acontecem ao acaso. Vá você também para lá se deixar seduzir por elas.

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Nos últimos 50 quilômetros da viagem, seguimos por uma estrada plana cheia de árvores floridas em suas margens. Em pequenas vilas, nos cemitérios, podíamos ver várias pessoas bebendo vinho junto com os mortos. Deixam em suas tumbas flores, frutas, vinho e até cigarro, caso o falecido tenha morrido de câncer de pulmão. É um pequeno paraíso. As árvores estavam cheias de flores, o mar fica ali ao lado, do outro, montanhas de picos nevados. Tem frutas por todos os lados, animais silvestres, rios, terras férteis e pinturas em igrejas que sangram (!). É apenas triste ver tantas casas abandonadas e destruídas pelo caminho. Um lugar que tem tudo para ser um paraíso. Quem sabe um dia, voltem a viver em paz com seu vizinho.

Brindes Georgianos

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Gaumarjos! Gaumarjos! E lá se vai mais uma dose de tcha-tcha, bebida destilada da polpa que resta na fabricação do vinho. Da uva aqui nada se perde! Alguém se levanta e propõe um novo brinde: “Este brinde é para as mulheres. Para nossas mães. Para as mães das nossas mães. Para nossas esposas. Para nossas futuras esposas. Para nossas filhas. Futuras filhas, futuras namoradas”. Quando você pensa que já acabou, o orador, cada vez mais emotivo, lembra-se de outras mulheres e as inclui no brinde. Burocrático, mas engraçado. E o próximo brinde vai para os amigos que não estão presentes, outro para os homens, suas religiões, enfim, depois de tantos temas, difícil restar alguém sóbrio no final. Gaumarjos! Gaumarjos!

Capital Tbilisi

A capital é muito bonita e limpa, mas meio kitsch quando tenta ser moderna. É muita mistura de culturas. Carros Lada dividem o tráfego com modernos automóveis americanos. Nas praças, densas esculturas que lembram o passado socialista contrastam com mulheres passando elegantemente vestidas com roupas de famosas marcas ocidentais. Tem um clima de otimismo no ar depois de tanta s histórias de privações. A comida é baseada em derivados de pão, e o mais próximo do Brasil que você pode chegar é um pastel de carne encontrado em algumas lanchonetes e também, pasmem, caldinho de feijão com pão de milho chamado de “lobio”. Mas, nos momentos em que não sentia falta do Brasil, me deliciava sempre com o fantástico adrijani, um “sanduichinho” de berinjela com creme de nozes e umas sementes de romã para enfeitar.

O vinho começou por aqui sete mil anos atrás

“Este vinho”, explica meu amigo Mamuka Japharidze, no Festival do Vinho da capital Tbilisi, “feito com uvas da variedade Rkatsite li, de forte aroma de frutas e cor âmbar, é o vinho preferido aqui na Geórgia. Muitos até mesmo consideram todas as outras variedades como secundárias, como subprodutos”. Após prová-lo, começo a entender melhor o que Mamuka me falava sobre a tradição de bebê-lo em celebrações familiares, nas quais o vinho torna-se uma forma de conexão com os antepassados.

pag17Dois meses na Geórgia e é só isso que você tem para contar?

Claro que não. Para isso escrevi o livro Pra Lá de Marrakesh, que tem fotos e histórias de mais de 11 meses por 14 países. O livro está à venda no site da Editora Pulp. Mais fotos podem ser vistas na fanpage walkertravels do Facebook.

O livro “Pra lá de Marrakesh” narra as aventuras desse fotógrafo andarilho que já nasceu com o nome certo para o caminho que resolveu seguir na vida.
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