As mucosas da Princesa

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No verão, sempre lembro de uma passagem de Stendhal, registrada numa de suas crônicas italianas. Era sobre certa princesa do século 17 que, ao lambiscar um sorvete num dia de calor intenso, deixava escapar uma queixa: “Ah, que pena isso não ser um pecado”.

Pois o meu vínculo com os sorvetes, forjado ainda na primeira infância, de algum modo tangencia essa mesma sensação de crime ou ofensa religiosa que Stendhal nos fez o favor de anotar. Na época, só tomávamos sorvete quando descíamos ao litoral, nas férias, e mais especificamente em Guaratuba, na antiga Bom Sucesso, loja cujo nome ecoa o da igreja matriz da cidade. Vizinho da sorveteria, o templo, erguido em 1771, é dedicado à Nossa Senhora do Bom Sucesso, e era para lá que íamos, em família, assistir a suas infinitas missas de sábado à tarde.

Não, não se tomava sorvete antes da bênção final, o que só ia acontecer no início da noite. Eu passava a missa toda entre a cruz e a casquinha, sonhando com bolas de morango e baunilha sobrepostas, repetindo maquinalmente, uma a uma, todas as ladainhas necessárias ao bom andamento dos ritos. Me sentia culpado, mas logo aprendi que a culpa não amargava os doces. Pelo contrário, a reza forçada os potencializava. E toda aquela ansiedade, aquela espera sem prazer, e até a minha vontade de fugir da igreja para sempre, só aumentava meu desejo pela sorveteria. Sem saber eu encarnava, na provinciana Guaratuba dos anos 1970, o mesmo ideal daquela lúbrica princesa stendhaliana, personagem que acabei aperfeiçoando, anos depois, ao ser apresentado por minha mãe à lendária banana-split das Lojas Americanas. Aquilo, sim, era um pecado. Venial, admito, mas bastante capaz de nos escancarar as portas de algum purgatório.

Minha mãe, por outro lado, nunca foi muito de sorvetes, apesar de os ter conhecido também por intermédio da igreja católica, na metade do século 20. Aconteceu num grande evento religioso anual, a Festa da Cachoeira ou algo assim, promovido nas imediações do Capocu, onde ela morava. As famílias da região eram transportadas até lá aos bandos, na carroceria de caminhões. Havia culto, circo, churrasco, capilé e pão de ló, de longe a sobremesa favorita das crianças, que comiam o doce às toneladas, enquanto voavam entre as tendas de jogos e atrações circenses. A mais concorrida era a da mulher que se transformava, dentro de uma jaula aos pés da igreja, numa macaca furibunda. A plateia não piscava, mas suas bocas não paravam de mastigar.

A novidade que os picolés representavam, no entanto, era ali destinada não às crianças, mas a um público mais velho. Comprados para fins de galanteio, os rapazes os ofereciam às moças com quem, caso bem-sucedidos, saíam passear entre os cedros, de mãos dadas. E o exercício puxado de tantos lábios e línguas virgens, a prática coletiva da sucção ao ar livre, a visão do gelo rosado que aos poucos empalidecia, talvez tudo aquilo fosse apenas um substituto simbólico do beijo e do sexo, expedientes ainda interditos àqueles jovens cristãos da zona rural.

Já meu pai, fã de sorvetes, tem outra trajetória. É um apaixonado. Acostumou-se a fazer seus próprios picolés durante as geadas do velho Umbará, tão mais rigorosas que as de hoje. Ele e seus irmãos apanhavam xicrinhas de esmalte, as enchiam de água e xarope de groselha e as punham para pernoitar ao relento. A madrugada abaixo de zero fazia o resto do trabalho. Pela manhã, era só tomar coragem e chupar cada um a sua pedrinha de gelo colorido. Foi essa a sua iniciação, embora sorvete mesmo, de massa, meu pai só tenha conhecido mais tarde, já adolescente, quando viu um trole puxado por um pangaré cruzar o bairro dos italianos. No banco de trás do veículo, um homem punha à venda não sei quantos potes de sorvete de chocolate, protegidos por folhas de zinco. As crianças o perseguiam com um furor místico, em transe extático, quase como se ouvissem o chamado de um novo flautista de Hamelin.

Por conta dessa paixão paterna, tomamos muitos picolés juntos, ele e eu, no início dos anos 1980, no Couto Pereira. Meu pai nos comprava um, dois, três, quatro Chicabons, exagero que, se não nos guiou a nenhum palácio da sabedoria, aos menos nos proporcionou boas tardes de domingo no Alto da Glória. E a cada sorvete que eu ganhava, ouvia de meu pai a recomendação indispensável: “Não conte pra tua mãe”. Nunca contei, e por que contaria? Eu já estava escravizado. Parei de ir ao futebol faz anos, mas o sorvete eu não abandono.

E já que falei em vício e abuso, já que comecei esta crônica (que componho sob a influência de uma forte faringite alérgica) citando Stendhal, decidi encerrá-la convocando outro francês, Balzac, cujo sétimo axioma de seu Tratado dos excitantes modernos nos alerta: “Todo excesso que atinja as mucosas abrevia a vida”. Bem, o autor se foi aos 51 anos, mas não consta que tenha morrido de tanto tomar sorvete. Dizem, aliás, que mal comia, para não sobrecarregar o cérebro com as “fadigas da digestão”. Um de seus fracos era o café, e há quem suspeite que Balzac o “comia” em jejum, pela manhã, talvez às colheradas, moído, frio e quase sem água, feito uma espécie estimulante de lama. Mas não: de café e de Balzac eu falo outro dia; hoje falei de sorvetes e princesas.


Luís Henrique Pellanda é escritor e jornalista, autor dos livros “O macaco ornamental”, “Nós passaremos em branco”, “Asa de sereia” e “Detetive à deriva”. Siga no Instagram: @lhpellanda

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