Bar com cara de restaurante ou restaurante com cara de bar?

1
378
Estrogonofe do Alchemia. Foto: André Bezerra

A Wikipedia é objetiva ao definir: “Boteco ou botequim é um estabelecimento comercial onde se vende bebidas em geral e pequenos lanches”. Sabemos, porém, que muitos restaurantes têm pequenos lanches no cardápio, além dos pratos e bebidas em geral. Isso os torna botecos? Outro exemplo: os mineiros gostam de fazer o tropico de feijoada. Traduzindo, o tropico é quando, ao invés de montarmos aquele pratão tradicional – com arroz, feijão, etc – montamos pratinhos menores, com torresmo, linguiça, couve, banana frita e a xícara com o caldinho de feijão. É um aperitivo que pode ser montado em qualquer restaurante que tenha bufê de feijoada. E esse trem combina com uma cachacinha, sô. Coisa de botequeiro de carteirinha. Eis a prova de que o mineiro consegue botecar inclusive no restaurante.

Queríamos entender, então, se a distinção entre boteco e restaurante está na Wikipedia, no cardápio, ambiente, sobre a placa do estabelecimento ou no próprio estado de espírito de quem o frequenta. Para essa tarefa convidamos um detetive nato, o André Bezerra – colunista Tutano e produtor do Comida di Buteco em Curitiba. Munido de garfo, faca e muito apetite, ele realizou um pequeno circuito em Curitiba:

Alchemia Bar

Apesar do nome, este endereço também serve almoço. São três opções diárias de pratos, sempre acompanhados de saladas bem fresquinhas e das batatinhas caseiras, finas, crocantes e deliciosas. Aliás, tudo o que sai da cozinha desse bar-restaurante é incrível. Existe muita alquimia nas receitas do Alchemia. Provamos o bombom de alcatra e o estrogonofe de carne. Tente não lamber a tela do seu tablet ao ver as fotos. De sobremesa, ainda pedimos uma fatia de torta alemã. Mas se você não quiser comer uma refeição, o Alchemia tem um extenso cardápio de petiscos – como a porção de bolinhos de tilápia – sanduíches e, naturalmente, cervejas e bebidas.

Dica Tutano: com um baita terraço externo e vista para os prédios históricos do Largo da Ordem, o Alchemia é uma bela opção para começar o happy hour com os amigos e depois partir para as atrações culturais que acontecem em volta. E você pode ficar de olho nas atrações do próprio estabelecimento, que costuma receber boas formações musicais. O bar abriga um concurso nacional de pimentas. Diga ao garçom que quer fazer uma degustação e ele vai te trazer uma pequena “arca” de pimentas extraordinárias, exóticas ou simplesmente calientes.

Av. Jaime Reis, 40, São Francisco
Segunda a quinta-feira,  11h30 à 1h
Sexta e Sábado, 11h30 às 4h
Domingo, 10h à 1h

Cantina Açores

Um restaurante que leva cantina no nome. Porém, todos os seus frequentadores chamam de Bar do Português ou apenas Seu João. Isso resume tudo: de segunda a sexta, um PF por dia, acompanhado de salada bem colorida e fresca. Segunda-feira, o executivo de bacalhau desfiado com lentilhas é disputado. Mas tem o dia do frango parmegiana e por aí vai. Sábado tem feijoada e o tradicional bife parmegiana.

Todos os dias, a partir das 17h, os botequeiros começam a tomar as mesas do salão, ou colocam engradados de cerveja para servirem de bancos e mesinhas na calçada, bem diante da cantina-boteco-restaurante. Entre as porções, a de bolinhos de bacalhau é o carro-chefe. Tem também a de bolinho de siri e a de bife azedo, receita da família Raposo. Todas as noites tem bacalhau “Gomes de Sá” ou o “Raposo”. Foi o próprio português, seu João Raposo, do arquipélago dos Açores, quem criou ou testou as receitas. Nada sai da cozinha sem o olho dele.

Dica Tutano: pergunte ao Seu João o que tem para comer, ele vai dizer: “comida”. Reclame de alguma coisa e ele responderá: “não enche o saco, por que você não ficou na sua casa?”. Não leve para o lado pessoal, é o jeito do português te mostrar que você está em casa e entre amigos, independente se chegou ali para beber, almoçar, jantar ou petiscar.

Rua Euzébio da Motta, 306, Alto da Glória
Diariamente, 11h às 23h

Don Max

Eis um boteco, no coração do Água Verde, que é a segunda casa de muito botequeiro de respeito. Os engradados de cerveja servindo de bancos pela rua, os petiscos, a cerveja gelada, o vinho na taça e as dezenas de pingas saborizadas pelo próprio Paulinho Zanatta – o Don – não deixam dúvida de que o DNA da casa é de boteco. De repente, no meio da noite, passa uma moussaka bem aromática voando em alguma bandeja. É o sinal de que a cozinha do Don Max vai muito além dos acepipes típicos de boteco.

A Tutano já contou a trajetória do Don Max, que começou servindo apenas almoços, passou a abrir à noite como boteco, deixou de servir os almoços e, atualmente, voltou com as refeições diárias, para felicidade e deleite dos profissionais que querem almoçar na região. É um cardápio com massas, filés, saladas, risotos e por aí vai. O macarrão do Ernesto e a massa ao limone shiitake, além da própria moussaka, são dois grandes clássicos.

Dica Tutano: o Don Max é muito ativo nas redes sociais. Além disso, mantém uma agenda musical intensa e maravilhosa, além das festas Julina e de Halloween. Atrações como Roberto & Carlos costumam atrair pequenas multidões de amigos. Acompanhe as postagens e se jogue sem medo de ser feliz.

Rua Tenente Max Wolf Filho, 37, Água Verde
Segunda a sexta-feira, 12h às 15h; 16h30 à 0h30
Sábado, 12h à 0h30
Domingo, 15h30 às 23h30

La Boca

Eis o tipo de estabelecimento que poderia estar em qualquer parte do mundo: Tóquio, Singapura, Nova Iorque, Cidade do Cabo ou Adelaide. Isso por causa da sua cozinha e do ambiente. Por sorte está em Curitiba, entre o centro, Bigorrilho e Mercês. É um boteco-restaurante tocado pelo Guti, híbrido de chef, cozinheiro, barista e anfitrião. É ele quem recebe, de trás do disputado balcão, amigos e calouros do La Boca. Frequentado por jornalistas e pelos apreciadores de um bom happy hour e culinária com originalidade, o fato é que todos se surpreendem com o cardápio da casa.

Logo ao entrar, se olhar para a parede, tem uma lousa com sugestões do que pedir. Na noite em que estive, elas eram: “polvo; lombo de lula; caldo Thay; fígado suíno; hambúrguer da Boca; caldinho de feijão; espetinho kafta; bolinho a cavalo”. Hipnotizado pelo quadro, perguntei:

– O que eu posso pedir hoje, Guti?

– O que você quiser, Bezerra.

– Ôrra Guti, eu não sabia que lula tinha lombo.

– São lulas salteadas, servidas com lombo suíno e pinhão, Bezerra.

Fui nesse prato e ainda emendei um choripan e uma porção de picles do La Boca. Encerrei com um Do Pai, que é uma batida de limão e vem no copo batizado no sal de hibisco.

Dica Tutano: observe a comunicação pelas paredes, encoste no balcão e deixe o Guti ir te contando tudo, é muita informação para uma ou duas idas ao bar.

Rua Visconde do Rio Branco, 367, Mercês
Segunda a sábado, 18h à meia-noite

Zezito’s

Originalmente em um pequeno prédio numa esquina do Água Verde, há dez anos está no endereço atual: uma bela casa com uma grande varanda envidraçada. De frente para quem entra, o extenso balcão. Mais extensa do que ele, é a tradição do Zezito´s Bar: 60 anos de história, fina botecagem e excelente gastronomia.

Sempre nas mãos da família Negrão, hoje são duas gerações lá dentro. Na cozinha, o Zé Mauro Negrão, filho do Juca e neto do fundador. Pois o Zé criou os almoços do Zezito´s, servidos no bufê a quilo, de segunda a sexta. Entre saladas, pratos quentes e sobremesas deliciosas – receitas de família – o Zé Mauro comprova que os cursos de culinária que vem realizando valem cada investimento. Além disso, ele é atleta e acaba chamando muito público das academias da redondeza para o bufê, super equilibrado. A preocupação com saúde e bem estar fica evidente nas receitas.

À noite o Zezito´s assume sua identidade tradicional: “um boteco em sua essência, uma lenda por excelência”. É isso que a gente lê nas camisetas do time de garçons. Aliás, um timaço à altura dos petiscos que vão para a mesa: costeletas de porco, asinhas de frango, bolinhos, etc. O cardápio é vasto e delicioso para não deixar botequeiro passar vontade.

Dica Tutano: este ano o Zezito´s concorreu no Comida di Buteco com o Onionzitos: porção de bolinhos de carne envoltos por cebola, tudo empanado. Mais uma criação exclusiva do Zezito´s que não dá para não experimentar.

No horário de almoço, somente os pratos do bufê saem da cozinha. Os petiscos, apenas no segundo turno.

Rua Dom Pedro I, 345, Água Verde
Segunda a sexta-feira, 11h30 às 14h30; 18h à meia-noite
Sábado, 11h30 às 14h30

rodape_andre

André Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra

Leia mais:

Bar do Toninho, por André Bezerra
Gato Preto, por André Bezerra

1 COMENTÁRIO

Comments are closed.