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Beto Madalosso chegou ao Piemonte

3 de agosto de 2017

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Uma das regiões mais relevantes da gastronomia mundial

Cheguei ao Piemonte sem mais nem por que, sem fazer a mínima ideia do que iria encontrar. Sou um descendente de italiano meio mandraque, daqueles que nunca sequer aprendeu a língua.  Há algum tempo eu sentia que faltava um pouco de Itália dentro de mim. Eu tinha que resolver isso.

Fiquei procurando o momento certo pra sair, deixar tudo pra trás, sem data certa pra voltar.  Família, namorada, trabalho… para essas coisas não existe hora, não se renuncia afeto. Mas a cabeça viaja, sonha com o desconhecido. Obsessivo que sou, passei quase dois anos planejando minha fuga. A crise econômica brasileira ajudou. Sou empresário e empreender no Brasil virou algo inviável nos últimos anos. Retração econômica, juros altos, burocracia e leis ultrapassadas amputam a carreira de quem deseja abrir um negócio. É como proibir a liberdade de expressão a um jornalista. Sufocado e sem esperança, eu tinha um bom motivo pra praticar meu auto exílio.

Conversei com um, conversei com outro, dei um Google, abri uma revista.

A resposta estava mais perto do que eu imaginava. Foi uma das cozinheiras do meu restaurante que deu a dica. “Beto, acabei de voltar de uma escola de cozinha internacional que fica no norte da Itália, se quiser eu te passo o contato”. Um curso de gastronomia na Itália! Por que não? Quando eu me dei conta eu já estava com a inscrição feita e com a passagem comprada. Eu iria para Alba, Piemonte. Ate embarcar era só isso que eu sabia. “Beto, a cidade tem cheiro de chocolate”. Quando me falaram eu duvidei. Tive dois trabalhos: duvidar e “desduvidar”.

Quando vi a placa de boas vindas a Alba o cheiro entrou pela fresta do meu capacete. Parecia tudo programado, coisa de ficção cientifica. Acho que quem vive aqui nem sente mais, tipo aquele pessoal que trabalha dentro de perfumaria e que acaba se acostumando. Eu, felizmente, ainda não me acostumei. Estou aqui há dois meses e todas as manhãs que saio de casa a caminho do meu curso sinto a brisa de chocolate no ar. Não poderia ser diferente. A fábrica do Ferrero Rocher fica aqui, nasceu aqui, e emprega algo em torno de cinco mil funcionários — não pesquisei, ouvi falar. Se você nunca ouviu falar em Ferrero Rocher, talvez já tenha ouvido falar em Nutella. Pois é, também é daqui, sai tudo mesmo lugar.

Estou aqui há dois meses e todas as manhãs que saio de casa a caminho do meu curso sinto a brisa de chocolate no ar

Espera aí, vou pesquisar. Olha o que o Wikipedia diz: “Em 2016, saíram diariamente dois milhões de frascos de Nutella, em porções que vão das 15g aos 3kg, da enorme fabrica de Alba, com uma superfície de 340.000 m², o equivalente a 50 campos de futebol.” E essa incrível fábrica de chocolates está a 500 metros do meu apartamento. Cheguei na praça principal dez minutos depois do previsto e larguei a moto numa vaga irregular com todas as malas em cima. Confiei na sorte. Tirei apenas a carteira e o celular e saí apressado pra encontrar com a Verônica, que já tinha mandado duas mensagens perguntando se eu estava por perto. Da praça segui por uma rua larga de paralelepípedos cercada de pastifícios, cafeterias, trattorias e gelaterias com vitrines fartas e coloridas. Atraído pelo aroma, entrei num empório que vendia trufas negras e pedi informações. “Eu procuro pelo ‘Bistrot dei Sognatori’, você sabe onde fica?”. A atendente me passou as coordenadas. Atravessei duas ruas, entrei numa praça grande e, do outro lado da praça, vi um pessoal almoçando debaixo de uma marquise sob a placa do restaurante. Era ali. Olhei em volta. De repente uma moça levantou e veio em minha direção: cabelos grisalhos inconfundivelmente enrolados e espetados, idênticos ao perfil de seu WhathatsApp.

“Ciao! are you Carlos?”, a Verônica me cumprimentou dando as boas vindas.

Voltamos até a moto. Segui ela que, pedalando lentamente sua bicicleta old fashioned, me guiava pelo pequeno labirinto do centro de Alba. Andamos uns 300 m até chegar à casa que eu havia alugado. “Este é o centro histórico da cidade, você esta na melhor área de Alba. Tudo se faz a pé por aqui”, ela falou abrindo um mapa e mostrando os principais serviços. “Lavanderia é aqui, mercado é aqui, a estação de trem está aqui. Se você quiser almoçar num bom lugar gastando pouco, é aqui. Agora, se quiser ir num dos melhores restaurantes do mundo, é só dar trinta passos, o Crippa é nosso vizinho, ele tem três estrelas Michelin”, ela falava enquanto eu prestava atenção. “Aqui estão as chaves. São cinco: uma do portão do condomínio, outra da porta da escada, outra do portãozinho do corredor, essa é da casa do lixo e essa, finalmente, é da porta da casa. Estão numeradas na sequência para você não se perder. O pagamento é antecipado e em dinheiro, são 500 euros por mês conforme combinamos”. Paguei, agradeci, e falei que entraria em contato se precisasse de alguma coisa.

Barbaresco 7 km, Barolo 15 km, Asti 20 km, Novello 17 km. Em menos de uma hora percebi que eu estava numa das regiões mais relevantes da gastronomia mundial.

Instalado, caminhei explorador, livre, como se flutuasse num balão de ar quente, observando sem ser observado — ah, o prazer de ser invisível! A cada esquina uma descoberta. Tirei uma foto em frente ao restaurante do Crippa e falei pra mim mesmo: “um dia vou trabalhar nessa cozinha”. Cheguei a criar um diálogo do meu pedido de emprego. Segui em frente, saí do centro histórico e encontrei as ruas asfaltadas da cidade nova. Mais cafés, mais restaurantes, mais gelaterias, enotecas e pastifícios. Dei de frente com uma universidade de enologia, sonhei de novo, e, num dos cruzamentos que cruzaram meu caminho, vi as placas indicativas: Barbaresco 7 km, Barolo 15 km, Asti 20 km, Novello 17 km. Em menos de uma hora, percebi que eu estava numa das regiões mais relevantes da gastronomia mundial.

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COMENTÁRIOS
  • Isso è um teste, mas poderia não ser caso os comentários pedissem cadastro obrigatório. Que tesao de portal, parece o espelho do meu quarto