Bife Sujo, por André Bezerra

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Era uma vez um servente de pedreiro. Quando ele tinha dezesseis anos, a mãe ligou para um primo dela. Estava na hora do menino alçar novos vôos. Era 1980 quando Rui Cesar da Fonseca acudiu ao telefone. Fazia três anos que ele tinha comprado um restaurante no centro de Curitiba – o Ele e Ela – do chinês, antigo proprietário. Próximo às Lojas Americanas, seguiam servindo os pratos executivos de dia, e incluíram petiscos à tarde. Por ser tão próximo da Boca Maldita, era frequentado pelos jornalistas, artistas, políticos e intelectuais que dividiam os balcões da região.

Não levou muito tempo e um dos clientes, reparando que o bife chegava à mesa com as marcas da chapa, pediu: “eu quero um bife sujo”. Era o batismo informal do restaurante que é referência entre as rodas de amigos em busca de ótima comida caseira. Em 1981, o jovem Cesar Wisniewski Cesinha – deixou os canteiros de obra e chegou ao centro de Curitiba para aprender a ser copeiro no Bife Sujo. Era tão pequeno que precisava usar uma caixa como tablado para alcançar o balcão. Ali, entre copos e pratos que ele aprendeu a lidar, Cesinha se perguntava “quem são esses sujeitos tão reverenciados que se encontram no salão do Bife?” Paulo Leminski, Luiz Geraldo Mazza, Anfrísio Siqueira, José Richa, Pedrinho do Cavaco, Jaime Lerner e o jovem Ivo Rodrigues.

Havia também os clientes que pareciam surgir diretamente da noite, como a Gina, figura emblemática dos anos 70 e 80. De copeiro, Cesinha tornou-se garçom do restaurante, quando ficou amigo de dois colegas: Pedro Pakuszewski e Valdinei de Oliveira, o Nei. Em 1993, os três garçons mais antigos da casa compraram o Bife Sujo, do Rui. Em 1994 locaram o ponto e se transferiram para o endereço onde o restaurante está hoje, na Saldanha Marinho. Nessa época ainda abriam dia e noite, mantendo a clientela e criando novos pratos na cozinha.

Ali, entre copos e pratos que ele aprendeu a lidar, Cesinha se perguntava “quem são esses sujeitos tão reverenciados que se encontram no salão do Bife?” Paulo Leminski, Luiz Geraldo Mazza, Anfrísio Siqueira, José Richa, Pedrinho do Cavaco, Jaime Lerner e o jovem Ivo Rodrigues.

A tradicional feijoada dos sábados nunca foi deixada de lado, desde quando concorria com poucas, como a do Lá No Pasquale. À partir de 2006 o restaurante passou a abrir apenas no almoço – a violência na região dava sinais de que era a nova dona da rua. Em 2007, a comprovação. O Bife quase foi destruído por um incêndio que começou num arrombamento e invasão durante a noite.

Transcorreram 48 dias até que reabrisse, todo reformado, durante uma aguardada feijoada. Hoje um dos carros-chefes é, justamente, o “bife sujo” – ao lado da costela de forno – mas agora chega à mesa como uma bela porção de tiras de bife de ancho sobre a chapa. Sobre as paredes, duas exposições permanentes. Uma de fotos em preto e branco, retratando as gerações de clientes nas mesas e balcões do Bife de ontem e de hoje. Na outra parede, as caricaturas feitas dentro do restaurante ao longo dos anos. Juntas, retratam que tempo, tradição e arte andam de mãos dadas. Melhor quando se encontram diante da boa mesa.

Atualmente a casa serve almoço a quilo ou a la carte, de segunda a sábado. Um dos melhores custo-benefícios na região da Saldanha, ali o cliente paga, no máximo, R$15,50 pelo buffet com sobremesa. A feijoada de sábado também segue disputada, e vem servida na cumbuca. Tem nas versões completa e “light”. Tire cinco minutos para bater um papo com o Cesinha ou com o Nei, que seguem comandando o restaurante – um no caixa e o outro, no salão. Você vai intuir como o Bife Sujo, com suas histórias e a cozinha extraordinária, é um marco da tradição boêmia sob o céu e a luz dos dias curitibanos.

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André Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby.
Siga no Instagram: @andrbezerra

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2 COMENTÁRIOS

  1. Excelente matéria, conheço desde a década de 90, no endereço antigo e depois no atual…bons tempos aqueles.

  2. Era 1980, quando conheci o Bife Sujo, ponto de encontto da galera, estudantes,musicos e a “thurma” que curtia a noite, bom papo e uma mesa era muito disputada, então a gente ficava em pé mecmo…saudades de uma Curitiba mais interessante…

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