ENTRAR Bem-vindo! Faça login para ter
uma experiência completa.

Chef, cozinheiro ou hobby?

19 de outubro de 2016

(452)
Pra você, que cozinha pra família nos fins de semana, um recado: você não é chef, nem cozinheiro

Calma, respire fundo e reflita. Este texto não tem o objetivo de te ofender; tem o objetivo de colocar as coisas nos seus devidos lugares. Primeira pergunta: você vive da cozinha? Se a resposta for não, cozinhar é teu hobby, independentemente se tua tia ou tua namorada te apresentam como chef para as amigas. E cozinhar bem, como elas afirmam, caso não estejam mentindo (pessoas sempre querem agradar quem prepara o jantar), é um simples capricho do acaso. Cozinhar bem não te faz um cozinheiro. Aliás, a grande maioria dos cozinheiros em restaurantes mundo afora não cozinha bem, cozinha pra (sobre)viver: ganhar salário pra poder pagar as contas no fim do mês. Quem cozinha pra ganhar salário e pagar as contas é cozinheiro. Você não é!

A grande maioria de cozinheiros em restaurantes mundo afora não cozinha bem, cozinha pra (sobre)viver: ganhar salário pra poder pagar as contas no fim do mês.

Tire isso da tua cabeça. Mas a mídia malvada não te deixa em paz e te enfia diariamente celebridades da cozinha goela abaixo até que um dia você pensa: “Tá aí, essa é a vida que eu quero levar”, e resolve trocar aquele teu emprego seguro e burocrata por algo que te parece muito mais irreverente e sedutor. Aqui, um parêntese pra falar da mídia. (A mídia se aproveita mais do chef de cozinha do que o chef se aproveita da mídia. Devido ao sucesso estrondoso de nomes como Jamie Oliver, Gordon Ramsay e Nigella Lawson, canais de televisão, jornais e revistas do mundo inteiro se apropriaram desse produto fenomenal em busca de audiência, como se todo chef de cozinha tivesse algo importante pra dizer – o que é ridículo! Sim, alguns pouquíssimos têm muito a dizer, o que não torna a classe, como um todo, formadora de opinião.)

Então você se matricula numa escola de gastronomia, cuja mensalidade é mais salgada que um salário de cozinheiro, e se encanta com a vida acadêmica em que os professores são divertidos, as gatinhas descoladas, com os dedos cheirando a alho, te dão moral no intervalo e as aulas são mais práticas que teóricas. Você “se encontra”! Faz tatuagem de facas, caveiras e panelas pelo corpo e não vê a hora de o curso acabar pra procurar emprego com teu diploma de “chef ” debaixo do braço. Bem-vindo ao mundo real. “Você não é chef ”, vão te dizer em todos os lugares onde você bater à porta. “Se quiser, temos uma vaga para auxiliar de cozinha”. Se ouvir isso, não se ofenda. Nenhuma formação superior, NENHUMA!, transforma alguém em chefe. Reflita! Um administrador de empresas, por exemplo, se transformará num chefe apenas quando tiver algum subordinado, e isso costuma levar alguns anos de carreira. Chefe só é chefe quando chefia alguém, não por ter diploma. É óbvio dizer isso, mas parece que ninguém entendeu ainda.

Então, depois de muito “camelar”, você resolve “ser humilde” e aceitar “apenas” uma vaga de auxiliar ou cozinheiro. Te digo: você não vai durar nem um mês até querer largar tudo e voltar para o teu escritório com ar-condicionado. Não se sinta mal, existem milhares como você. Duas coisas vão fazer você aguentar por mais tempo descascando batatas e lavando fogão: ou você é persistente o suficiente e quer mesmo se tornar um chef, ou você não tem plano B e precisa de dinheiro pra pagar as contas no fim do mês. O segundo motivo é invariavelmente muito mais forte que o primeiro. Uma das coisas mais horripilantes que nós, empresários da gastronomia, ouvimos de playboys e dondocas aspirantes a chef é: “Por esse salário eu prefiro ficar em casa”, já que suas mesadas costumam ser mais gordas que salários de cozinheiros. Entenda, meu bon vivant, quem não quer você por aqui somos nós!

Restaurante é um lugar onde se trabalha muito, especialmente quando nossos queridos amigos estão curtindo a vida: fins de semana e feriados. Se não quer abrir mão disso, lamento, mas você escolheu a profissão errada. Quando digo “Morte aos chefs!”, quero a morte da ilusão, a morte da fantasia, a morte do vazio que a palavra representa. Quero trocar “chef ” por “chefe” (com “e” no final), por “gerente”, por “líder”, ou seja lá o que for, mas que tenha substância e que seja verdadeiro.

O termo “chef ” acabou por se tornar uma assombração no mundo gastronômico. Durante toda a minha carreira dentro de restaurantes convivi com pouquíssimos chefs (com o perdão da palavra) de verdade. Destaco três deles, em especial, que estão ao meu lado até hoje: a Sônia, o Wellington e, claro, minha tia Flora Madalosso. Nenhum deles tem tatuagem e provavelmente não saibam em que parte do mundo crescem trufas brancas, mas têm as principais competências que escolas de gastronomia não conseguem ensinar: humildade, determinação e disciplina. Três palavras que descrevem um líder. “Líder”? Esqueça, amigo, não é o teu caso.

Parágrafo complementar (para os politicamente corretos)

Este texto é uma visão generalista sobre a mão de obra da gastronomia contemporânea. É o grito preso na garganta dos chefs de verdade, que querem exorcizar chefs de mentira. Obviamente, existem exceções. Surpreendentes exceções. Não sou contra a mídia gastronômica (até porque sou dono desse portal), e muito menos sou contra cursos de gastronomia (aliás, incentivo e invisto na formação técnica da minha equipe em escolas especializadas – eu mesmo possuo tal formação). Opa, antes que eu me esqueça: tô pensando seriamente em fazer uma tatuagem.

Leia também:

A impossível arte de delegar
Um filho de dono de restaurante

COMPARTILHE ESTA MATÉRIA
AVALIAÇÕES
(452)
  • Excelente
    262
  • Muito bom
    54
  • Normal
    30
  • Ruim
    36
  • Horrível
    70
DÊ SUA NOTA:
COMENTÁRIOS
  • Vivo tudo isso!... Esplêndida matéria!

  • Parabéns, excelente texto! É bem por isso que nunca quis ser chef. Sou apenas uma boa cozinheira para a família, que resolveu fazer um curso de Chef, só por hobby e para aprender melhor as técnicas de uma boa comida. Mas claro, sem perder nada do ensinamento que realmente interessa, que é o que aprendi com minha mãe. O da cozinha simples e gostosa. Aquela que emociona a casa garfada.

  • Bem isso!
    Profissão de AMOR não de moda!
    Ontem eu estava na área como chefe hoje estou na área em outro restaurante , em outra cidade em outro estado como auxiliar de cozinha ,pois essa era a vaga que tinha e continuo AMANDO TUDO ISSO #AMORAPROFISSAODECOZINHAR

  • entrei esse ano na faculdade de gastronomia e desde o inicio eu já tinha em mente que essa formação não iria adiantar pra "nada" em questão de eu já ser um Cheff assim que me formasse, achei o máximo o texto, eu e uma amiga já tivemos a ideia de, quando tornarmo-nos Chefs, usar o lema que criamos: o castelo que construí foi com os pratos que lavei! sempre chegam me perguntando, ai, logo vamos ter um cheff, aí eu já digo que esse logo vai demandar no mínimo uns 15 anos com base nos meus planos kkk

  • Este artigo, merece 10 estrelas de avaliação, e gostaria muito, que ao menos 30% dos deslumbrados que saem de uma faculdade com um certificado, se achando "Chef" tenham a decência de dispor 5 min na leitura de sua escrita! Pois já ouvi muitas criticas ao informar que o meu " Diproma" não me faz " Chef", visto que jamais chefiei uma cozinha! Sou cozinheira/Confeiteira com formação profissional, sou Culinarista de empresas de alimentos, boleira, salgadeira! Mesmo porque a Universidade me forneceu um certificada de Tecnólogo em Gastronomia , o que acrescentou no meu "saber" sobre cozinha apenas algumas teorias, que até o momento, não me garantiu, nenhum ganho financeiro! Mas um "VIVA" a MÍDIA que transforma a simples boleira que aprende fazer um lindo bolo em 'Fondat"em 'CAKE DESIGNER", que mal sabem desenhar uma estrutura de bolo em uma folha A4, mas no Google e só apertar CTRL+ C COPIAR; CTRL+V COLAR!
    PS. Ah, antes de criticar-me deixo aqui o meu respeito aos grandes confeiteiros na Arte de Decorar bolos em Pasta de Açúcar, e diga -se excelentes, tanto na doçura, quanto na humildade, sem deslumbramentos!

  • Saí da faculdade de gastronomia ano passado e o texto ilustra muito bem a visão dos estudantes de gastronomia... Vivo da cozinha desde 2011, então meus colegas meio que sentiam "pena" da minha correria, dava para perceber nos olhos deles que não era a vida que levo o que almejavam. A turma dispersou, alguns que já trabalhavam na área continuaram, outros estão na luta, mas a maior parte não. O que as pessoas não entendem é que cozinha dá muito, mas muito trabalho, exige várias horas do dia de pé, a pessoa tem de gostar mesmo do que faz, ter muita saúde para gastar.

  • Sincero, você coloca os tais "pingos nos ís". Há sim amantes, hobbistas, curiosos, metidos, talentosos, e aí vai...
    Mas Chef (letra maúscula) , the real Mcoy, leva muito suor e dor para casa.
    Seja o que nos impulsiona influencia da mídia que idealiza, da curiosidade, ou até do desejo de replicar o que admiramos .
    Mesmo os sérios nessa empreitada de estudar gastronomia.
    NÂO somos chefs.
    Quanto à tatuagem , acho que já está demodê...