Chupe você, por Luís Henrique Pellanda

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Foto: equipe Tutano

Eu bebia um café preto na esquina da Comendador Macedo com a Faivre. Descansado, acompanhava de longe o esforço de um rapaz que vinha guiando, ladeira abaixo, um carrinho de mão cheio de mexericas. Teria, no máximo, dezessete anos. A calçada não o ajudava, pondo em risco sua carga. Achou melhor parar. Estacionou sob a marquise, bem à porta do café. Apesar da friaca matinal, ele suava muito. Olhava para mim, na esperança de que eu o chamasse. Nem viu a moça bonita chegando. Quando ela o abordou, tomou um susto. Pensou que fosse uma freguesa. Não era. Só queria saber onde ficava a rua General Carneiro. Precisava entregar um currículo numa firma ali perto. Abriram vaga pra copeira, explicou.

Se o moço a achou bonita, esqueceu de demonstrar. Talvez por ser ele também bonito e achar que a beleza é uma graça falaz ou corriqueira, coisa que não se comenta e, às vezes, mal se nota. Ou quem sabe por ser a moça uns cinco anos mais velha que ele, o que possivelmente o inibia. Fato é que não se engraçou com ela. Apenas indicou a ladeira que tinha acabado de descer, dizendo que a General Carneiro era a rua seguinte, paralela à Faivre, uma quadra acima, não tem erro.

A moça agradeceu, mas não partiu. Ficou em silêncio, estudando os efeitos da luz no rosto do vendedor. O brilho dourado que emanava do carrinho de mão entre os dois. E então perguntou se ele estava vendendo aquelas frutas ou o quê.

O moço relaxou. Sorriu e ergueu a aba do boné. Fisgou com o dedo uma redinha amarela, pesada de mexericas, e a içou no ar, diante dos olhos espertos da moça. Dez reais o quilo, dona, são mimosinhas muito doces. Ela disse que não duvidava. A cara das frutas estava ótima, e sua cor ainda mais, só não era aquele o seu interesse. Aparência, gosto, cor, nada disso. Gostava mesmo era do cheiro das mimosas. Adoro, reforçou. Me traz lembranças que nem te conto.

Inexperiente, o rapaz se precipitou. Sugeriu à moça que então levasse um ou dois de seus farnéis: um por dez, dois por quinze. Ela pareceu perder um pouco do entusiasmo. Disse que ele não a tinha entendido. Ela não gostava de mimosas. Gostava é de sentir o cheiro que elas deixavam na mão da gente, depois de descascadas. Por isso pediu a ele uma fruta. Só uma. Não um quilo. Ela jamais chuparia um saco todo. Não compensava.

Ele tirou o boné. Coçou a cabeça. Recolocou o boné. Ela sorriu, só uma, o que custa? A moça gostava do cheiro das mimosas. O moço não estava gostando daquela história. Mas estava gostando da moça. Tentou se justificar: as frutas não eram dele, ele não podia rasurar as redes, ninguém compraria um saco rasgado, o patrão descontaria da sua diária. Surda, ela sorriu de novo, só uma, vai?

Ele cedeu. No fundo, também desejava dar à moça uma mexerica. Azar. Arregaçou um dos sacos e roubou, lá de dentro, uma frutinha. Bem miúda, ainda esverdeada. Com duas folhinhas presas ao cabo. A moça apanhou o pomo como se acolhesse um passarinho ferido. Descascou a mimosa aproximando-a do nariz, aspirando o spray cítrico do seu perfume. Guardou as cascas no bolso da jaqueta e devolveu a fruta nua para o rapaz. Inspirou o ar na concha das mãos, baixando as pálpebras. Lacrimejou. Abriu os olhos, fechou, reabriu. Em seguida, despediu-se do moço que, ao vê-la indo embora, ainda esticou o braço, perguntando: Ei, moça, e essa mimosa?

Chupe você, disse ela, cruzando a Faivre.

Confuso, ele a avaliou pelas costas. Abaixou a aba do boné, para manter o olhar na sombra enquanto a observava se afastar. Enfiou o polegar entre os gomos da fruta e a repartiu em duas metades iguais. Jogou tudo na boca e mastigou os bagaços demoradamente. Estava azeda. A moça não olhou para trás, e só quando a viu dobrar à direita, na General Carneiro, o vendedor se conformou. Ele a tinha perdido para sempre. No covil de sua mão de menino, já calejada, cuspiu então uma dúzia de sementinhas. Atirou-as no asfalto. Voltou a empurrar o carrinho. E eu pedi mais um café.

Luís Henrique Pellanda é escritor e jornalista, autor dos livros “O macaco ornamental”, “Nós passaremos em branco”, “Asa de sereia” e “Detetive à deriva”. Siga no Instagram: @lhpellanda

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