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Álbum de inverno, por Luís Henrique Pellanda

17 de julho de 2018

(27)
Retratos de uma feira na Osório

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No primeiro quadro, há um casal de meia-idade. Os dois acima do peso, ele com uma aliança no dedo, ela sem. Dividem uma mesa na feira de inverno da Osório. Estão sentados a poucos metros do repuxo das sereias. O sol do fim da tarde doura ainda mais a pamonha que ele come, de colherinha amarela. A mulher bebe quentão num copo de isopor e, sem sucesso, tenta mergulhar na bebida um marshmallow cor-de-rosa. Entre eles, numa travessa, amontoam-se as cascas de pinhão cozido. Fingem que não estão juntos, que nem se conhecem, mas ela não se contém e estica a mão direita até a coxa esquerda do homem, tomando posse daquela perna. Imóvel, ele se deixa dominar, não resiste. Apenas seus olhos se mexem, procurando na praça algum espião, um traidor. Não me vê.

2

No segundo quadro, duas travestis cruzam a Osório, acelerando o passo. Estão a caminho do trabalho, não sei se num salão de beleza, na rua, numa boate. Ambas sem maquiagem, de cabelos molhados, recendendo a xampu. Desmontadas, calçam tênis de corrida. Carregam bolsas imensas. Lá dentro vão os sapatos de salto, o arsenal cosmético, o secador. Apesar da pressa, se encantam com o efeito da luz nas águas do repuxo, é tão lindo, a esta hora as sereias parecem vivas. Decidem parar um minuto, apreciar o fim do dia. Ainda dá tempo de comer alguma coisa, diz uma delas, morena. A outra, ruiva, sugere que bebam um quentão de vinho, terão uma longa noite pela frente, depois não poderão beber, isso é vida? Mais que um direito, aproveitar esse resto de sol é uma obrigação. Acabamos de acordar e ele já está se pondo, isso não fica assim. E então bebem, restabelecendo a justiça no mundo.

3

No terceiro quadro, uma moça musculosa exibe trajes coloridos de ginástica. Vêm com ela um moço atlético, seu namorado, e um sobrinho pequeno. O casal ostenta anéis de compromisso, em prata fosca. Indecisos, dão duas voltas no repuxo, avaliando bandeiras e barracas: Polônia, Itália, Chile, Japão. Difícil escolher. Para agradar o menino, a tia resolve comprar um espetinho de bombons de morango. Carinha de nojo, o sobrinho diz que não quer. Ela faz que não escuta e compra mesmo assim. Achou tão diferente aquele arranjo, tão bonito, e qualquer beleza, nesse mundo, já lhe parece irrecusável. Só que não, o menino reitera, ele não comerá o doce, e o rapaz o apoia, não estão a fim de açúcar, preferem salgado. A moça se sente abandonada, mas logo se refaz. Não foi para se entristecer que saiu de casa. Ela está feliz, e a luz do sol sobre as águas está perfeita. Por isso decide tirar uma selfie, as sereias ao fundo, o espeto de bombons em riste. Será a prova de que se divertiram, sim. Ela e as sereias.

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No quarto quadro, uma loura de bicicleta pedala no meio do povo. Incauta, ela incomoda muita gente. Mas por se tratar de uma jovem bonita, dona de um sorriso simpático e de um jeito agradável de pedir desculpas, todos a perdoam. Ela apeia na fila das empanadas. Dali namora as sereias de ferro no repuxo. Nota algo de diferente e indefinível na luz do fim daquela tarde e no modo como ela incide sobre as águas do chafariz. Apaixona-se, só não sabe pelo quê. Faz seu pedido, carne com passas para viagem, e, enquanto espera, se aproxima da fonte. Imagina e idealiza o efeito daquele mesmo sol em seus cabelos claros. Pensa em bater uma selfie. A bicicleta, porém, dificulta a operação. A loura quer que ela saia na foto, mas é impossível enquadrá-la sozinha. Pede ajuda para mim. Me passa o celular, o visor moído, a capa de strass dourado, moço, me ajuda? Mas é claro, estamos aqui pra isso.

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No quinto quadro, um homem muito velho surge empurrando, por entre as barracas, uma cadeira de rodas. A multidão se abre e boquiabre à sua lenta passagem. Na cadeira está sentada uma mulher cega e sorridente. Ela não usa óculos escuros e seus olhos são brancos. No colo da mulher há uma menina magra, de quatro anos, que divide um pastel com uma boneca sem cabelos. O grupo estaciona o veículo junto ao cercado do repuxo, e o velho se posiciona para bater um retrato daquele triângulo afetuoso, mulher, menina e boneca. São três gerações de uma mesma família, ou quem sabe quatro, ou até mesmo cinco, aquele velho sendo o avô da mulher cega, o tio-bisavô da criança com o pastel, o tio-trisavô da boneca careca.

6

No quadro geral, a moça com trajes coloridos de ginástica aproxima o espetinho de bombom dos seus dentes clareados. Sorri e bate a selfie. As travestis erguem um brinde de quentão ao sol de julho e se escoram no cercado do repuxo para outra foto, alegre e casual. Eu, por minha vez, enquadro a loura da bicicleta, seus cabelos brilham de forma satisfatória, e me sinto o autor daquelas luzes. O velho pede atenção às moças na cadeira de rodas, elas sorriem. E todos batemos nossas fotos mais ou menos ao mesmo tempo.

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Apenas o casal de amantes clandestinos não se fotografa, embora apareça em todas as outras fotos, ao fundo de cada retrato, disponíveis em todas as redes sociais: um homem e uma mulher, a aliança de ouro dele, sem par, o marshmallow rosa inaufragável, as cascas de pinhão lembrando baratas mortas sobre a mesa, a palha do milho verde já raspada, a colherinha feito um palito entre os dentes do cara, os dois sorrindo enquanto tentam não se encarar, ela tocando a coxa dele e ele inerme, rendido, não querendo jamais arredar aquela mão de unhas azuis do azul de sua calça jeans lasseada. E então anoitece.

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Artigo de: Luís Henrique Pellanda

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  • Gostei muito de que você escreve Linguagem simples e gostosa. Saudades de você