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Bar do Toninho, por André Bezerra

5 de setembro de 2017

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Conheça a história do boteco que são muitos

Era uma vez uma Mercearia. Seu nome: Mercearia Gabriela. O endereço: Ângelo Sampaio, 1776. Corria a década de 70, e a Ângelo era uma via de duas mãos, toda de paralelepípedos, arborizada, tranquila, típica rua de cidade do interior. Diante da mercearia, meninos da vizinhança jogavam futebol, descalços, faziam campeonatos de bétis. Eventualmente, entravam para pedir água da torneira ou beber um refrigerante, talvez uma gasosa Cini.

Os anos foram passando. Com a chegada das redes de supermercados, ficava cada vez mais difícil manter uma mercearia de bairro, a concorrência era desleal. A Mercearia Gabriela se mantinha, mas começou a passar de mão em mão. Houve um primeiro comprador que, algum tempo depois, também a vendeu para um terceiro proprietário. Como seus antecessores, ele manteve o estabelecimento no “predinho” da Ângelo – à época de propriedade do Café Alvorada – funcionando como mercearia.

Um caminhoneiro a caminho de Curitiba

Em 1980, o caminhoneiro Antônio Carlos Stella, membro de família italiana em Fartura, no interior de São Paulo, viajava entre aquele estado e o Acre, transportando cereais. Ele acabou descobrindo um problema renal. Veio a Curitiba fazer uma cirurgia, onde passou 15 dias. Gostou da cidade e pediu para a esposa, Vilma, vir dar uma olhada: “Ela gostou, eu falei pega a mudança e vai”, conforme nos contou o Toninho. Marido e mulher, então, vieram com mudança e o casal de filhos pequenos, Juliano e Carolina, para a capital paranaense. O caminhoneiro tinha um conhecido que lhe ofereceu comprar um comércio. O ano era 1982 e esse comércio se chamava Mercearia Gabriela.

Bar e Mercearia Stella

O comércio ficava nesse pequeno prédio da Ângelo e atendeu a necessidade da família: atrás, uma residência completa, onde os Stella se instalaram. Na parte da frente, a mercearia. Desde o início, Toninho, como é chamado pelos amigos, começou a promover uma transformação: a mercearia se converteria, aos poucos, em um bar. A primeira providência foi “fazer o sinal de fumaça”. O empreendedor de Fartura colocava uma churrasqueira na calçada, diante do bar, assava carne e o aroma do churrasco, além de fregueses, passou a atrair boa parte da vizinhança. Também foi colocada uma geladeira para adiante do balcão, com cerveja bem gelada. A clientela pegava a própria garrafa, abria e consumia ali mesmo, entre uma rodela de linguiça e um pedaço de carne assada na brasa.

Além do churrasco, o Bar e Mercearia Stella, como passou a se chamar, servia a tradicional porção de quadrados de mortadela. Também tinha pratos executivos – PFs – caprichados, saídos da cozinha caseira. Quando a mão de ferro da prefeitura de Curitiba passou a bater na porta, fiscalizar como um soldado da Gestapo e empilhar centenas de demandas sobre o tradicional balcão, Toninho decidiu que não seria restaurante, mas bar. Nascia o boteco onde, anos depois, muitas turmas de amigos se encontrariam em volta de boas porções, música executada ao vivo por eles e, naturalmente, dos tragos e da cerveja, até hoje retirada pelo freguês de dentro das geladeiras no salão.

República Independente do Bar do Toninho

Em 2010, o jornalista José Carlos Fernandes, da Gazeta do Povo, escreveu uma matéria sensacional sobre o Bar, que intitulou: “República Independente do Bar do Toninho”. Hoje, ela está numa moldura, pendurada entre as dezenas de quadros e pôsteres de fotografias que cobrem as paredes da Casa. “Atualmente, 70% da minha freguesia não é de clientes, são amigos”, contabiliza Toninho, enquanto dá um nó na sacola plástica cheia de moedas trocadas, que acabou de ganhar de um cliente habitual. Opa, cliente não. Amigo. Ele simplesmente entrou no bar, saudou a mim e ao Toninho e anunciou: “Aqui tem 82 reais em moedas trocadas, coloque aí pra mim como crédito da cerveja”. E lá foi o Toninho anotar no caderninho, com a Bic. Se você pretende visitar essa República Independente, algumas coisas a saber:

  • Não são aceitos cartões ou qualquer outro tipo de pagamento, que não seja dinheiro em espécie. A razão é muito simples: não há tecnologia no Bar do Toninho, isso inclui máquinas de cartão e computadores. “Aqui a gente toma nota no caderno, com a Bic”, estabelece o presidente da República. Enquanto estivemos ali, observamos: com o hábito dos amigos pegarem a própria garrafa na geladeira e o fato de que ninguém atrás do balcão desvia atenção para uma tela de computador, a comunicação olho-no-olho impera soberana. Quem começa a conhecer o Bar do Toninho, passa a compreender que o tempo, dentro daquelas portas para a Ângelo Sampaio, corre em um compasso diferente da cronologia que acontece do lado de fora, no resto da cidade;
  • O endereço é um recanto rubro-negro, por excelência. Coxas, paranistas e torcedores de outros times são bem vindos e se sentirão em casa, igualmente. “A Casa reúne atleticanos, mas tem todos, senão perde a graça. Gostamos da brincadeira saudável. Já vieram torcedores mais chatos, mas aí os amigos cortaram”, avisou Toninho, olhando para mim como se encostasse um estetoscópio no meu peito e ouvisse para qual time o meu coração bate.

Mas, voltemos às paredes do Bar. Elas são uma espécie de vitrine para retratos de reuniões de amigos, pôsteres de futebol, pequenos avisos – sempre cheios de personalidade – e para pérolas da filosofia de boteco. Um dos amigos – o empresário de marketing esportivo, João Teixeira – presenteou a Casa com um quadro que lê: Bar do Toninho, aberto das zóra cô quero até as zóra cô quizé. Mais a cara da República Independente, não conhecemos.

Seguindo para o lado de trás do balcão, uma peça de decoração que chama atenção é a miniatura – não tão mini – de um boi sobre um pedestal com uma placa que lê: Presente do amigo Ratinho. Sim, foi um presente do próprio apresentador de TV, dono da Rede Massa. Ele frequenta o Bar do Toninho há alguns anos, suficiente para saber presenteá-lo. Dentro do boi, um pequeno barril de pinga. Para servir, é só puxar os bagos do boi que ele “urina” a pinga de boa qualidade dentro do copinho.

Amamos tanto a costela assada pelo grupo de amigos no Toninho que pensamos: “se entrasse um padre aqui, nesse momento, casaríamos com essa costela diante de todo mundo”

Falando em copos, o Délcio Rasera, mais um amigo que frequenta o Bar do Toninho, chamou-nos para mostrar uma coleção de copos na prateleira: “Esse aqui é do Fulano. Ele gosta de tomar gim somente nesse copo. Esse aqui, que parece uma caneca, é do Ciclano. Ele só bebe cerveja neste. E este aqui, mais alto, é o meu. Tomo rum com Coca-Cola e gelo, precisa ser neste copo”. O Rasera é delegado da Corporação. Um sujeito grande, de voz poderosa, desses que mandam, e a gente sai fazendo. Maior do que ele, só o coração. Por isso aceitamos, de primeira, o convite para o evento que aconteceria na mesma data quando realizamos a entrevista para esta matéria.

A churrasqueira do Toninho, a costela de Angus e a despedida dos amigos

Horas depois de termos saído do Bar, voltamos para um evento especial: um grupo de amigos vai percorrer o caminho de Santiago de Compostela: Juarez, Ademir, Marlon e o filho, Leonardo. Os quatro ofereceram uma costelada de despedida para cerca de 40 amigos, praticamente todos frequentadores do Bar do Toninho. A Tutano, naturalmente, bateu ponto.

Chegamos junto com a costela saindo do fogo. Costela de Angus dá uma sensação diferente na gente, uma vontade de abraçar a peça inteira e sair dançando com ela, fazendo carinho no matambre, sentindo o aroma dela derretendo. Amamos tanto a costela assada pelo grupo de amigos no Toninho que pensamos: “se entrasse um padre aqui, nesse momento, casaríamos com essa costela diante de todo mundo”. Eis que chega, nesse momento, o convidado especial da noite, muito aguardado por todos. O padre Gabriel Figura, em pessoa. Felizmente ele não havia ido ali para casar ninguém. Compareceu para benzer o Bar, a churrasqueira, a costela de Angus, todos os amigos presentes e, principalmente, os quatro viajantes que estavam por partir para a peregrinação. Em seu breve sermão, o padre Figura questionou que as pessoas vão até Santiago em busca de algo, mas será que estão preparadas para deixar alguma coisa em troca?

Participamos, durante essa noite tão especial, de uma cerimônia religiosa curta, mas linda e emocionante, dessas que só acontecem quando há amigos reunidos em uma capela, ou num templo. Aliás, se for para classificar, o Bar do Toninho é um templo da boa gastronomia. Ali são servidas coxinhas, rissoles, bolinhos de carne e pastéis. Há também as porções de isca de frango com palmito, de tiras de carne e de torresmo de verdade, a barriga do porco. Você também pode optar pelos sanduíches – destacamos o pão com bife e o X-tudo – ou, se for botequeiro de carteirinha, pedir as cebolas e batatas em conserva, ou os rollmópis. Há muito mais coisa, mas vale à pena ir lá e descobrir aos poucos.

Depois da cerimônia especial, passamos para uma mesa na calçada. Queríamos agradecer ao Rasera, pelo convite. Ele filosofou um pouco mais sobre a atmosfera no Bar do Toninho. Com voz de trovão e diante do copo alto, repleto de rum, Coca Cola e gelo, proferiu mais algumas pérolas, certamente inspirado pela fala do Padre: “Essa é uma Casa que preza o respeito ao próximo, a cidadania e a Família. Com a benção de Deus e todos os defeitos dos pecadores”.

Salve o Bar do Toninho, Amém!

Alferes Ângelo Sampaio, 1776
(41) 3225-3774
Abre diariamente, das 10h30, té as zóra quêle quizé.

rodape_andre

André Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra

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Artigo de: André Bezerra

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COMENTÁRIOS
  • Excelente matéria
    Nasci na Gutemberg com a Ângelo
    Tenho orgulho de falar q minha família participou desta história, como mercearia e bar.

  • Oi, Luciana, tudo bem? Realmente, a mostarda picante que o Toninho prepara é sensacional!

  • É um grande prazer frequentar o Bar do Toninho! Lá encontramos pessoas extremamente agradáveis, especialmente Sr. Toninho e Dona Vilma. Vale muito na pena conhecer!

  • Mais uma reportagem de tirar o chapéu!!👏👏👏 sempre passo por este bar, nunca parei, agora .... vou parar e conferir

  • Esqueceram de falar do pastel e do molho que o Toninho faz...os melhores do mundo!!!

  • Extraordinária reportagem. Abraços