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Baviera, por André Bezerra

6 de outubro de 2017

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Nosso colunista conta a história dessa tradicional cantina de Curitiba

Era uma vez um dono de antiquário. Descendente de italianos – “meu pai, era italiano puro, do Piemonte” – Giovanni Muffone comprava antiguidades para, depois, revender em sua loja, no alto da Alameda Doutor Muricy, diante do relógio das flores. Em 1972, um conhecido do Giovanni descobriu um porão sob um belo imóvel, também na Muricy, do outro lado da rua do antiquário. O imóvel pertencia à família Hauer e, abordado pelo desconhecido, Orlando Hauer não demonstrou interesse em negociar o porão. Ao descobrir que seu interlocutor – Vítor Sisco – era conhecido do Giovanni, declarou: “com o Giovanni eu negocio”. Estava aberta a negociação do ponto que se transformaria em uma das cantinas mais tradicionais de Curitiba: o Baviera

Com Giovanni entrando como sócio do Vítor, a cantina e pizzaria com pinta das melhores casas italianas foi batizada assim mesmo, com nome de estado alemão. “O Vítor queria chamar de Bavaria, mas eu preferi Baviera”, disse Muffone. A sociedade durou poucos meses, até que Giovanni comprou a parte do Vítor. A transformação foi marcada pela aquisição de toalhas bacanas para as mesas, boas louças e talheres e, naturalmente, a decoração com peças antigas, que estão até hoje pelas paredes e nos detalhes charmosos que caracterizam o ambiente acolhedor do Baviera. “Fomos o primeiro restaurante de Curitiba a colocar velas sobre as mesas. E são velas especiais, por isso não há cheiro de cera no salão”, contou Giovanni. É verdade. O único aroma que flutua no ar vem dos pratos passando pelo forno a lenha. E as velas são colocadas nas garrafas de vinho Mateus, mais achatada, ideal para fazer a decoração das mesas, que também se caracterizam pelas toalhas quadriculadas.

De volta aos anos 70

Com a saída do Vítor e da esposa, que cozinhava, Giovanni convidou o Macedo, na época cozinheiro da Landerna, para se tornar sócio. Os dois, juntos, criaram o cardápio, que faz sucesso no endereço há 45 anos. Os destaques são a sopa de cebola, os calzones, a lasanha de forno a lenha e os filés. Estes últimos, acompanhados de salada fresca, batatas fritas, arroz branco soltinho, que chega à mesa fumegando, e da deliciosa farofa de ovo. O Macedo também acabou deixando a sociedade em menos de um ano e foi tocar outro restaurante. O cardápio, porém, segue praticamente intacto ao longo das últimas quatro décadas e meia, para alegria e deleite dos habitués. Uma das “novidades”, também delicioso, é o estrogonofe de mignon, que entrou no cardápio há cerca de 10 anos. “O seu Giovanni faz um controle rígido de qualidade, tanto dos produtos, quanto da cozinha. Nada entra no cardápio antes de ser testado, muitas vezes, por ele” – contou-nos o gerente-pizzaiolo, Valdo Gogola, na casa há 34 anos. Ele tem muito orgulho de trabalhar ali, assim como a cozinheira, Anadir Varela – 40 anos de casa – e o pizzaiolo Renato da Mota – 30 anos no Baviera.

Cada aspecto sobre a cantina é extraordinário a sua maneira. Mas, o que sempre nos chamou atenção, foi a atmosfera do lugar, com ares de taberna. Ao entrarmos, alguém nos recebeu perguntando em quantos seríamos e onde gostaríamos de sentar. Isso porque são quatro salões, três deles integrados e em níveis diferentes. Escolhi meu salão favorito, de onde consigo olhar para todo o restaurante de cima e, a melhor parte, observar os pratos que saem do forno a lenha.

Cada aspecto sobre a cantina é extraordinário a sua maneira. Mas, o que sempre nos chamou atenção, foi a atmosfera do lugar, com ares de taberna.

Logo ao sentarmos à mesa, o garçom, Samuel Rodrigo, trouxe o cardápio, perguntou se estávamos confortáveis, o que gostaríamos de tomar e acendeu a vela. Na hora de pedir, optamos pelo Filé do Patrão com pétalas de cebola e a farofa de ovos. Também comeríamos a Goiaba com Ricotta, de sobremesa. Embora ninguém na casa soubesse, chegamos ali bem sabatinados pelo Giovanni Muffone, em pessoa. Bebemos suco de laranja, mas a carta de vinhos do Baviera é das mais democráticas de Curitiba, em termos de custo-benefício. Assim como é também o menu desse templo da gastronomia, no centro da cidade.

Tudo a preço justo, servido individual ou para duas a três pessoas, o que não tem preço é o ambiente, absolutamente singular. Segue me intrigando, porém, a atmosfera do Baviera. De onde ela vem? Por que eu sinto que poderia estar em qualquer parte do mundo e em muitas épocas passadas, cada vez que invisto algumas horas ali? Dessa vez, por ter tido o privilégio de passar uma tarde no escritório do Giovanni, conversando sobre a história de vida dele, comecei a desvendar e intuir alguns palpites. Esse cavalheiro – “Já estou indo para 80 anos”, segredou-me ele – descende de duas famílias muito tradicionais, que são a Lacerda, do elevador Lacerda, de Salvador, e a Muffone, de Cortemilia, na Itália.

O Giovanni, inclusive, viveu três anos no “país que se parece com uma bota” e frequentou a vila que a famiglia ainda mantém na região das raríssimas trufas brancas e dos famosos vinhos com espírito piemontês. Ele conheceu muito sobre história, arte, excelente gastronomia e se dedicou ao antiquário, uma de suas paixões, ao longo de décadas. Esse é o cavalheiro que criou, levantou e mantém o restaurante, até hoje. Conhecer essa cantina, portanto, é como experimentar um pouco de cada experiência que ele vem vivendo e emprestando ao Baviera. E uma casa, afinal, só é uma grande casa quando traz, em si, a alma do seu criador e das pessoas que a ela se dedicam.

Baviera
Alameda Augusto Stellfeld, 18, Centro
Segunda a sábado, das 19h à 00h30;  domingo, das 19h à meia-noite.

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André Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra

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Artigo de: André Bezerra

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COMENTÁRIOS
  • Boas lembranças deste lugar!

  • Obrigado pela sugestão, Davi! :)

  • Estou gostando demais das matérias, seria interessante colocar a faixa de preços dos restaurantes visitados, ou os preços de alguns dos principais pratos. No mais está perfeito!

  • Conheço o Baviera a muito tempo ,lugar maravilhoso com ótimo atendimento.
    E os pratos são divinos

  • Excelente como sempre, parabéns

  • Muito bom.