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Borboletas da Madrugada

24 de fevereiro de 2017

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Beto Madalosso foi assaltado e está indignado

O governo é meu sócio. Mais de 30% por cento de tudo que eu recebo vai pra ele (federal + estadual + municipal). Só que o governo é aquele sócio folgado, que tem discurso bonito, fala em avanços tecnológicos, crescimento econômico, segurança e qualidade de vida, mas, na prática, não entrega metade do que promete. O governo é meu sócio bon-vivant e, enquanto eu ralo pra manter as contas em dia, ele anda de jatinho, carro blindado, toma vinho francês nos eventos black tie e é aplaudido como excelentíssima celebridade em inaugurações de praças e monumentos. Ele só lembra de mim se eu não pagar a sua parte aquilo que ele chama de imposto. Para ele, tá tranquilo, tá favorável. Para mim, nem tanto.

Essa madrugada, a porta do meu restaurante foi arrombada. Em três minutos, um cara entrou e levou as duas gavetas do caixa. Estou indignado. Sinto vontade de ir atrás do meu sócio e pedir ressarcimento. Será? Não, deixe. Ele está cagando para mim (e para você). A vida segue, tem que seguir. Hoje é domingo, dia de trabalhar. Aqui estamos nós, esperando nossos clientes com um nó na garganta e um sorriso no olhar, como se nada tivesse acontecido. Como se ter uma porta arrombada fosse parte do cotidiano.

A Balada Protegida propõe uma espécie de “toque de recolher”. Pretende, ao estabelecer um horário de fechamento para bares, baladas e restaurantes, que a cidade seja invadida por borboletas felizes durante a madrugada, como se o problema fosse o bar e seus clientes, e não o criminoso e seus comparsas.

E é! Nas últimas semanas, diversos bares e restaurantes passaram pelo mesmo que eu. Quando não é pela porta, é pela janela; quando não é pela janela, é pelo telhado; quando não é pelo telhado, eles fazem alguém refém. Boletins de ocorrência com imagens dos trombadinhas noturnos pipocam nas delegacias curitibanas, que não prendem por falta de espaço e acabam devolvendo os ratos para as ruas. Ratos não, piores que ratos. Foi-se o tempo que levavam um saco de feijão ou que não sabiam distinguir um red label de um blue label. Os camaradas de hoje sabem o que querem. Farejam dinheiro e rótulos internacionais.

Tudo isso numa cidade que tem um programa chamado Balada Protegida. Mas a Balada Protegida dorme quando os clientes vão dormir. Ignora o fato de que os estabelecimentos estão expostos 24 horas por dia e que não é apenas enquanto os bares estão abertos que a vigilância se faz necessária. Aliás, ao contrário: é quando a cidade dorme que o perigo acorda.

A Balada Protegida propõe uma espécie de “toque de recolher”. Pretende, ao estabelecer um horário de fechamento para bares, baladas e restaurantes, que a cidade seja invadida por borboletas felizes durante a madrugada, como se o problema fosse o bar e seus clientes, e não o criminoso e seus comparsas. Estamos reféns dessa distopia. Não queremos borboletas de madrugada. Queremos, sim, mais espaços nas delegacias, viaturas circulando e baladas protegidas. Protegidas o tempo todo. Protegidas de verdade.

Leia mais:

A desunião das três esferas
Homem de negócio ou homem do negócio?

 

Artigo de: Beto Madalosso

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