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Capilé, por Luís Henrique Pellanda

14 de novembro de 2018

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Não se tratava de uma simples bebida doce, mas de uma poção mágica

Ainda hoje minha mãe resiste à ideia de comer fora, e eu a compreendo. Criado por ela, a mim a coisa também parece um tanto antinatural. É certo que somos suburbanos, e isso de alguma forma conta. Na hora de pagar um expresso, por exemplo, enquanto cato minhas moedas, sempre penso que poderia ter coado um café em casa. Vergonha de viver no luxo.

Com minha mãe é um pouco diferente. Ela não sofre dessas culpas, e nem corre esse risco. Jamais tomaria um cafezinho de balcão. Reflexos de sua criação rural na velha aldeia Capocu, em Fazenda Rio Grande. Na casa dela, às margens do Iguaçu, em se plantando, dava de tudo: hortaliças, feijão, milho, trigo. O milho, levavam ao moinho d’água, e o trigo, à beneficiadora da região. Voltavam de lá com a farinha pronta para os pães e as massas, o fubá para a polenta e os bolos.

Fabricavam salames, queijos, manteiga. Criavam gansos e galinhas. Fritavam ovos e aipim em banha de porco, armazenada em latões. O aipim, inclusive, era às vezes cozido no mel. Meu avô fazia vinho e minha avó, cerveja. E ainda havia o tanque onde pescar traíras e acarás, para depois limpá-los no córrego, no fim da tarde (comia-se peixe à noite). Havia também alguma caça, os inambus e as codornas sempre à disposição. Sem falar dos maracujás e dos pomares, ao redor de casa e no mato. Jabuticabas, gabirobas, pitangas, araçás, pêssegos, peras, morangos-de-sapo, figos brancos. Comer fora, para minha mãe, era chupar uma mimosa ou colher um caqui na volta da missa, aos domingos.

Minha mãe, aliás, não esquece a única macieira de sua infância. Uma estrutura sólida, mas de sonho. Ficava no terreno de uma família de carpinteiros, fazedores de móveis e caixões. Eram maçãs vermelhas, lindas, que as crianças cobiçavam sem esperança. Muito raramente ganhavam uma fruta de presente. Um dia, meu avô pediu a um dos carpinteiros uma muda. Com ela, providenciou um enxerto. Pegou. Mas minha mãe e seus irmãos só foram comer daquela árvore depois de adultos, e devidamente casados. O tempo era lento e toda espera, válida.

O Capocu, no entanto, não chegava a ser um paraíso. Havia certas carências. Produtos de que a natureza do lugar não dispunha. Para esses existia a venda, que ninguém então chamava de venda, nem de armazém, mercado ou mercearia, e sim de negócio. No caso, o Negócio da Chiquita, muito bem estabelecido na beira da estrada federal, depois transformada em BR-116. Era lá que as crianças compravam os itens que o lar, por si só, não produzia: café, arroz, sal, açúcar e, de vez em quando, uma peça de charque.

Ia-se ao negócio uma vez por mês, e invariavelmente a pé, nunca a cavalo. De carroça seria pior, o caminho não era brincadeira, três ou quatro quilômetros de mata, brejo e pasto. Minha mãe e seus irmãos cruzavam campos e mais campos arrendados aos criadores de zebus, misturavam-se à paisagem e às boiadas. Mas iam alegres, pois levavam consigo uma ordem especial do pai: a permissão para que consumissem, cada um, um copo de capilé.

Não se tratava de uma simples bebida doce. Era uma poção mágica, de um rosa industrial, inédito em suas vidas. Antes de servi-la às crianças, Chiquita registrava a compra no caderno de gastos mensais da família de minha mãe. Então separava alguns copos de vidro, pequenos, e neles derramava um dedo do famoso xarope de groselha da Cini. Completava-se o coquetel com água fresca de poço, em temperatura ambiente. Não havia geladeiras no Capocu. Não havia luz elétrica que as viabilizasse. Mas havia o capilé. A exceção do capilé.

Tomava-se aquilo em cinco minutos, nem isso. Um prazer infantil tão intenso, tão concentrado, que até hoje, para ele, minha mãe não encontrou equivalente. Em negócio algum do mundo. Talvez porque agora, sugiro a ela, tudo seja capilé. Ele se tornou a regra, e o Capocu, um imenso loteamento. Minha mãe ri, pode ser. Mas não esquece o gosto do xarope. E o que era viver na expectativa do próximo refresco.


Luís Henrique Pellanda é escritor e jornalista, autor dos livros “O macaco ornamental”, “Nós passaremos em branco”, “Asa de sereia” e “Detetive à deriva”. Siga no Instagram: @lhpellanda

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Artigo de: Luís Henrique Pellanda

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  • Gilda, que dica incrível! Vamos procurar também!

  • Nasci aqui em Curitiba...na rua Dr.Faivre 229, a uma quadra do CEP, onde estudei, ginásio e científico...na rua João Gualberto, defronte ao colégio, ficava a empresa Hugo Cini que fabricava as gasosas de minha infância...e o magnífico Capilé, que só de falar, já se sente o gosto na boca ! Já comprei xaropes de groselha em supermercados, mas não eh igual não ! Mas estes dias, encontrei num mercado um xarope de groselha que não conhecia, da marca Heinz, que fabrica maionese e catchup e, pasmem, o sabor lembra muito o da Cini... comprei logo duas e estou sempre tomando o Capilé da minha infância !!

  • Essa história me fez lembrar de minha infância porque apesar de sempre morar em Curitiba tomei muitooo capilé