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Cervejas inglesas, por Gabriel Vasques

27 de junho de 2018

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As cervejas inglesas são conhecidas pela qualidade e pelo estilo ale

Chegou a hora de falar da clássica escola britânica, responsável pela cultura dos pints, pubs e cask conditioning.  Registros da época do imperador Júlio César, quando invadiu as ilhas britânicas, já descreviam uma bebida fermentada a base de grãos, que poderia vir a ser a cerveja. Séculos depois, essas ilhas foram invadidas por povos nórdicos, como os vikings e os saxões, que colonizaram essa região e fomentaram ainda mais a produção das Ales –  — estilo clássico da escola britânica, inclusive, a palavra Ale tem origem nas linguás nórdicas, que chamam cerveja de øl.

No decorrer da idade média, as cervejas eram feitas com diversas ervas, raízes e temperos para equilibrar o sabor da bebida. Esses elementos eram conhecidos por gruit. Por volta do séc. XVI, os povos germânicos influenciaram os britânicos a utilizar o lúpulo, não só para equilibrar o sabor, mas para conservar a cerveja fresca por mais tempo. As ales, então, passaram a ficar conhecidas como bitter (amargo, em inglês, devido ao sabor do lúpulo) ou beer (influenciados pela palavra germânica bier). Essa distinção, considerando ale uma bebida maltada fermentada sem lúpulo e beer/bitter uma bebida maltada fermentada com lúpulo, perdurou até o séc. XVII, com algumas variações que perduraram até o séc. XX.

Outra cultura interessante nesta escola cervejeira é o cask conditioning, considerada por muitos a verdadeira cerveja inglesa. Essa cultura era muito comum em toda a Europa, mas na Inglaterra ela permanece até os dias de hoje. A Real Ale, como é conhecida, é uma cerveja que é finalizada nas adegas dos pubs, isso exige um trabalho e dedicação especial do barman, afinal é ele quem vai decidir quando a cerveja estará pronta para servir.

Essas cervejas passam por uma fermentação morna (entre 18°C e 24°C), em seguida, são colocadas em barris de madeira e enviadas para os pubs. Lá, os barris são acondicionados nos chamados stillage, uma forma de berço para descansá-los, pois a cerveja está viva e em fermentação. O adegueiro abre os barris com um pino, expurgando o excesso de gás. Logo depois ele fecha com um pino poroso para controlar a carbonatação da cerveja. Assim que ele está contente com o resultado, leva para o bar para servir-la.

Normalmente, as cervejas são servidas sem o auxílio de gás carbônico, como estamos acostumados. Isso resulta numa cerveja de baixa carbonatação, porém com sabores pronunciados de frutas e marmelada, levemente doce e muitas vezes cítrica, lembrando um doce de laranja. Para a maioria das pessoas que não conhecem esse processo, essa cerveja parece choca, pois é servida em temperatura ambiente e praticamente sem gás.

Com a modernização dos processos e a industrialização da cerveja, essa cultura quase foi extinta. É muito mais fácil e conveniente para os donos de bares e pubs trabalhar com uma cerveja que vem pronta. O produto é mais estável, normalmente servido mais gelado e com um nível de carbonatação agradável. Porém, isso tira toda a beleza e experiência que é beber uma Ale inglesa. Sem contar que o paladar de uma Real Ale é muito mais complexo e interessante.

Em março de 1971, um grupo de amantes da cerveja fundou o CAMRA – Campaing for Real Ale, uma associação que tem como objetivo a preservação da tradição das Real Ales e dos pubs, ameaçados pelas agressivas práticas comerciais dos grandes grupos cervejeiros. Hoje conta com mais de 185 mil membros.

Graças a movimentos como este, a cultura cervejeira das ilhas britânicas foi resgatada e fomentada. Isso influenciou o chamado Beer Revolution nos EUA, mas isso é papo para outra hora, quem sabe numa mesa de bar, ou melhor, no balcão de um pub.

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Artigo de: Gabriel Vasques, jornalista e sommelier de cervejas

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