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Robson Caffaro, o chef Faixa Preta

28 de agosto de 2017

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A saborosa (e suada) trajetória do atleta campeão Robson Caffaro

Quem está na faixa dos 40 anos, se lembra do tiozinho que passava na rua com o carrinho de Yakult. Em Curitiba, havia esse menino de 7, 8 anos de idade, o Robson. Quando a mãe dele, Dona Marta, comprava, o garoto ia até a geladeira, pegava uma ou duas garrafinhas – “Aquilo era o meu creme de leite” – misturava com mais ingredientes – “podia ser molho inglês” – colocava com água no bule, esquentava e servia para a irmã, a pequena Yeda, na época com 4 ou 5 anos – “Ela adorava, era a minha cobaia”. Foram as primeiras vezes que o Robson Caffaro usou um fogão.

O cozinheiro das Olimpíadas e do surf

Descendentes de italianos, era comum a família se encontrar na cozinha, entre os preparos de uma macarronada, polenta, um frango ou as sobremesas, estas especialidade da Dona Marta. Quando o menino tinha 9 anos, uma Olimpíada passou na TV, de madrugada. A família ficava acordada para assistir e lá ia o Robson para a cozinha. Dessa vez eram sanduíches para os pais e para a jovem Yeda. Todos adoravam as invenções. Despontava mais um cozinheiro na família Caffaro. Sempre muito interessado em esportes, aos 13 anos ganhou do pai, Seu Nico, a primeira prancha de surf. Nessa época passou a descer para a praia quase todos os fins de semana, com os amigos. Ficavam em uma casa e passavam boa parte do dia pegando onda.

Precisavam comer. Com pouco dinheiro e parcos ingredientes, lá ia o jovem surfista para o fogão. Era o cozinheiro das viagens de surf, prestigiado pelos amigos na fase da vida quando até macarrão instantâneo com vina é delicioso. O tempo trataria de trazer outros reconhecimentos, que não seriam poucos. Mas havia uma coisa que os amigos adolescentes do surf ainda não sabiam: quem cozinhava para eles era um futuro campeão.

Esportes, artes marciais e jiu-jitsu

Aos 15 anos, além de surfar e andar de skate, Robson treinava Muay Thai. Nessa época ele sentiu que era hora de buscar outra modalidade de luta. Acabou descobrindo, pelas mãos do Mestre Gurgel, o jiu-jitsu. “Significa arte suave. O objetivo é imobilizar o adversário, é uma forma menos traumática de luta” – contou-nos o lutador. Todavia, exige muito treino, foco, força e disciplina, virtudes que encaixam muito bem no mercado de trabalho, nos negócios, em casa com a família e dentro de uma cozinha.

Por isso, o Mestre Gurgel passou a formar não apenas um lutador de ponta, mas também um adulto que passaria a encarar os desafios com a mesma tenacidade de um atleta sobre o tatame. Mais do que um discípulo, aos 17 anos, Robson passou a ser instrutor de jiu-jitsu e, com 19 para 20, sagrou-se campeão brasileiro na modalidade. Mas não parou por aí. Em 2004, Robson Caffaro foi o primeiro faixa preta de jiu-jitsu formado no Paraná.

O atleta e a gastronomia

Quanto à gastronomia, ele nunca abriu mão. Tanto que, após 10 anos trabalhando em cargos gerenciais na indústria de bebidas – Ambev, Molson Coors e Pepsico – Robson enveredou pelo mercado gastronômico, levando três lojas da Empada Brasil para Curitiba. Uma delas ficava dentro do Angeloni, no Água Verde. No intuito de empreender ainda mais, ele vendeu as franquias e abriu o próprio restaurante no mesmo hipermercado, onde já conhecia o público. Chamava-se Vila Gourmand e ficou sob sua administração durante 6 anos, até que ele vendeu.

É Caindo Que se Levanta

Com o capital da venda do restaurante, Robson, então, investiu no mercado de importação de produtos relacionados ao esporte, principalmente artes marciais. Viajava para a Ásia e trazia os artigos para revender no Brasil. Dois anos foram o suficiente para mostrar ao atleta que a instabilidade do nosso câmbio pode colocar um negócio de importação na lona. De qualquer modo, esse intervalo não foi suficiente para afastá-lo da paixão, a gastronomia. Aliás, na prática não houve separação alguma. Durante as incursões a mais de 15 países diferentes – fossem viagens de negócios ou para surfar – Caffaro fazia questão de conhecer a gastronomia local. “Sempre que viajo, tento ir a 7 ou 8 lugares diferentes para experimentar a comida. Quando existe, não abro mão de conhecer o mercado público, onde se pode ter contato com os produtos, produtores e a verdadeira cultura local”.

A experiência frustrada no segmento de importação, porém, levou o empreendedor a fazer uma “sabatina interna”, como ele declarou: “Será que é hora de me afastar do que eu realmente gosto? Ou posso unir meu potencial empreendedor e comercial à gastronomia? E se eu canalizar essa energia e fizer o que eu amo da melhor forma possível?” Superou o golpe e decidiu seguir com a gastronomia. A partir daí, como de uma torneira que se abre, uma enxurrada de idéias e criações brotaram: “Hoje entro na cozinha e, com 2 ou 3 ingredientes, sai um banquete”.

Quem corrobora com essa afirmação é a Juliana, esposa do Robson: “Fico impressionada como ele consegue abrir a geladeira, encontrar quase nada lá dentro, e transformar em uma receita deliciosa. Outro dia cheguei em casa e o Robson sovava a massa para um pão”. Ele explicou: “Eu tinha acabado de voltar do treino de Jiu-jitsu, precisava dar cabo de toda energia represada”.

A Casa da Esquina

O chef abriu um novo restaurante, A Casa da Esquina, na Vila Izabel, onde serve almoços a quilo e, à noite, se torna um boteco, com petiscos e porções. Investiu em cursos, aprimoramento e formação no segmento. A Casa da Esquina participou da última edição do Comida di Buteco, em abril e maio passados: “O concurso agregou muito à casa. Conseguimos mobilizar toda equipe em prol de um melhor atendimento e qualidade dos produtos. Além disso, houve a promoção, tivemos a sorte de aparecer com o nosso petisco concorrente na RPC, no horário nobre. Foi uma experiência muito boa, muita gente nova entrou na casa.

#cheffaixapreta

Ao constatar que as personalidades, chef e atleta, eram duas nuances inalienáveis da mesma pessoa, o empreendedor percebeu que havia, nessa persona, mais uma oportunidade – “Não adianta só fazer um bom trabalho, você tem que se vender” – concluiu. Pensando nisso, criou o #cheffaixapreta, no Instagram: “Tem muita gente que, como eu, gosta das duas coisas, esporte e gastronomia. A #cheffaixapreta é para essas pessoas. Ali eu mostro que você pode ser um esportista e comer um molho branco, por exemplo. Dá para conciliar de forma harmônica”. No endereço ele divulga receitas próprias e outras criações, imagens de pratos, viagens, práticas esportivas, e ainda troca ideia com alguns leitores no direct message.

Um jantar para a Tutano

Finalmente, tivemos a sorte de sermos recebidos na cozinha-laboratório do Robson. Fica na casa onde ele mora com a família. Fomos recebidos com um pequeno banquete, com entrada, prato principal e sobremesa. Tomamos vinho e realizamos boa parte da entrevista que gerou essa matéria. Pedimos para voltar, se ele poderia cozinhar mais vezes para todos os colunistas boca-nervosas da Tutano. O Beto voltaria correndo da Itália se nos visse ali. Educadamente, Robson Caffaro declinou: “Cozinho muito para os amigos e para a família, essa casa foi feita para receber. Hoje tenho uma fila de 4 ou 5 casais para comerem aqui. Já passei vocês na frente uma vez. Se quiserem de novo, entrem na fila”.

Então ele nos mostrou o quimono dele, os troféus de campeão e a faixa. Ela não era branca e nem azul. Era preta, bem preta. Por isso não retrucamos, não poderíamos ser finalizados ali. Agradecemos a noite memorável e fomos embora, mesmo querendo voltar. Não temos certeza se todo faixa preta é assim, tão cordial, hospitaleiro, com tanta bagagem e capacidade de se reinventar. Mas, uma coisa é certa: a Tutano jantou e conversou com o primeiro Chef Faixa Preta, e foi uma bela refeição preparada por ele. *Oss!

*Cumprimento criado na marinha japonesa, comum entre os lutadores.

A Casa da Esquina

Rua Professor Dário Veloso, 602, Vila Izabel
(41) 3149-1515
Segunda a quinta, 11h30 às 14h
Sexta, 11h30 às 14h e 18h30 à meia-noite
Sábado, 11h30 às 15h e 18h30 à meia-noite
Domingo, 11h30 às 15h

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André Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra

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Artigo de: André Bezerra

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