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Comer na rua, por Luís Henrique Pellanda

2 de fevereiro de 2018

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Texto de estreia do novo colunista da Tutano

Semana passada, não lembro bem o dia, cruzei a Santos Andrade a caminho de um almoço no Porcadeiro. Eu estava de folga, mas a cidade, indecisa entre o mormaço e o chuvisco, já parecia exausta. De longe, avistei a aglomeração de sempre ao lado da rampa da Federal, aquela que liga a Alfredo Bufren ao subsolo da universidade. O local é usado como dormitório a céu aberto e banheiro público, o que não o impede de também servir de refeitório a dezenas de trabalhadores dos prédios vizinhos. É um ponto de encontro e ociosa ruminação. Muita gente almoça ou lancha ali, sentada na mureta de pedra da rampa. São quase todos muito jovens. Não sei o que fazem de verdade, mas gosto de imaginar que lidam com telemarketing.

Passam a manhã ligando para nós, ou recebendo telefonemas, e ao meio-dia descem à rua, empapuçados de queixas, demandas e recusas. Compram salgadinhos e sucos de caixinha (o de uva é o mais querido) e se empoleiram na mureta, ombro com ombro, sem medo do abismo de três metros às suas costas. Portam pacotes de Doritos, Ruffles, Pingo d’Ouro, Cheetos. Enquanto mastigam, às vezes namoram e até se beijam, amaldiçoam chefes e clientes, checam o celular e se perfilam para a prática da fofoca ou do flerte de calçada, os lábios e os dedos besuntados de saliva, batom e farelo. Aliam-se na hora sagrada da refeição, conforme manda a tradição universal dos comensais. Afinal, comer com alguém é aceitá-lo no clã, torná-lo um parceiro, um cúmplice, um amigo. E hoje, mais do que nunca, comer com alguém é exercer a tolerância, observá-lo falar — e confessar-se — de boca cheia.

Afinal, comer com alguém é aceitá-lo no clã, torná-lo um parceiro, um cúmplice, um amigo.

Sempre que avanço ao largo daquela mureta, sinto como se passasse em revista toda uma geração de merendeiros distraídos, forçados a ir a um piquenique. E penso no que significava, antes, comer na rua; falo de quando eu era criança, ou mesmo pós-adolescente, como aqueles moços. Comer na rua era um ato de libertação. Uma fuga do ambiente doméstico, um golpe no amor materno. Era escapar à mesa familiar, à segurança dos alimentos limpos, das mãos paranoicamente lavadas. Para um menino da minha época, criado num subúrbio católico, comer na rua quase equivalia a uma visita ao puteiro. A mãe não podia ficar sabendo, jamais.

Lembro de ir com meu pai ao Couto Pereira, ainda na década de 70, sempre na esperança de que ele me comprasse um pão com bife. Era a contravenção em forma de sanduíche. O futebol era supérfluo; essenciais eram a carne, o Chicabon, o refrigerante. Tudo mais — o drible, o gol, a taça — era pretexto para que os homens pudessem fumar e xingar, beber e comer longe de casa. Generoso, meu pai me fazia as vontades, não estou reclamando, mas, ao atendê-las, nunca deixou de me impor a mesma condição: “Não conte pra tua mãe”. Comer na rua era cultivar segredos, aprender a trair.

Eu falava, porém, da rampa da Federal. Na semana passada, a caminho do Porcadeiro, eu me aproximava da mureta quando notei nela uma vibração diferente. Vi o corpo de um homem, caído na rampa. De onde eu estava, não vi sangue. Apenas suas pernas nuas, sua barriga à mostra, saliente, e uns chinelos de dedo vazios, largados no petit-pavé.

Comer na rua era cultivar segredos, aprender a trair.

Não sei dizer se o homem caiu da mureta enquanto lanchava. Nem se estava sóbrio, ou se já estava lá embaixo, fazendo algo ilícito, quando sofreu um desmaio, ou um enfarte. Não sei se levou um tiro, um soco, uma facada. Só sei que seu corpo desacordado aguardava o socorro, que uma ambulância já vinha gritando pela Tobias de Macedo, e que na mureta, três metros acima dele, o pessoal continuava comendo.

Alguns o observavam com uma curiosidade difusa, e logo voltavam a seus salgadinhos e celulares. Talvez postassem fotos e mensagens sobre o homem ferido, entre um e outro gole de suco de uva. Comer na rua, pensei, já lhes era tão natural quanto morrer na rua.

Segui adiante e, minutos depois, no Porcadeiro, matei um sanduíche de pernil, sem culpa nenhuma. Comer na rua é, sobretudo, estar vivo.

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Luís Henrique Pellanda é escritor e jornalista, autor dos livros “O macaco ornamental”, “Nós passaremos em branco”, “Asa de sereia” e “Detetive à deriva”. Siga no Instagram: @lhpellanda

Artigo de: Luís Henrique Pellanda

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  • Sensacional Pelanda. Adoro passear por Curitiba com suas crônicas e conhecer uma Curitiba que poucos conhecem. Dá -lhe Tutano.