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Dona Flora Madalosso, por André Bezerra

20 de outubro de 2017

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Dona Flora contou para a Tutano a história da família e do Restaurante Madalosso

A sequência bem que poderia ser um roteiro do Benedito Ruy Barbosa: Dona Rosa, filha de imigrantes italianos vindos da região do Tirol para o Brasil, conhece e se casa com Antonio. Ambos de famílias muito simples e trabalhadoras, resolvem vender uma pequena plantação de parreiras no Rio Grande do Sul e embarcam no trem para o Paraná, trazendo algumas malas, os cinco filhos pequenos, um saco de trigo, uma bolsa com os documentos da família e as promissórias da venda da plantação. Na ponte sobre o rio Marcelino Ramos, uma das paradas, o jovem Antonio Madalosso resolve mostrar à esposa, dona Rosa Fadanelli, a vista da ponte. A bolsa acaba caindo por acidente e o rio leva documentos e promissórias. Após três dias de viagem, na chegada ao destino, quem os aguardava era o irmão de Antonio, proprietário de uma pequena chácara. Intrigado com o saco de trigo que a cunhada veio carregando desde o Sul, ele profetiza: “Você vai dar pão para os seus filhos até terminar esse saco. Depois eles vão comer polenta”.

Santa Felicidade e a Primeira Festa da Uva

Leva apenas duas semanas até que os dois irmãos conheçam uma colônia de italianos em Curitiba, chamada Santa Felicidade. Ali adquirem uma área com cerca de 1,5 alqueire. Antonio acaba comprando a parte do irmão e se transfere com Dona Rosa e os cinco filhos: Helena, Flora, Severino, Nelson e Carlos. Mais tarde nasceria o sexto filho, João. Centrada na plantação de parreiras, a vida nessa época – décadas de 40 e 50 – não era fácil. Seriam três anos até a primeira colheita das uvas. Durante esse tempo, a família precisava sobreviver. O pai prestava serviços nas propriedades rurais dos vizinhos enquanto a mãe costurava roupas de bonecas e vendia para lojas. Com o dinheiro que entrava, comprou uma vaquinha leiteira, depois outra, até chegar a dez. Os filhos mais velhos faziam as entregas das garrafas de leite nos bares de bairros vizinhos. Flora, a segunda, também frequentava a escola e a igreja matriz de Santa Felicidade, onde tinha um grupo de amigas.

Em 1957, aos 17 anos, Flora reuniu essas amigas e foram falar com o padre. Queriam realizar um evento que Flora havia visto lá no Rio Grande do Sul: a Festa da Uva, com churrasco, roda da fortuna e muito suco e vinho colonial. Na época, secretário de agricultura, Paulo Pimentel foi convidado. Ao prestigiar a festa no salão da paróquia, fez uma matéria de página inteira no jornal que mantinha. Com essa divulgação, Curitiba inteira se deslocou até a distante colônia para prestigiar a festa. “As pessoas de Santa Felicidade estavam habituadas a verem apenas as carrocinhas, ficaram loucas ao verem todos aqueles automóveis chegando no bairro, foi o maior sucesso que Santa Felicidade já viu até hoje”. Declarou Dona Flora Madalosso.

Dona Flora Madalosso e Admar Bertolli

E foi também na igreja, dessa vez durante uma festa na paróquia São Judas Tadeu, que Dona Flora deitou olhos sobre o jovem Admar Bertolli. Ela tinha 19 anos e decidiu: “ou é esse, ou não é ninguém”. Helena, irmã mais velha, já havia se casado e ela não tinha nem namorado. Mas havia um problema. O jovem leiteiro, Admar, além de ter fama de paquerador, morava no Boqueirão. “Tinha que ser dos nossos italianos, as famílias em Santa Felicidade não queriam que as moças casassem com rapazes de outros bairros”, esclareceu. Por isso ela levava uma surra da mãe cada vez que se encontrava escondida com o “leiteiro”. Mesmo assim, o rapaz carismático e sedutor acabou conquistando a família dela. Em 4 de maio de 1963, Dona Flora Madalosso casou-se com quem queria e tornou-se a senhora Flora Madalosso Bertolli.

Restaurante Madalosso

Do outro lado da rua do parreiral, onde moravam os Madalosso, havia um pequeno restaurante chamado Florida. “Tinha 24 mesas, quatro panelas e pouquíssimos fregueses”, conta Dona Flora. Durante um trajeto de ônibus, Admar Bertolli encontrou o dono do Florida, senhor Floris:

– Eu vou comprar o seu ristorante.

– Quem? Um pé rapado como você? Acho que não.

O jeito foi Admar pedir ajuda ao sogro, que já era seu amigo. O seu Antonio Madalosso, porém, seguia endividado. “Mas meu marido não parava de encher o saco do meu pai”, explicou Dona Flora. Então, acabaram comprando o restaurante em sociedade, seu Antonio, Admar e Dona Flora. E, em 20 de abril de 1964, reabriram para receber os fregueses. “Esse ristorante vai se chamar Madalosso porque teu pai quem ajudou e investiu.”  – disse Admar para a esposa Flora. Ele foi atender no salão enquanto ela preparava os pratos na cozinha. Recebia as galinhas vivas, matava, depenava e cozinhava. Servia risoto, polenta, frango ensopado, frango frito e salada de radicci.

A nova geração do Velho e do Novo Madalosso

Em 1967, Admar Bertolli foi eleito vereador na capital. Os irmãos da Dona Flora, Severino e Carlos, entraram para ajudar no Restaurante Madalosso, enquanto ela seguia na cozinha. Em 1970, o senhor Antonio cedeu uma parte do terreno da família para os filhos e eles construíram dois salões novos em meio ao parreiral. Em 2 de abril daquele ano inauguraram o “novo Madalosso”. Em 1972 foram participar da Feira da Providência, no Rio de Janeiro, para divulgar Santa Felicidade e o Restaurante Madalosso.

Os negócios da família prosperaram e o resto da história de um dos restaurantes-símbolos da gastronomia curitibana, marco da cultura italiana no Brasil, é de conhecimento público. Foi também na década de 70 que a Dona Flora envolveu outros dois irmãos – Severino e Nelson – e o cunhado Severino, marido da Dona Helena, na operação. “Tive três filhos em três anos e meio”. Ao todo, são quatro: Marcelo, Marlus, Marcius e Marisol, que deram sete netos, para a felicidade da Dona Flora.

A evolução da gastronomia

Hoje ela segue à frente da cozinha dos dois restaurantes Madalosso. Ao todo, comanda em torno de 100 pessoas. Muita coisa mudou ao longo de cinco décadas e meia. “Hoje as pessoas entram na cozinha com alguém ao lado ensinando. Tem máquina pra tudo, desde descascar alho, até lavar a louça”.

– E o perfil desses profissionais de cozinha, Dona Flora, no que mudou?

– Antigamente achávamos pessoas com mais disposição, queriam crescer na vida. Hoje, muitos vêm pensando no seguro desemprego. (…) Atualmente também temos possibilidades de reciclarmos os conhecimentos das equipes. O Senac vem aqui toda semana ou a cada quinze dias e ensina aos garçons como servir uma massa, como atender o cliente.”

O que segue firme como um milhão de parreirais é a disposição da Dona Flora em servir, que comentou com orgulho: “Eu já estou servindo a quinta geração de clientes. Pai, filho, neto, bisneto e tataraneto.”

Flora por Dona Flora Madalosso

O prato favorito

Macarrão feito em casa com molho de frango, polenta e queijo, acompanhado de um bom radicci temperado com vinagre de vinho.

Restaurante favorito

Forneria Copacabana, Spring e Vin Bistrô.

Um lugar

As cidades no interior da Itália, especialmente Treviso e Nova Bassano.

Um lugar em Curitiba

Santa Felicidade. Só falta um hospital com pronto socorro. O resto, temos tudo.

Um hobby

Preparar um almoço semanal para a família e um café dominical, também para eles.

Um amigo

Alguns clientes. Tenho muitos amigos, converso com todo mundo nos restaurantes, na saída da igreja.

Um time

Dou uma puxadinha para o Coxa.

Um filme

Assisto a minha novelinha das seis.

Uma música

Vá Pensiero, música italiana antiga e moda de viola.

Um livro

Polenta e Liberdade, do Frei Arlindo Itacir Battistel e O Anjo dos Esquecidos, de Heinz G. Konsalik.

Um amor

Meus filhos, netos e, agora, meus bisnetos. E depois os meus amigos.

Uma flor

Lírio e rosa branca

Um orgulho

Ter sido sempre muito respeitada pelo povo de Curitiba, pelos políticos e clientes. Todos me tratam com muito carinho.

Uma frustração

Não tenho.

Para encerrar, lemos um trecho da canção Esses Moços, de Lupicínio Rodrigues:

“Esses moços, pobres moços
Ah! Se soubessem o que eu sei
(…)
Por meus olhos, por meus sonhos
Por meu sangue, tudo enfim
É que peço
A esses moços
Que acreditem em mim
(…)”

O que a senhora teria a dizer a esses moços, Dona Flora?

Acreditem em um futuro bom, sejam bons, não desviem do caminho. Trabalhem honestamente para ter o que é seu, sem drogas ou bebida. Procurem ser felizes cada dia da sua vida.

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André Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra

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Artigo de: André Bezerra

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  • Texto brilhante ! Andre, Parabéns pelo seu talento em retratar com tanta perfeição a história de Dona Flora, ícone da gastronomia de nossa cidade!