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Entre Pizza e Ostra, por André Bezerra

11 de maio de 2018

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O jovem empresário que sempre gostou de ficar na rua

Desci a Vicente Machado pedalando. Cruzei a Praça Osório e, duas quadras adiante, desmontei da bicicleta e gritei para dentro do restaurante: “Cintra, aonde amarro a magrela?”

A resposta veio num grito detrás do balcão, uma longa vitrine expondo tapas e frutos do mar bem frescos: “Aí no poste, Bezerra.”

O cenário da entrevista

O poste em questão segura placas com os nomes de duas das ruas mais antigas do centro de Curitiba, a Des. Ermelino de Leão e a Cândido Lopes. Hoje elas abrigam o restaurante, taperia, enfim, A Ostra Bêbada , um lugar que nos remete a Portugal ou Espanha. Essa casa, assim como as quatro unidades do Pizza, pertence a um trio de sócios: o Rafael Fusco, o Diego Gasparin e o Lucas Cintra. E foi para conversar com o Lucas que me desloquei até uma das esquinas mais charmosas de Curitiba. Atualmente suas mesas são disputadas por quem busca um menu repleto de ostras, mariscos, lulas, sardinhas assadas na brasa e sanduíches no pão francês. Há também ótimos vinhos brancos, rosés e espumantes sempre bem gelados para harmonizar.

Pois o Cintra vestia jeans desbotados, camiseta, um longo avental de cozinheiro e boné virado para trás quando nos instalamos na mesinha do lado de fora. “Está com fome Bezerra? Vai um bolinho de bacalhau?”

De restaurante em restaurante

Se fosse para descrevê-lo em poucas palavras, diria que o Lucas não para quieto. Deve ser por isso que no espaço de 5 anos fez Senac e passou pelas cozinhas de alguns restaurantes.

“Não quis fazer faculdade e o meu pai já estava achando que eu ia virar vagabundo” – desabafou Lucas para a Tutano.

Em ordem cronológica, ele trabalhou nas cozinhas do Sapore Italia, Ostras e Cia., Cantina do Délio, Guega e Edvino. Exceto pelo Guega – do Celso Freire, onde cozinhou por um ano e meio – permanecia meses na cozinha do restaurante, aprendia tudo o que podia e se mandava. Depois do Guega, embarcou para Lisboa, onde fez estágio de um mês no A Pastorinha, um dos restaurantes mais celebrados na capital portuguesa. Declinou proposta de emprego fixo e seguiu para a Itália.

Em Torino, foi morar com o amigo André Santi, hoje dono da Fábrica de Pães, em Curitiba. Dali, pegou um trem e seguiu para o interior da Toscana, para uma fazenda que recebia turistas em busca dos produtos orgânicos e fresquíssimos. “Fiquei dois meses na fazenda, aprendi muito sobre a culinária toscana e fui dar um mais um rolê antes de voltar para o Brasil”, revelou Cintra. E foi durante esse rolê pela Itália e Portugal que duas coisas chamaram atenção dele: a infinidade de pequenos negócios que vendiam “Pizza al taglio” nas cidades italianas e o fato de que nos dois países “as cidades e as ruas são para as pessoas”.

Pizza

Chegando ao Brasil, um mês na cozinha de um restaurante foi suficiente para o cozinheiro inquieto decidir que abriria o próprio negócio. Ligou para o Rafael Fusco – amigo desde os tempos de colégio – e, numa rodada de bar ou talvez tomando uma cerveja sentados no meio-fio diante do Bar do Torto, Cintra convenceu Fusco a abrirem um ponto e venderem fatias de pizza.

O Lucas Cintra tinha tudo pensado: encontrariam o ponto ideal na região da Trajano Reis e, com pouco dinheiro e o antigo forno de pizza que ganhou da mãe e reformou, estabeleceriam negócio próprio. O Rafael Fusco, na época concluindo a faculdade de arquitetura, não apenas topou como entregou a chave do Fiat Uno dele nas mãos do amigo. “Em menos de um mês eu tinha vendido o Uno do Fusco, encontrado o ponto na Trajano com a Paula Gomes e nós abrimos o primeiro Pizza”, contou Cintra.

O resto da história do Pizza já é conhecida de boa parte dos curitibanos: entre 2013 e 2018 a dupla Cintra e Fusco inaugurou mais quatro unidades do estabelecimento que praticamente inventou a maneira do curitibano se relacionar com a gastronomia de rua. São lojas pequenas, cheias de personalidade, onde a pizza é vendida na fatia. Hoje também há paninis e lasanhas, além do chope artesanal e dos sucos integrais de maçã e de uva. A comunicação é escrita a mão, em cartazes pelas paredes. Todas as unidades dão espaço para a cultura local, seja divulgando ou recebendo os artistas. O staff é reduzido, muito simpático, bem treinado.

A Ostra Bêbada

Atualmente os sócios se revezam entre as casas: o Cintra fica mais no A Ostra Bêbada e o Fusco percorre os Pizza. O Diego – outro amigo dos tempos de colégio – entrou para dar suporte na área financeira do negócio. “Somos muito intuitivos, os financeiros ficam loucos e querem dar porrada na gente”, disse o Cintra enquanto eu devorava o meu prato com mariscos frescos no vinagrete, lulas e azeitonas recheadas com anchovas. É isso que se come na “filha” mais recente desses jovens empreendedores. Também tem as sardinhas frescas que o Cintra assa todo sábado na brasa bem ali, na calçada da esquina onde está o A Ostra Bêbada. Durante a semana, tem almoço executivo diariamente, assim como sanduíches no pão francês.

A ideia do A Ostra Bêbada amadureceu durante uma viagem do Cintra com o Fusco pela Espanha. A Casa traz muito da atmosfera de Madri, mas, ao mesmo tempo, tem o DNA dos botecos mais tradicionais da região, como o Stuart, Manekos e Ligeirinho, três estabelecimentos com tempo suficiente para serem tataravós do A Ostra Bêbada.

Finalmente, enquanto eu comia a minha última ostra gratinada, uma menina de uns 10 anos parou diante da nossa mesa. Após oferecer as balinhas que vendia, ela emendou, olhando para o Cintra: “Eu sei que você é dono de tudo isso aqui. Me disseram que você serve ostras da nossa praia e eu queria experimentar uma”. No que foi prontamente atendida. Fiquei pensando que aquela garota sabe das coisas. De certa forma os meninos do Pizza e do A Ostra Bêbada são os donos da rua.

Pizza

Av. Vicente Machado, 787, Centro
(41) 3117-5121
Segunda-feira, 18h à 1h
Terça a quinta-feira, 11h30 à 1h
Sexta-feira e sábado, 11h30 às 2h
Domingo, 16h à meia noite

Rua São Francisco, 179, Centro
(41) 3053-5917
Segunda a quinta-feira, 11h30 à meia noite
Sexta-feira e sábado, 11h30 à 1h

Alameda Dr. Carlos de Carvalho, 15, Centro
(41) 3085-3151
Segunda-feira a sábado, 11:30h à meia noite

A Ostra Bêbada

Des. Ermelino de Leão, 95, Centro
(41) 3322-0940
Terça a sexta-feira, 11h30 às 23h30
Sábado, 12h à meia noite

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André Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra

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Artigo de: André Bezerra

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  • Amo a pizza de batata com alecrim!!! Coloca sardinha nela, gente!!!! 🍅🍆🌽💗💗💗

  • Que matéria linda! Adorei saber das andanças do Lucas, o Cintra pra vc. Desde pequeno que era inquieto. Muita admiração! Parabéns ao Cintra e sua linda família 🙏🏻👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼🥂 Vou aí no Ostra, pq dos Pizzas já sou fã.