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Existe vida além das IPAs

21 de setembro de 2017

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Lembrem-se, caros leitores, "amargor é bom, amargura, não"

Tudo começou com a English Pale Ale, que nas expedições para a Índia no final de 1700 e início dos anos 1800, originou a protagonista dessa história: a India Pale Ale (IPA). Depois vieram muitas e muitas variações: American IPA, West Coast IPA, Session IPA, Belgian IPA, Black IPA, Imperial IPA, Triple IPA, White IPA… A bola da vez e queridinha dos beer geeks é a New England IPA, versão mais aromática, mais turva e mais frutada.

O nome IPA foi usado pela primeira vez na década de 1830, época em que o estilo se estabeleceu, mas sem muito brilho. O nome era mais usado para descrever cervejas amargas e claras, sem nada de muito especial. Os ingleses não davam muita bola para as IPAs. É incrível pensar que um estilo tão popular hoje em dia tenha quase desaparecido na segunda metade do século XX.

A IPA foi redescoberta e valorizada a partir da década de 80, graças a revolução da cerveja artesanal. E aí a paixão dos americanos pelo lúpulo pesou muito. Foi nos Estados Unidos que surgiram as principais variações do estilo. De acordo com o Beer Judge Certification Program (BJCP, organização que certifica e qualifica avaliadores de cerveja), o primeiro exemplar do estilo American IPA foi a Anchor Liberty, produzida em 1975; um pouquinho diferente das American IPAs atuais, é verdade, não tão amarga e mais contida. Mas na época, seus 47 IBUs (o índice que mede o nível de amargor) representavam algo absurdo e de vanguarda.

No mercado atual, fazer IPA com mais de 100 IBUs já é necessidade para agradar a um público que quer se surpreender e impressionar os amigos, sendo que às vezes a qualidade do produto fica ameaçada. Já tomei tanta IPA intragável e desequilibrada que sempre fico com um pé atrás quando surge um novo rótulo que anuncia variações do slogan já clichê “doses extremas de amargor e ousadia lupulada”. A linha que separa a qualidade da empáfia é tênue.

Eu mesma já fui embora de bar que não tinha IPA, até que as Lagers lindas, frescas, perfeitas, crocantes (dava quase de mastigar) e saborosas da República Tcheca, bebidas na fonte, amoleceram meu coração amargo.

“Só quero amarga, só tomo cerveja com mais de 80 IBUs”

Isso é muito comum de ouvir se você trabalha com cerveja artesanal. Já vi muita gente desprezar uma excelente Fuller´s IPA, só porque não tem o IBU encostando no céu, dizendo: “Isso é uma porcaria, não é IPA!”, sendo que é um dos mais perfeitos exemplares de English IPA. IPA é muito bom, realmente, mas o que não falta é opção no universo da cerveja e se limitar é um pecado. Uma vez escutei de alguém que também trabalha há muito tempo no meio: “O cara que só toma IPA e não aceita mais nada é tão limitado quanto o cara que só toma cerveja comercial”. E é verdade.

Eu mesma já fui assim, eu mesma já reclamei de IBU, eu mesma já fui embora de bar que não tinha IPA, até que as Lagers lindas, frescas, perfeitas, crocantes (dava quase de mastigar) e saborosas da República Tcheca, bebidas na fonte, amoleceram meu coração amargo. Como um chef que se dedica com amor a preparar um delicioso jantar, o cervejeiro também fica chateado quando, depois de tanto trabalho para fazer uma cerveja, alguém se recusa a prová-la. Não tinha como recusar estando lá e me surpreendi do melhor jeito possível.

Ainda bem que nem tudo é IPA!

O guia de estilos do BJCP 2015 lista 26 categorias de tipos de cerveja com mais de 100 estilos, fora as variações desses estilos e estilos ainda não reconhecidos e avaliados oficialmente. Cervejas têm personalidade. Mesmo as do mesmo estilo, têm diferença entre si. E isso é sensacional! IPA é muito bom, amargor é delicioso mesmo, mas é importante experimentar estilos diferentes para reconhecer o que é uma boa Pilsen, uma Weiss perfeita, e saber distinguir boas cervejas das de baixa qualidade dentro de um estilo. Isso é a experiência cervejeira.

Vai viajar? Tome cerveja local, tome estilos que são populares ali onde você está! Abra a cabeça, existem estilos e mais estilos nesse mundão aí fora. Quem sabe você não se surpreende? Pelo menos para mim, mesmice é chato demais, tomar sempre a mesma coisa, enjoa. O que dá cor para a vida são as surpresas, as descobertas e, ah!, como já me surpreendi com estilos que nunca tomei antes! Por isso, hoje experimento tudo, aí quando tomo uma IPA, fica até mais gostosa.

Lembrem-se, caros leitores “amargor é bom, amargura, não”. Não vá embora do bar que não tem cerveja com mais de 80 IBUs! Vamos brindar e nos divertir com IPA ou sem IPA! É para isso que a cerveja artesanal está aí!

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Artigo de: Maria Fernanda Stinghen Gottardi

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