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Fogo no mundo, por Luís Henrique Pellanda

22 de junho de 2018

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Uma simpatia de São João

Aconteceu trinta anos atrás, numa festa junina. Eu me sentei a uma mesa afastada, já era noite, fazia frio e as quadrilhas se recolhiam. Levava comigo um copo de quentão, uma fatia de bolo de fubá e uma porção de pinhões cozidos. Achei que ficaria sozinho, mas não. Sentou-se à minha frente uma senhora idosa, enrolada em mantas. Primeiro perguntou se podia servir-se do bolo. Eu disse que sim. Depois quis saber se eu não lhe cederia alguns pinhões. Fique à vontade, respondi. E o quentão, posso? Tomei um gole e lhe ofereci o resto. Ela agradeceu e começou a comer e beber.

Dizem que São João está dormindo, falou a velha, saboreando o bolo. E parece que não acorda fácil. Assenti com a cabeça. Sorte nossa, prosseguiu. Porque o santo, quando acordar, vai pôr fogo no mundo. Eu ri, e perguntei por que ele faria isso. Ela disse que não sabia, mas que o primo de Jesus devia ter lá os seus motivos. Todo mundo tem um motivo pra incendiar o mundo, decretou a velha, apontando uma fogueira mais adiante. Ao longe, um foguetório se fez ouvir. Enquanto isso, completou, vamos incendiando o céu onde vive o santo. Um dia ele acorda.

Concordei. Ela me ofereceu um pouco do quentão. Bebi. Depois me deu um naco do bolo. Comi. Eu era moço, tudo era novo. Toda experiência, um tobogã para o infinito. Olhando para mim, a velha mordeu a bunda de um pinhão. A casca se abriu pela ponta, e a semente, nua, deslizou para fora, por entre seus molares, brilhante e avermelhada. Quer um? Quero, obrigado. Apanhei um pinhão e também mordi a bunda dele. Ela sorriu e me perguntou se eu tinha namorada. Engasguei e disse que não. Era mentira, eu tinha. Nem sei por que menti.

Então, anunciou a velha, vou lhe ensinar uma simpatia. Você acredita em simpatias, menino? Respondi que sim. Ótimo, ela falou. Trata-se de um encantamento simples, e vou transmiti-lo conforme o registrou o Barão de Studart, em 1910, ano em que nasci. Fiz as contas: ela era quase octogenária. Mas, para um adolescente como eu, aquela senhora aparentava ter, no mínimo, cem anos.

A velha apontou para as estrelas e disse: Esta é a noite do dia de São João. Você já a perdeu. Por isso, menino, espere a manhã do dia de São Pedro. Não fará diferença, os santos de junho se ajudam. Fiz um sinal de anuência com a cabeça, como faria um hagiógrafo experiente. A primeira coisa a fazer é jejuar, continuou ela. O que não significa que você não deva sentar à mesa durante as refeições servidas no período. Pelo contrário. Sente-se. Do café da manhã à janta. Apenas deixe de comer. Deixe a fome fazer o seu trabalho. Prometi que deixaria.

Antes de dormir, disse a velha, leve uma mesinha e duas cadeiras até o seu quarto. Escolha uma toalha bonita e limpa, exatamente como esta. Alisou a toalha vermelha sobre a qual comíamos. Tinha unhas estranhamente bem-feitas. Vi que suas mãos eram bem mais jovens que o rosto. Não precisamos de luxo, menino. Separe talheres simples, mas decentes. Dois pratos, dois copos. Evite o papelão e o plástico, prefira a louça e o vidro. Acenda duas velas, mas use castiçais adequados, não os improvise com um pires. Não esqueça os guardanapos. Sirva, nos pratos já postos, alimentos condizentes com o gosto do santo. Pode ser pinhão e bolo de fubá. Pipoca, pamonha, pé-de-moleque. Se for canjica, o prato deverá ser fundo. Nos copos, despeje quentão. Ou vinho. Cachaça seria um erro.

Eu ouvia e balançava a cabeça, em concordância. Ela virou a bebida. Fez um bochecho antes de engoli-la. Depois de preparar o cenário, instruiu-me, deite na cama e espere o sono chegar. Reze o Salve Rainha. Você adormecerá bem no trecho que diz: “E depois deste desterro, mostrai-nos…” Não, não haverá tempo de dizer “Jesus”.

Minha cabeça continuava balançando, mas de sono. A preleção da velha me hipnotizava. Durante a madrugada, disse, alguém abrirá a porta. Entrará em seu quarto, atraído talvez pelo fogo das velas, pelo sal da sua comida, pelo mel dos doces, pela fé que move o seu sonho. A aparição sentará à sua mesa. Levante da cama e sente com ela. Talvez você não a conheça, ou não a reconheça, mas preste atenção em seu semblante. Só não a olhe como se a encarasse, seria rudeza de sua parte. Peça a ela que se sirva à vontade. E torça para que aprove sua comida.

A velha, que já não me parecia tão velha assim, não disse como deveríamos encerrar aquela noite, ou aquele sonho. Não sei se da mesa vocês passarão à cama, adiantou. O Barão de Studart foi discreto quanto a isso. Mas garantiu que este homem, ou mulher, ou fantasma com quem talvez dividamos a refeição na noite de São João, ou na de São Pedro, é a projeção do grande amor que o destino nos reservou. Esta mesma personagem, um dia, virá até você durante a vigília, magnetizada pelo poder encantatório das velas que iluminaram sua ceia romântica, presa à obrigação de fazer parte de sua vida, após ter provado o sabor de suas oferendas.

Tirei do bolso o isqueiro e um maço de cigarros. A velha os enquadrou, pronta para filar um deles. Antes, resolveu encerrar seu discurso com uma advertência: No futuro, jamais revele a seu amor que o enfeitiçou num sonho junino, ou mesmo que um dia chegou a sonhar com ele. Se isso acontecer, seu amor se transformará em ódio. Seu mundo será incendiado.

Acendi um cigarro e ofereci outro à velha. Ela aceitou. Agradeci as dicas. Ela agradeceu pela companhia. Levantou da mesa, fumando. Disse ter gostado da ceia, e que nos veríamos em breve. Desapareceu na névoa do tabaco. Eu sorri. Levantei também, voltei para a cama e continuei dormindo.

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Luís Henrique Pellanda é escritor e jornalista, autor dos livros “O macaco ornamental”, “Nós passaremos em branco”, “Asa de sereia” e “Detetive à deriva”. Siga no Instagram: @lhpellanda

Artigo de: Luís Henrique Pellanda

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  • Mais uma crônica Genial!