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Gato Preto, por André Bezerra

20 de agosto de 2017

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A trajetória de um dos restaurantes mais boêmios e democráticos de Curitiba

Era uma vez um graniteiro. Ainda garoto, aos 11, Aldo Silvério Cardozo aprendeu o ofício que seria sua profissão até os 30 anos. Com o passar dos anos, havia reunido um time de, aproximadamente, 15 profissionais que o acompanhavam em obras como o piso das Lojas Americanas, no centro de Londrina, além de outras tantas pelo Paraná e interior de São Paulo. Ele costumava frequentar um pequeno boteco no bairro Parolim, chamado Meu Cantinho. Ali havia, basicamente, duas mesas de bilhar e um balcão para os tragos.

Um dia, quando Aldo tinha 28 anos, o dono propôs arrendar o ponto para ele. “Tenho uma obra no interior de São Paulo, quando eu voltar, a gente pode conversar”. E lá foi o jovem graniteiro, com o time dele, executar sua última obra dentro daquele ofício: o piso da fábrica da Brahma, em Agudos. “Levou 30 dias. Como o serviço ficou perfeito, ao final ainda recebi um bom dinheiro de bônus da indústria. Voltando a Curitiba, continuei frequentando o Meu Cantinho e acabamos fechando negócio, arrendei o ponto” – declarou Aldo.

O imóvel era um pequeno prédio. Aproveitando o pé direito alto e seus conhecimentos avançados em obras, o jovem arrendatário tratou de construir mais um piso. Colocou umas mesas e cadeiras em volta, formando uma pista e, ao fundo, levantou dois quartinhos. O bar Meu Cantinho virou a Boate Meu Cantinho, como tantos outros na região do Parolim, ao longo das décadas de 70 e 80. A partir daí, com uma vizinhança em plena expansão, os convites para ser sócio de outras Casas e boates começaram a surgir.

Em pouco tempo, Aldo comprou a boate Sobradinho, o Embrulha a Noite, o Viva a Noite e construiu o Marrom Glacê. Expandindo para o centro, comprou o Baila Comigo, o Metrô, o Flicks, o Ponto Zero e o Tangará, que ele fecharia para abrir o Lidô, uma das boates com vida mais longa dentre as Casas do empresário – durou 40 anos no centro de Curitiba. Em Guaratuba, ainda, ele tinha a Pizzaria Guaratuba, onde mantinha uma cozinha completa, servindo uma famosa picanha na chapa, entre seus pratos.

As pessoas foram simplesmente aparecendo. Do garçom que saía do trabalho em outra Casa, até o político e o desembargador com os amigos ou a namorada. Também havia os turistas e artistas que vinham de fora, todos queriam ir jantar no Gato Preto

Tendo essa experiência em gastronomia, decidiu que era hora de abrir um restaurante que atendesse os boêmios da madrugada de Curitiba. O ponto surgiu no início da década de 90, dentro do porão do prédio de um amigo. Ficava na Ermelino de Leão, bem nas imediações de onde, anos mais tarde, o então prefeito, Rafael Greca, mandaria construir uma famosa fonte com os versos da canção de Nhô Belarmino e Nhá Gabriela: “As mocinhas da cidade, são bonitas e dançam bem (…). Dancei uma vez com uma moreninha, já fiquei querendo bem”. Não por acaso, essa fonte foi construída em meio à região onde proliferaram tantas boates do Aldo Silvério Cardozo. Os versos bem poderiam descrever as noites que ele promovia.

Pois bem, nascia o Gato Preto. Ali, entre a música do teclado ao fundo e as mesas com atmosfera de porão, além das chapas de picanha, mignon recheado e a famosa costela de forno, era servida a Canja. Essa última receita passou a ser muito procurada pelas mocinhas que trabalham na região, à noite. Como frequentadoras reincidentes das boates, ou amigas de longa data do dono da casa, elas não pagavam para comer, como ainda não pagam até hoje.

Perguntado sobre como ele conseguiu levar Curitiba inteira para dentro do Gato Preto – de todas as classes, cores, credos e ofícios – Aldo respondeu: “Eu não levei ninguém. As pessoas foram simplesmente aparecendo. Do garçom que saía do trabalho em outra Casa, até o político e o desembargador com os amigos ou a namorada. Também havia os turistas e artistas que vinham de fora, todos queriam ir jantar no Gato Preto”. Esse ambiente democrático, repleto de história e pratos saborosos ainda existe, no mesmo endereço. Trata-se de um restaurante-dançante. Ao fundo da pequena pista, um teclado e um violão executam algumas das pérolas do romântico-brega.

A Passagem de Gato Preto a “Pantera Negra”

Há 20 anos, porém, o estabelecimento trocou de mãos. O empresário Natalino Jesus Santos, dono do Restaurante Guadalupe, ao lado do Terminal, e do Parque Aquático NJS, em Colombo, tinha também algumas das principais lan houses espalhadas pelo centro de Curitiba. Ao ficar sabendo, por um conhecido, que havia um oficial de justiça fazendo cumprir uma ordem de despejo no Gato Preto, correu para o endereço.  Lá, falando com o oficial, conseguiu ganhar 24 horas, reuniu o valor pedido pelo sócio do Aldo na Casa, e fechou negócio, com “porteira fechada”. Natal, como é conhecido, construiu e segue tocando a segunda fase da Casa, que passou a se chamar Pantera Negra. “Mas o novo nome não pegou. Todo mundo seguiu chamando de Gato Preto. Pantera Negra, só na razão social”, contou o empresário.

Nessas duas décadas, pouca coisa mudou aos olhos dos clientes. A cozinha ganhou alguns pratos, mas segue servindo a costela macia, acompanhada de maionese bem fresquinha, salada, farofa e arroz, tudo muito fresco e saboroso. Provamos também a chapa de coração de frango, deliciosa, e o mignon recheado. A peça vem acompanhada de batatas fritas e um rico arroz à grega. O atendimento dos garçons é ágil, gentil, um dos melhores da cidade.

Tudo isso está sob a administração séria e o olhar clínico do Natal. Há mais de 30 anos ele viajava o Brasil, como topógrafo agrimensor. Sofreu um acidente de carro e veio tratar a perna machucada em Curitiba. Durante o período de tratamento, passou a se aproximar dos negócios de um tio que atuava com gastronomia. Enveredou no segmento, aprendeu e, hoje, vem expandindo os negócios, abandonou a profissão anterior. Atualmente, além dos restaurantes e do parque aquático, mantém operações com churrascaria, pesque-pague e eventos. O Aldo Cardozo declarou, durante a entrevista: “O Natal é um amigo, um dos melhores profissionais que já conheci. Ainda frequento o Gato Preto e já fui comer na churrascaria dele, pescar no pesque-pague”.

Plantado em um porão da Ermelino de Leão, o Gato Preto segue como um dos mais cultuados pontos de encontro dos boêmios que sentem fome na madrugada. As luzes não se apagam antes das primeiras horas da manhã. Felizmente, elas nunca se apagaram definitivamente, desde que as histórias de dois trabalhadores se cruzaram. Dois homens que vieram de outros ofícios, conheceram e passaram a se dedicar à noite e aos seus frequentadores, ou personagens, como queira. Sejam protagonistas ou figuras dos bastidores, todos são recebidos de braços abertos, encontram o seu espaço dentro desse endereço, temos o mesmo tamanho sob a luz da estrela Dalva.

Sobre a Passagem do Julio Iglesias no Gato Preto

Uma história conhecida, contada e recontada, foi sobre a passagem do cantor Julio Iglesias no Gato Preto. Aparentemente durante uma caminhada solitária e noturna pelo centro de Curitiba, o cantor de fama internacional adentrou o estabelecimento. Caminhando até o tecladista da Casa, pediu uma determinada nota musical, queria dar uma canja. Anônimo, ficou aguardando, até que desistiu e sentou-se a uma das mesas. Acabou sendo reconhecido por um grupo, com quem passou um bom tempo bebendo, talvez comendo. Ouvindo essa história, perguntamos:

– Mas Natal, e aí? Ele não cantou? Não houve a “canja” do Julio Iglesias na pistinha do Gato?

– Não. O tecladista não deu a nota. Ele ficou por ali, se divertindo com o pessoal que conheceu no salão. Os seguranças particulares descobriram o paradeiro dele, chegaram, pagaram a conta e o acompanharam de volta ao hotel.

Gato Preto – Pantera Negra

Rua Ermelino de Leão, 257, Centro
3225-5717 / 99709-5126
Todos os dias, 18h às 7h.

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André Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra

Leia mais:

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Pizzaria Itália, por André Bezerra

Artigo de: André Bezerra

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COMENTÁRIOS
  • Olá, como vai? Você pode entrar em contato diretamente com o restaurante. O telefone deles é 3225-5717 / 99709-5126. ;)

  • Oi gostaria de saber preço pra entregar em Colombo

  • Tenho o prazer de ter conhecido o Aldo e ter como um amigo querido o Natal... melhor costela....melhor canja...conhecida como levanta defunto....rsss .....

  • Melhor costela assada que já comi dos restaurantes de Curitiba, e excelente atendimento!!!