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Ieda Godoy, por André Bezerra

22 de dezembro de 2017

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Do Poeta Maldito ao Jardim de Flores e Pássaros e Jazz

Foi a Fernanda Ávila quem emendou: “vamos falar da Ieda Godoy”. E lá fui conversar com a menina de Prudentópolis que melhor vem conjugando verbo “bar” em Curitiba. Depois da entrevista, concedida numa tarde chuvosa no Jardim do Dizzy, vim escrever. Não dava para fazer isso a seco, ela gosta de vinho, passei um café pra mim. Não podia ser no silêncio de uma noite de dezembro. A Ieda é musical, o quê ela poderia ouvir? Bowie? Chet Baker? Escolhi Elis Regina:

“Como se fora a brincadeira de roda /Memória / Jogo do trabalho na dança das mãos / Macias / O suor dos corpos, na canção da vida / Histórias / O suor da vida no calor de irmãos (…)”.

Curitiba

Ela chegou a Curitiba no dia do aniversário de 18 anos. Foi o segundo pai, que considera o primeiro, quem acompanhou a menina no ônibus. Saiu da cidade repleta de templos ortodoxos para morar em um convento de moças na capital. Aos 13, tentou converter a família à igreja adventista do 7º dia, religião do avô, que restringe a dieta à base de carne. “Preguei a eles, sem sucesso, durante três meses. Mas fui vencida (…) Não valeria a pena viver essa vida sem comer bife pra me salvar entre estranhos.” Parecia um prenúncio. Ieda Godoy adora carne, assa um pernil suíno como ninguém e raramente se vê entre estranhos. Foram os amigos que sempre frequentaram e seguem indo aos bares que vem abrindo desde 1991.

Mas não foi para ter bares que a Ieda veio a Curitiba. Ela queria ser professora, jornalista, atriz. Fez magistério, deu aulas, estudou jornalismo, artes cênicas, atuou em três peças diferentes. “Bar não é projeto para alguém tão tenro, tão jovem. Nunca vi nenhuma criança brincar de barzinho… Barbies bebendo martinis… Kens tatuados tocando numa banda… Falcons abordando Barbies… ou dizer manhê, quando crescer quero ter um bar (…). Também nunca vi nenhuma mãe olhar pro seu bebê e pensar quando você crescer rezo pra que tenha um bar. Um bar muito bonito, filhinho.” – Escreveu Ieda sobre o ofício que exerce com personalidade.

Poeta Maldito

Acontece que foi assim mesmo. Três amigos – o Leo, a Angela e o Marcelo – abriram um bar no Centro, o Poeta Maldito – uma alusão ao poeta americano Edgar Allan Poe. Tinha parede grafitada quando ninguém falava em grafite, tinha móveis doados pelos amigos, tinha poeta e punks. Havia até uma TV fora do ar, porque a vida naqueles anos não tinha controle remoto. Tinha rock, jazz e Paulinho da Viola. Só não tinha dinheiro. E nem alvará. Por essa e outras o Poeta Maldito fechou as portas com seis meses.

Dolores Nervosa

Fechado o Poeta, era preciso abrir o ciclo seguinte. Dessa vez em três – o Leo, a Angela e a Ieda – escolheram um imóvel na Vicente, sentaram em volta de uma mesa e se perguntaram: “como vai chamar? Precisa ser um nome forte, almodovariano. Dolores. Mas só Dolores? Não. Nervosa.” Nascia o Dolores Nervosa. Tinha alvará, mas ainda não tinha dinheiro. Corria 1992 e, novamente, os amigos começaram a chegar. Rock, samba, jazz. E comida? “Servíamos amendoinzinho”, disse. O bar com nome que parecia saído de filme do Almodôvar contava dois anos e fazia história. Até que houve um disparo de revólver na Vicente Machado, diante dele. Um jovem caiu morto no asfalto. A notícia chocou. Houve uma festa pela paz dentro do Dolores, muito embora o crime não tivesse ocorrido no bar. As pessoas prestigiaram, mas a dor espreitava, o ciclo Dolores teria que terminar.

Dromedário e Café Mafalda

A Ieda, o Leo e a Angela decidiram promover uma reforma no mesmo imóvel. Investiram na cozinha, mudaram a trilha sonora, perguntaram-se qual seria o novo nome: “Tem essa música dos Titãs, O Camelo e o Dromedário, animal forte, sereno, capaz de atravessar o deserto.” Nascia o Dromedário, em 1994. Novo ciclo de música boa, gastronomia surgindo na história, amigos entrando e saindo. Os próprios Leo e Angela acabaram deixando o projeto três anos depois, em torno de 1997. Cada um foi buscar novas histórias. A Ieda seguiu firme, tinha o Adriano como marido, parceiro e companheiro. Ela engravidou do Pedro. Ficou no bar até a véspera de dar à luz o bebê. Ficou 40 dias em casa. No 41º dia voltou ao Dromedário.

Mais três anos e estava grávida do Arthur. Dessa vez, além de trabalhar até a véspera do parto, ainda resolveu abrir mais uma casa. A maternidade vinha transformando a mulher. Estava na hora de sair da noite, sentia falta de uma rotina mais diurna, uma cozinha mais leve, conviver com gente diferente. Durante a segunda gravidez e enquanto ainda cuidava, junto com o Adriano, do Dromedário, Ieda deu à luz ao Café Mafalda, na XV de Novembro. Ali trabalhou até o momento de ter o Arthur. Mais 40 dias com o bebê dentro de casa e de volta ao bar. Ieda e Adriano se revezando entre os meninos e as casas, chegou a hora de fechar mais um ciclo. Seis anos completos, em 2000 – ano que o Arthur nasceu – apagaram as luzes do Dromedário. O Café Mafalda seguiu de portas abertas por 17 anos.

Sociedade Portuguesa

Um pouco antes, em 1999, vieram as festas na Sociedade Portuguesa/Café Pagu. Eram festas antológicas, nas cubanas o El Merekumbe entrava e ninguém queria ir embora. A Ieda se revezava entre o Mafalda, ser mãe de dois meninos e noites com as festas.

Wonka

Mais cinco anos e, em 2005, a abertura de um novo ciclo. Ao ficar sabendo de um ponto na Trajano Reis, conseguiu o apoio de uma marca de cigarros, negociou um belo abatimento no aluguel e entrou, junto com um pedreiro, para tocar as reformas no imóvel. “Eu queria ter poesia, eu queria ter samba de raiz, eu queria ter jazz de verdade.” Foi a primeira vez que Ieda contratou serviços especializados de arquitetura para ajudar na criação dos ambientes. Nascia o Wonka, em alusão à magia da Fantástica Fábrica de Chocolates. E o porãozinho do Wonka se transformou na fantástica fábrica de samba, às quartas, de jazz, às quintas, e de poesia, às terças. Os artistas encontraram um palco hospitaleiro, um público de braços abertos, a arte brotava visceral no pequeno Cavern Club no qual se transformava o Wonka.

O jazz ganhava espaço, era preciso um piano sobre o palco. Ieda perguntou ao amigo Hélio Brandão. O Jeff Sabbag, pianista assíduo nas apresentações das quintas, tinha um para vender. Ieda colocou as cédulas do valor acordado em um pacote de pão e foi ao encontro do Jeff. Ainda não sabiam que se tornariam companheiros. Não sabiam que caminhariam de mãos dadas pela música e pela vida. Ainda não sabiam que o futuro reservava a eles um novo ciclo.

Foram mais dez anos contribuindo com a música, arte e poesia locais, recebendo artistas consagrados e consagrando outros, encantando a cidade com a arte de receber. Sobre a Ieda, o produtor de filmes, Carlos Deiró, declarou: “Rainha absoluta dos cenários de som e luz a Ieda sempre iluminou minhas noites com taças de champanhe douradas”.

Dizzy Café Concerto

Então chegou a hora de descer a cortina do Wonka e levar o piano para um imóvel na rua Treze de Maio. Durante a reforma – a Ieda e o Jeff se encarregaram pessoalmente trazendo, inclusive, elementos de outras construções e restaurantes – o piano dos Sabbag, Jeff e o saudoso Gebran, ganhou espaço de destaque: o palco do Dizzy Café Concerto. Um templo para o jazz, com luz ambiente, gastronomia, apresentações memoráveis, paredes cobertas por ícones da música que ecoa desde New Orleans, pé direito alto, acústica afinada, balcão longo, varanda e área externa. O Dizzy é a cara da Ieda e do pianista Jeff. O Pedro e o Arthur estão aprendendo a tocar piano – “Eles nos emocionam” – declarou a Ieda, falando dos meninos.

Mas foi a área externa dessa casa que chamou muito a minha atenção. É o Jardim do Dizzy, espaço onde também há eventos. Vê-la circulando naquele belo jardim e pensar na história que a conduziu até ali, pensar que cada ciclo de vida dela está intimamente relacionado à minha própria história em Curitiba, como de tanta gente da minha geração, me tocou. Muita coisa passou pela cabeça, das noites no Dolores, passando pelas apresentações no Wonka, o Porão Loquaz, Sex Libris, até o sorriso da Ieda para seus amigos, clientes, a concentração do Jeff ao piano. Foi uma tarde agradável enquanto ouvi a Ieda contar a história e ver como ela vem cuidando do jardim dela. Um lindo jardim, maduro, todo musical.

Por isso fiz questão de colocar esse vinil enquanto escrevia aqui. Porque a Ieda é pisciana com ascendente em gêmeos e se reinventa a cada novo Ciclo ou a cada nova Casa. Ela contou que gosta de sapatinhos de judia, da cor preta, de Florença, da canção Cry Me a River, do poeta Manoel de Barros, do escritor português Walter Hugo Mãe, do David Bowie e da Elis Regina.

Dizzy Café Concerto

Treze de Maio, 894, Centro
(41) 3527-5060
Segunda-feira a sábado, 19h às 2h

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André Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra

Artigo de: André Bezerra

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