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Ile de France, por André Bezerra

19 de abril de 2018

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65 anos de história do restaurante que é uma “ilha” da boa gastronomia

O casal de franceses, Emile Decock e Janine, se conheceu em Le Neubourg, uma pequena cidade na região da Normandia, França. Era início da década de 40. Emile frequentava a faculdade de agronomia e a senhora Germaine Duval, mãe de Janine, tinha um hotel onde também funcionava um restaurante. Janine cresceu em meio aos hóspedes e frequentadores dos dois estabelecimentos. A mãe dela, eventualmente, viajava a Paris. Uma das razões que a faziam pegar a estrada até a capital francesa eram os bailes pomposos no castelo de Versailles.

Le Havre e Brasil

Emile e Janine se casaram e foram viver em Le Havre, onde também administraram um hotel com restaurante. Por essa época tiveram as duas filhas mais velhas: Lionele e Roseline.  O casal acabou conhecendo alguns diplomatas brasileiros que lhes falavam sobre o Brasil, um país latino-americano distante do mapa da II Guerra Mundial. Com a invasão da Normandia, em 1944, Le Havre acabou sendo dizimada pelas bombas. Janine voltou para o hotel da mãe e Emile, já formado engenheiro agrônomo, veio com um primo tentar a sorte trabalhando com linho no Brasil. Escolheram Curitiba por causa do clima frio, menos penoso para eles no desconhecido país tropical. A vida era difícil para um francês habituado à rotina do primeiro mundo. Curitiba, na época, tinha muitas ruas que sequer eram asfaltadas. Por isso, no final da década de 40, Emile escreveu e enviou – pelo primo que retornava à França – uma carta à esposa Janine. Em resumo, ele escrevia a ela que ficasse mais tempo por lá, que não viesse para o Brasil. Por um golpe do destino, enquanto a carta seguia para a Europa, Janine já havia embarcado e atravessava o Atlântico em direção ao porto no litoral brasileiro. Ao chegar, veio com a mãe e as duas filhas viver com o marido na capital paranaense. Mais uma vez a menina de formação aristocrática encontrou uma dura realidade.

Bar Normandie e o primeiro endereço do Ile de France

Aproximadamente dois anos se passaram e, em 1951, a família Decock abriu o Bar Normandie na rua Cruz Machado, centro de Curitiba. A população mais abastada da cidade reconheceu ali um ambiente diferente dos estabelecimentos que frequentavam. A cozinha também era novidade para os curitibanos do início da década de 50. Em fevereiro de 1953, então, os Decock inauguraram o restaurante Ile de France no primeiro endereço, na Dr. Muricy, entre a Pedro Ivo e a André de Barros. A população de hábitos mais internacionais podia, então, conhecer e saborear receitas da cozinha francesa. Nasceu Jean Paul Decock, o caçula de Emile e Janine. Os três irmãos cresciam em meio à rotina da cozinha e do salão do restaurante. O patriarca trabalhava na Plumbum Mineração de Chumbo de dia e, à noite, ia para a cozinha do Ile, onde cozinhava as receitas que aprendia com a esposa. A sogra, Germaine, atendia no caixa e no salão. O casal preparava os pratos que compõem o cardápio de um dos restaurantes mais aclamados em Curitiba. As crianças ajudavam como podiam, na cozinha preparavam os molhos, o Ile de France estabelecia clientela.

Ile de France – Praça 19 de Dezembro

Em 1957 levantaram o prédio que abriga o restaurante até hoje, diante da Praça 19 de Dezembro. Jean Paul, na época um menino, ainda se recorda de que “a praça era completamente abandonada, havia um matagal diante da nossa casa”, contou ele à Tutano. Mesmo assim, toda a família foi morar no andar superior. A vida, portanto, era levada no prédio do restaurante. Os três filhos de Emile e Janine cresceram, foram estudar engenharia. No final da década de 60, com o falecimento da esposa Janine, Emile passou a tocar o Ile de France com a sogra e os três filhos.

Jean Paul e Clara Chao

Durante a faculdade, em 1972, Jean Paul conheceu Clara Chao. Começaram a namorar por carta porque ela frequentava a faculdade nos Estados Unidos. Com o retorno da namorada, descendente de chineses, ao Brasil, Jean e Clara casaram-se. Ela também foi para a cozinha do restaurante, onde aprendeu com o sogro Emile, na prática, as receitas francesas. Ali Clara fez escola para comandar os times de chefs e cozinheiros que trabalharam ou ainda trabalham no Ile. Jean Paul passou a atender no salão e aprendeu tudo sobre a arte de receber, além de tornar-se sommelier. O restaurante Ile de France chegou a abrigar 500 rótulos de vinho, hoje são 100.

65 anos e o novo cardápio

Clara ensinou as receitas ao Mauro Lima, que está na cozinha do restaurante há 15 anos. O cardápio teve pequenas mudanças ao longo de seus 65 anos de história. Atualmente, porém, uma mudança bem mais significativa: de duas semanas para cá, o Ile de France passou a oferecer um cardápio ainda mais minuciosamente elaborado, mantendo todos os principais pratos, tão consagrados, e incluindo alguns novos, como os Cervettes (camarões) à La Crême de Truffe. O couvert também foi reelaborado para uma rica cesta de pães autenticamente franceses, manteiga, patê Maison, azeitonas e o delicioso ratatouille processado. Foram mantidas receitas de Hors d`Oeuvres, entradas, acompanhamentos, frutos do mar, aves, filés e os clássicos estrogonofe de camarão e de filé. As sobremesas também seguem sendo outro caso à parte.

A Tutano Gastronomia jantou com o Jean Paul, Clara e com a Gisah Akel, que vem desempenhando um papel importante para que este senhor restaurante, que acabou de completar 65 anos, siga vivendo muitos anos de vida. Que as pessoas sigam celebrando aniversários, noivados e datas especiais neste ambiente que é como ir até Paris, ou a Normandia, e voltar, tudo em algumas horas e muito bem alimentadas.

Perguntamos ao Jean Paul como ele avalia a clientela e a experiência de se alimentar em um templo atemporal – como são os salões do Ile de France, residência da família Decock no Brasil. Sorrindo, ele disse que muita coisa mudou. Os clientes, em sua maioria, não se permitem mais o tempo necessário para apreciarem uma refeição que remete a décadas, que atravessou a guerra e vem sobrepondo aparelhos e aplicativos. O tempo se reorganizou e as pessoas vivem em alta velocidade. O Ile de France, concluímos todos juntos, é o ambiente para se comer maravilhosamente bem, apreciar um bom vinho, ouvir uma trilha sonora escolhida a dedo, conversar com o próprio Jean – uma das prosas mais incríveis de Curitiba, assim como a Clara – abandonar o celular, olhar nos olhos de quem divide a mesa e demonstrar, a partir de uma refeição memorável, todo carinho e apreço que pode haver em volta de uma receita e de uma mesa bem posta.

Restaurante Ile de France

*Praça 19 de Dezembro, 538 – Centro
*Se for pelo GPS: Rua Riachuelo, 538

Segunda a quinta-feira, 19h à meia-noite
Sexta-feira e sábado, 19h à 1h
Pedidos: @jamesdelivery
Pedidos e reservas: 3223-9962 ou 3232-7220

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André Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra

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Artigo de: André Bezerra

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  • Excelente, j' adore.

  • Gostei muito. Foi muito bem elaborado. Não tenha dúvida que já é um sucesso. Parabéns

  • Com esse simpático casal, a grande tradição do restaurante se mantém firme. Poucos nomes estão no nível do Ile de France, em Curitiba.
    Sucesso e felicidade.