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A história do seu Januário Jaszczersk, por André Bezerra

11 de outubro de 2018

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Artesão, o seu Januário produz cestas de vime para restaurantes como o Nomade

A convite da Carolina Ueberbacker, criadora da PaniPano, fomos a Campo Largo conhecer o Seu Januário, artesão de cestos e balaios de vime. Chegando ao município vizinho de Curitiba, encontramos a Carol e o Israel na casa onde eles moram, um belo imóvel dos anos 70. Além de ser a residência do casal, ali também funciona a Panipano, que produz aventais e produtos para pães de fermentação natural, tudo a partir de tecidos naturais. Dali, fomos para outra casa encantadora que, logo além do portão, nos lembrou a uma espécie de vila italiana — ou polonesa — com duas casas e uma oficina em torno de um jardim de rosas e pequenas culturas.

A oficina/atelier

Da calçada, nos anunciamos: “Ô de casa!”. Ao que fomos recebidos por um senhor de 78 anos, forte como um galho de vime. Era o Seu Januário Jaszczersk, artesão e neto de poloneses. Convidados a entrar, fui apresentado para a Dona Eva, esposa dele. Seguimos para o depósito onde ele mantém a matéria prima que usa para trabalhar: o vime que é transformado em cestos e balaios artesanais, tudo pelas mãos do Seu Januário.

Este ofício começou quando o pai do Seu Januário, senhor Leonardo, tinha 14 anos. Era final do século XIX quando o menino, filho de pais poloneses, aprendeu com a colônia italiana — em Santa Felicidade — a cultivar, preparar e tramar o vime. Quando o Seu Januário nasceu, caçula de 4 filhos, a família morava no bairro Orleans. O pai tinha dois vimais que totalizavam cerca de 2400 m². O pequeno Januário acompanhou desde cedo a cultura e cada etapa do ofício de artesão: poda, escolha, cozimento “na água pulandinho”, descasca, seca, amarra e molha. Cada uma destas etapas precede o trabalho da trama em si. Mas não para por aí. É que o Seu Januário, assim como o pai, fabrica cada uma das diversas ferramentas de trabalho.

A biografia

Aos 8 anos, o Seu Januário começou a ajudar o pai. “Eu mais estrovava do que ajudava”, contou para a Tutano enquanto tramava o vime em nossa frente. Ele trabalhou ao longo das quase duas horas que levou nossa conversa. “Meu pai começava, meus dois irmãos trançavam e a minha mãe fazia o acabamento enquanto a minha irmã cozinhava.” Quanto ao seu Januário: “Eu era muito piazinho!”

Com a construção da BR277, o asfalto passou por cima dos vimais do senhor Leonardo. A família se viu obrigada a ir trabalhar na lavoura, quando Seu Januário tinha 10 anos. Depois, ele foi trabalhar numa fábrica de louças, já em Campo Largo. Aos 18 frequentava a escola e, à noite, ia “de lampiãozinho” para a lavoura ajudar o pai. Adulto também trabalhou numa oficina autorizada Chevrolet. Teve três filhas no primeiro casamento e um quarto com a Dona Eva, com quem é casado há mais de 40 anos.

Ao se aposentar, há 18 anos, passou a se dedicar integralmente ao ofício de artesão do vime. Olhando este senhor trabalhando ali na oficina/atelier dele, a gente mergulha numa espécie de espiral de sensações, o tempo se reorganiza. Entre as ferramentas artesanais, o cheiro do vime estocado, molhado e sendo manuseado, o raio de luz do final da tarde entrando por alguma fresta da parede de madeira, a conversa de tempos passados e a visão deste senhor quase octogenário nos fizeram concluir: um singelo cesto tramado por ele contém décadas e mais décadas de história. Talvez seja por isso que os produtos durem muitos anos e sua aparência permanece intacta.

O Seu Januário ainda tem guardado o primeiro balaio tramado pelo pai dele, da época quando levava quase meio dia para atravessar de Santa Felicidade ao Batel em uma carroça com quase 300 cestos, balaios e berços. O destino era a empresa do senhor Hilário Marcola, que comercializava os produtos para a cidade inteira, entre restaurantes, hotéis e casas de família.

O ofício

Hoje a gente observa a continuação dessa história na agilidade, prática e força nas mãos do Seu Januário enquanto ele trabalha, implacável como o avanço das décadas. É impossível observá-lo e não pensar em um luthier. Os dedos se movem pelas tramas como os de um músico experiente tocaria o violão, um contrabaixo, a harpa. Um produto pode levar de duas horas a um dia todo para ser tramado, conforme o tamanho e a complexidade. Mas isso sem levar em conta cada etapa do processo até chegar às tramas, principalmente se considerarmos que, como o senhor Leonardo, o Seu Januário cultiva o próprio vimal, de onde colhe uma a duas vezes por ano. E assim surgem os produtos que encantam uma clientela muito especial como a Panipano, O Pão da Casa, Restaurante Nomade, entre outros.

Dono de um fusca 1978 intacto e totalmente original “Este é o único fusca que já carregou duas sogras legítimas juntas” — conta ele sobre uma sequência hilariante — o Seu Januário se orgulha de mais 3 coisas, além do trabalho:

– Eu tenho 4 netas e 3 netos, dois são gêmeos, veja aqui na foto.

– Sou ministro eucaristia há 25 anos.

– Sou fanático do Fanático F.C. (time de futebol de Campo Largo) desde 1954, quando a torcida ia pra Palmeira na carroceria de caminhão.

Se quiser encomendar os produtos do Seu Januário, recomendamos que procure diretamente a Carolina, da Panipano.

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André Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra

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  • Rita, infelizmente não. É só acessar o Portal que os nossos conteúdos todos estão disponíveis :)

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