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Lições para aprender, ideias para copiar

7 de outubro de 2016

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Jusssara Voss cita iniciativas na gastronomia que valem a pena ser seguidas

Mirem-se nos exemplos. Cantarolo pensando em ações que deveríamos copiar. O México proibiu a plantação de milho transgênico. Eles conseguiram a proeza de o alimento ser considerado Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco, em defesa da herança alimentícia do país. Contudo, leio assustada que não tem produção suficiente no país para a demanda de consumo interno e importam, vejam só, milho transgênico. Reflexão antes de legislar é preciso. Não podemos cometer os mesmos erros.

A França, berço da gastronomia, tudo que sabemos começou ali, tem dado exemplos que poderíamos seguir. Há algum tempo já, os restaurantes locais devem estampar na porta um selo caso usem alimentos congelados. Pelo menos, ao pedir um confit de pato, o cliente saberá se veio de uma cozinha industrial pronto para entrar em um forno combinado e cair esturricado e sem molho no seu prato. Come comida sem gosto quem quer. E muita gente quer, nem liga, aliás, melhor até, já ouvi, pasmem, “para não engordar”.

Outra ideia da França: os fregueses que não raspam o prato precisam pedir o “le doggy bag” e levar para casa o que sobrou. Já é lei para combater o desperdício. Outra, obriga supermercados a destinarem ingredientes próximos do vencimento, e que seriam descartados por estarem fora do padrão de consumo, para instituições de cunho social utilizarem. Iniciativas assim vão aparecendo em muitos locais.

O Fruta Feia, da portuguesa Isabel Soares, é um modelo: “surgiu para reduzir as toneladas de alimentos de qualidade que são devolvidos à terra todos os anos pelos agricultores…”, explica a fundadora no site do projeto, que criou um mercado alternativo para frutas e verduras que não eram aproveitadas. Um sucesso.

Tem muito mais. Com a ideia de combater o desperdício e alimentar quem não tem o que comer, surgiu o Refettorio Gastromotiva. Chefs famosos também colocam o dedo da ferida na cultura do desperdício e tentam diminuir as desigualdades sociais. A iniciativa do chef italiano Massimo Bottura – número um do mundo com o seu Osteria Francescana –, ao lado do criador da Gastromotiva, David Hertz, e da jornalista Alê Forbes foi superdivulgada, mas não custa repetir. A repercussão aqui, enfim, é quase mais importante do que a intenção de servir refeições preparadas por chefs famosos para pessoas carentes. Eles querem que as pessoas reflitam sobre o problema e ajudem a propagar a ideia. Afinal, sabemos que toneladas de comida no mundo todo são jogadas fora. “Vamos unir comida, o conhecimento do chef, o jeito de pensar da minha avó, a visão do artista: é o que faremos”, explicou Massimo aos jornalistas no dia da abertura do Refettorio Gastromotiva.

Eles começaram, com a participação de chefs do mundo todo, a utilizar ingredientes que seriam desperdiçados durante as Olimpíadas e Paraolimpíadas para preparar refeições oferecidas para pessoas em situação de vulnerabilidade. Ganharam da prefeitura do Rio de Janeiro o direito de usar o terreno por 10 anos e o curitibano David Hertz já se mudou para a cidade, vai cuidar do restaurante-escola com a nobre causa.

Mudou

Aqui também temos boas iniciativas é preciso salientar, como a Cozinha Brasil – Sesi, que faz esse trabalho meio de formiguinha. Deveríamos ampliá-lo. Sabemos que quanto mais rico e desenvolvido o país, mais comida vai para o lixo; é assim nas nossas casas. Recentemente, Curitiba e Palmeira viram a criação de convivium do Slow Food atuantes, assim como as famosas Disco Xepa – a festa que reúne chefs voluntários para cozinhar com excedentes do Ceasa, que já teve duas edições em Curitiba –, mais formiguinhas trabalhando.

Convidada para falar sobre “Alimentação Responsável”, no Festival Subtropikal realizado recentemente na cidade, fui atrás de números. Impressionam. Estão no final do texto. De acordo com a ONU, se reduzirmos 1/3 do desperdício de alimento no mundo, é possível resolver o problema da fome.

Agora veja só os dados da Prefeitura de Curitiba. Em 2015, gastou mais de R$ 100 milhões e arrecadou R$ 95,3 milhões para coletar o lixo – foram 714 mil toneladas, não sabia que temos 90 mil propriedades que são beneficiadas com isenção (residências com menos de 70m2 construídos, ou de idosos, órgãos públicos, igrejas e clubes). Cada pessoa gera por dia, em média, 1 quilo de lixo. Um restaurante de 50 lugares produz, em média, uma tonelada e 200 quilos de lixo por mês. Menos de 0,5% da matéria orgânica gerada é reciclada. Dados da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais de São Paulo. Não acha que precisamos fazer alguma coisa?

Na minha pesquisa, encontrei algumas iniciativas que valem a pena falar, como a da ONG Akatu, que trabalha com conscientização e mobilização para o consumo consciente. Também vi o modelo sueco. Lá o problema do lixo começou com novas leis, mas só foi possível dar certo com a participação das pessoas e empresas na separação e destinação corretas. Depois de 30 anos de trabalho, hoje, reaproveitam 99% do lixo.

E, finalmente, quero deixar um apelo, vamos falar com a jornalista e especialista em sustentabilidade Fernanda Daelon e trazer a ideia do Instituto Guandu para Curitiba? A instituição criada por ela transforma o lixo orgânico de 17 restaurantes em adubo para hortas urbanas. Ela chama do “ciclo do prato ao prato”. Começou com 300 quilos, hoje, recolhe 2 toneladas por dia. Que tal? Quem sabe seja um projeto a ser adotado pelo futuro prefeito e pelos restaurantes daqui. Estaremos dando um exemplo da cidade modelo, uma cidade melhor, que já fomos um dia.

Números:

  • 1,3 bilhão de toneladas de alimento são jogadas fora por ano no mundo
  • 10% no campo
  • 50% no manuseio e transporte
  • 30% na comercialização e abastecimento
  • 10% no varejo e pelo consumidor final
  • 3,4 milhões de brasileiros estão em situação de insegurança alimentar
  • 805 milhões de pessoas passam fome no mundo (uma em cada nove)

Fonte: Organização da Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO)

Jussara Voss é blogueira e jornalista de gastronomia que vive a procura da refeição ideal.

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Artigo de: Jussara Voss

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