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O doce democrático

23 de março de 2018

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Sempre que posso, às quartas-feiras, visito a novena do Perpétuo Socorro. Só não vou lá rezar, nem agradecer, nem pedir graças. Vou é farejar as barracas de comida ao redor do santuário. Afinal, se fé eu nunca tive, fome eu tenho todo dia. De milho verde, pastel, chouriço e pão caseiro. Topo tudo, mas em geral como pouco. Procuro não me exceder. Gosto mesmo é de flagrar, na saída das missas, o fervor do povo comendo, em pleno exercício da gula. É a minha ideia de comunhão.

Há uma senhora, por sinal muito pobre, que acompanho há tempos. Essa me fascina. Sempre amparada por uma mulher de meia-idade, não sei dizer se sua filha, neta ou sobrinha. Pode ser sua cuidadora, ou uma vizinha mais abnegada. Sei que há bastante intimidade entre as duas, a julgar pelo modo bruto como se engatam e pela rudeza com que a mais velha dá ordens à mais nova. Nunca um sorriso, jamais um agradecimento. Se entendem assim.

Primeiro a senhora toca, com seu pacotinho de velas de parafina, a efígie de bronze da santa. Pede à sua ajudante que, enquanto isso, a abane com um leque de renda, já privado de uma meia dúzia de varetas. Fecha os olhos para sussurrar suas preces, apoiando-se numa bengala de alumínio, de quatro pontas. Depois, risca o sinal-da-cruz e, grosseiramente, ordena à outra que acenda uma vela, só uma, fazendo questão de indicar, no velário, o espaço exato onde fixá-la.

A subordinada obedece, nem se melindra. E a velinha da senhora nervosa fica lá, acesa, largada entre tantas outras, exercendo a sua função de vela, que é justamente a de derreter-se por nós.

Quanta dor, aliás, na queima de uma única vela; uma chama, vocês sabem, quer mais é misturar-se às vizinhas, ser um só fogaréu, pois é da natureza delas promiscuir-se. Mas a vela as organiza e isola verticalmente, força as chamas a uma experiência de discreta singularidade, cada mecha representando o desejo, a súplica, a gratidão de um só indivíduo. Pensando bem, acender velas é um modo de empobrecer o fogo, moderando suas fomes. As nossas, por outro lado, ninguém nunca saberá apaziguar.

A senhora e sua acompanhante, enfim, deixam a capela e passeiam famintas, livres da obrigação dos ritos, por entre a névoa das frituras. O cheiro de bacon domina tudo. Namoram um pão de queijo, um pastel de palmito, um bolinho de bacalhau. Mas o dinheiro é curto, o pavio das carências longo demais, e elas sabem o que mais lhes perturba e apetece. São os losangos de cocada branca.

Eles estão bem ali, em frente aos banheiros químicos, expostos num carrinho envidraçado. São pilhas de cocada fresca. As abelhas voejam e caminham à vontade entre os doces, como se desfilassem pelos favos de sua colmeia. De tanta ansiedade, a senhora adoentada quase grita com a outra, vá, mulher, vá me comprar uma cocada dessas, vá.

Considero a cocada o mais querido e simpático dos doces de rua, e sei que não estou sozinho. Há registros históricos atestando a preferência. Um texto já antigo, de 1850, publicado no jornal recifense A Marmota Pernambucana, dizia ser a cocada “o doce do povo, o doce democrático, a sobremesa dos pobres”. E essa fantasia açucarada que vem de longe, atravessando séculos, é o que ainda faz aquela senhora se sentar, pacificada, e comer, em silêncio, a sua justa porção de cocada branca.

A senhora mordisca o losango com cuidado, atenta à movimentação de sua prótese dentária. Ela tem prática, sabe o que faz. É a milionésima cocada de sua vida. Fecha os olhos para saboreá-la, como se rezasse de novo. Talvez reveja, ali no escuro, um tacho de cobre familiar, a mãe perto do forno e, junto a ela, uma menina que sumiu há décadas. Talvez não veja nem reveja nada. Só sei é que, quando reabre os olhos, a senhora sorri e, mastigando, anuncia à mulher ao seu lado:

— Chega de jejum, meu amor.

Dentro dela, eu intuo, se acendeu um candelabro.

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Luís Henrique Pellanda é escritor e jornalista, autor dos livros “O macaco ornamental”, “Nós passaremos em branco”, “Asa de sereia” e “Detetive à deriva”. Siga no Instagram: @lhpellanda

Artigo de: Luís Henrique Pellanda

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  • Adoro tudo que esse escritor maravilhoso nos presenteia..