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O tentáculo gigante, por Luís Henrique Pellanda

20 de setembro de 2018

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São três os homens diante do balcão iluminado da peixaria. Três viajantes de trinta anos, nem isso. Usam bonés e mochilas baratas. Decerto deixaram pai e mãe, ou mulher e filhos, em algum lugar do interior. Há pouco desceram na rodoviária e, pelo desleixo das barbas, é possível depreender que estão no meio de uma longa viagem. De Curitiba partirá o ônibus que os levará a um novo destino, seja ele qual for, desde que também provisório. Enquanto não chega a hora do embarque, esperam. São sertanejos, fortes de paciência. A fim de matar tempo, atravessaram a Affonso Camargo e vieram ao Mercado Municipal, onde tudo é novidade e abundância.

Em especial o balcão iluminado da peixaria. Diante dele, os três homens se acocoram, curiosos. Em vez de peixes, enxergam alienígenas. Perplexos, analisam a estranheza daqueles animais atrás do vidro. Cações, garoupas e robalos enormes. Lagostas e polvos. Filés de bacalhau. Camarões maiores que uma banana-da-terra. São monstros, exclamam, como é que pode? A pirâmide de vôngoles os abisma. Não sabem do que se trata e riem baixo, entre a vergonha e a maravilha, embora a lubricidade de um tentáculo gigante, enrodilhado numa bandeja plástica, logo os emudeça. Quietos, pensam nesse mar que nunca viram, mais um mistério a que não foram apresentados, ao qual não têm acesso. Um imenso desconhecido que agora lhes remete seus emissários, como se os retirasse não da água, mas de um sonho.

Ouço sua prosódia meio musical, tão boa de acompanhar, doce como o riacho sem nome onde se habituaram a pescar, desde a infância de roceiros, imaginando-se os donos de seu mundo, especialistas. Coitados, só agora percebem quanta pobreza ficou para trás. Enchiam no máximo um samburazinho de lambaris, um ou outro bagre dos miúdos enriquecendo o almoço de domingo. Pegassem um acará, era uma festa. Fisgar uma tilápia, então, um evento quase bíblico, um feito milagroso.

Aqueles três viajantes, ignoro a razão exata, me fazem pensar em tainhas. Li recentemente, num velho compêndio de Eurico Santos, que elas nascem nos rios e logo disparam rumo ao litoral; que os índios as chamavam, ou chamam, não sei, de tapiaras; que a palavra tapiara quer dizer “aquele que ainda não conhece o mar”. E me comove que essa expectativa de um grande encontro, entre as tainhas e o oceano, venha a ser a melhor definição da juventude destes peixes, a ponto de lhes dar o nome. Conosco não é assim. No fundo não temos isso, essa promessa de um descobrimento próximo, um encontro feliz. Não sabemos o que nos espera.

Um dos homens, agora, chama a atenção dos amigos para o preço de cada mercadoria: sessenta, setenta e cinco, oitenta, cem reais o quilo disso e daquilo. Quantias atordoantes, impeditivas. Os viajantes não entendem, como é que pode? Veem um sujeito se afastar com um embrulho tão pesado que, para transportá-lo, é obrigado a usar as duas mãos; um outro sai dali com duas sacolas abarrotadas de lulas. De que fonte jorra tanto dinheiro, se perguntam, e por qual ralo escoa, em que rio desemboca? Está aí um mistério ainda maior que o mar. E o tentáculo gigante, quem o comprará? E para quê?

Os três homens riem, coçam os cabelos e as barbas, e então ficam sérios. Porque até mesmo o mar, a partir do balcão iluminado desta peixaria, passará agora a representar, para eles, uma proibição a mais. Uma nova interdição, azulada e incontornável. Diante dela, os viajantes se boquiabrem, feito os peixes mortos que admiram, encantados com a magnitude da ingenuidade que começam a perder, até que um deles, ao consultar no pulso o relógio digital, anuncia: O ônibus, está na hora, vamos indo. Eles se aprumam, ajeitam as calças e lançam um último olhar ao tentáculo gigante e suas ventosas. Se ali estivesse uma das cabeças da Hidra de Lerna, o fascínio seria o mesmo.

Enquanto os vejo ir embora, ainda me vem à lembrança um trio de bons pescadores shakespearianos, coadjuvantes de uma de suas peças tardias, Péricles, escrita em parceria com um pilantra chamado George Wilkins. No segundo ato, os três trabalhadores conversam numa praia de Pentápole. Estudando os humores do mar, um deles se pergunta: Mas afinal, como podem os peixes viver na água? Ao que um outro responde, sem qualquer hesitação: Ora, do mesmo jeito que os homens vivem na terra. Os grandes comendo os pequenos.

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Luís Henrique Pellanda é escritor e jornalista, autor dos livros “O macaco ornamental”, “Nós passaremos em branco”, “Asa de sereia” e “Detetive à deriva”. Siga no Instagram: @lhpellanda

Artigo de: Luís Henrique Pellanda

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COMENTÁRIOS
  • O Pellanda não é desse planeta, ele é um mutante. O tentáculo é o braço dele. À noite as ventosas aparecem, é por isso que a gente não o ve depois que o sol vai embora.

  • Gostei muito da narrativa, com descrições informativas e fantásticas. Admiro muito o estilo do autor, que é um dos meus favoritos.