ENTRAR Bem-vindo! Faça login para ter
uma experiência completa.

Peixe imaginário, por Luís Henrique Pellanda

19 de outubro de 2018

(5)
Dois meninos brincam de comer

Dois meninos muito pequenos, índios, se desgarram da família, que vende cestos no Passeio Público. Um deles veste a camisa onze do Barcelona, trazendo nas costas o nome de Neymar. O outro, precariamente, se disfarça de Homem-Aranha. Usa uma máscara de papel, presa à cabeça por um elástico. O mais velho deve ter uns seis anos. O mais novo, cinco. Correm por entre as barracas da feira de orgânicos sem prestar atenção em nada. Toda a comida exposta ali, para eles, é invisível, inodora, trivial. Estão interessados em coisa melhor e mais urgente que comer. Brincar.

Trazem consigo três objetos rudimentares, em tese não relacionados: um graveto comprido, caído de um jacarandá e já limpo de sua folhagem; uma fita amarela e preta, fina e de material plástico; e uma garrafinha também plástica, de água mineral, vazia e bojuda. Os dois se abancam num dos barrancos do tanque do Passeio, sentam sobre os chinelos de dedo e depositam os objetos no chão. Revisitam um projeto mental e, a partir dele, em silêncio, começam a trabalhar.

Constroem uma vara de pescar. Na ponta do graveto, amarram a fita; na ponta de lá da fita, amarram a garrafinha, pelo gargalo. O menino maior, com a máscara do Homem-Aranha, é quem cuida da amarração. O menor, com a camisa do Neymar, só observa, lamentando a própria falta de habilidades: Eu não sei dar nó, eu não sei nada.

É a ele, porém, que cabe estrear o novo brinquedo. Generoso, o maior lhe concede aquela honra. Entrega a vara ao pequeno, que julgo ser seu irmão, e diz: Você primeiro. Em seguida, juntos, de braços dados, se aproximam da margem do lago. Avaliam a densidade da água parada, calculam suas chances de sucesso, o perigo de cair.

É quando o mais velho reluta e se ausenta de si. Por alguns segundos, parece distraído de sua tarefa. É que enxergou o próprio reflexo na superfície escura do lago artificial. Ainda não tinha se visto vestido de Homem-Aranha, e a visão do próprio corpo, fantasiado, o diminui e atrapalha. Era como se, antes de enxergar-se refletido na água, acreditasse mais no papel que representava. Agora que já se viu, perdeu parte considerável de seus poderes.

O pequeno o desperta do transe, vamos, que demora, e o outro volta ao mundo. Com uma das mãos, agarra o irmãozinho pela bunda, engatando-o pelo calção de náilon. A ideia é protegê-lo de uma possível queda, caso se desequilibre ao lançar a garrafa no tanque. Seguro, o menininho arremessa a linha com um longo movimento dos braços, olímpico, como se encarnasse um Discóbolo mirim. A garrafinha, no entanto, não ajuda. Descreve um arco curto, muito feio, e atinge a água com espalhafato. O pescador desanima, e até pergunta ao mais velho: Será que vai dar certo? O outro, no fundo, acha que não, mas não confessa. Ser realista na hora da brincadeira não os levará a lugar algum.

A garrafa afunda lentamente. Por um minuto, calados, eles observam aquilo que poderia ser descrito como o naufrágio de sua imaginação. Mas o maior propõe uma solução de improviso: E se a gente sair correndo? Arranca a vara da mão do irmãozinho e dispara pela margem. O outro vai atrás. A garrafa os acompanha, empinando-se na água como uma lancha em alto-mar. Agora estão felizes.

Quando passam por mim, não resisto a uma pergunta: Vocês estão pescando ou brincando de barquinho? Eles se retraem, envergonhados. Param de correr, como se eu os tivesse repreendido. Decerto veem em mim uma espécie de guarda, um fiscal do lazer alheio. Digo que perguntei por curiosidade. O mais velho, de quem nunca vejo o rosto, toma a frente e esclarece: É pescaria, tio, faz tempo que a gente não pesca. Pergunto onde é que, antes, eles costumavam pescar, e o menino responde: Perto de casa. E agora não pescam mais? Não, respondeu, agora ninguém mais pesca.

Peço explicações a respeito da técnica que adotaram. Não usam anzóis nem iscas, como esperam apanhar um peixe? O maior diz que não tem problema, pescaria é questão de paciência, uma hora ou outra um peixinho desavisado entra na garrafa. E quando entrar, quero saber, o que é que vocês vão fazer com ele?

Os meninos se entreolham, não tinham pensado nisso. Riem, sem responder. Não sabem, e o fato de não saberem, percebo, é o que mais enriquece aquela fantasia. Se pescavam sem isca, é porque só esperavam fisgar peixes imaginários. Faço, então, a pergunta que talvez já estivesse passando pela cabeça deles: Será que vocês vão comer o peixinho?

Silêncio grave. O que lhes propus era uma questão ética. Comer ou não comer. O menor, que até então não tinha me dito nada, arrisca uma resposta neutra: Depende da cara do peixinho.

Eu rio e eles voltam a correr, puxando a garrafa como a um barquinho. Volta e meia a içam da água e investigam o seu conteúdo. Um líquido amarelo-escuro, com aparência de urina, provavelmente cheio de micro-organismos, mas sem dúvida vazio de peixes. O que não chega a desanimar a dupla. Continuam a arremessar e recolher seu equipamento, diversas vezes seguidas, na fé de que, até o final da manhã, consigam capturar um peixe.

Dou uma volta pelo Passeio Público, faço a feira. Quando volto a encontrá-los, já estão descansando de suas aventuras, sentados na grama. A vara espetada na terra, a fita esticada, a garrafa submersa. Dividem um pacote de salgadinhos industrializados, os dedos e os lábios cobertos de farelo laranja. De passagem, pergunto como foi a pescaria: Pegaram muito peixe?

O mais velho, de boca cheia e máscara erguida, diz que sim: Mais de dez quilos, tio. Finjo duvidar e exijo provas, onde estão eles? O mais novo é quem explica, sem nem olhar para mim, a mãozinha dentro do pacote: Comemos tudo. Eu me espanto, tudo? E ele então se justifica, alisando a barriga de esteta: Tavam bonitos demais.

Leia mais

O tentáculo gigante, por Luís Henrique Pellanda
Álbum de inverno, por Luís Henrique Pellanda
Perdão aos pães, por Luís Henrique Pellanda
Comer na rua, por Luís Henrique Pellanda

Luís Henrique Pellanda é escritor e jornalista, autor dos livros “O macaco ornamental”, “Nós passaremos em branco”, “Asa de sereia” e “Detetive à deriva”. Siga no Instagram: @lhpellanda

Artigo de: Luís Henrique Pellanda

COMPARTILHE ESTA MATÉRIA
AVALIAÇÕES
(5)
  • Excelente
    5
  • Muito bom
    0
  • Normal
    0
  • Ruim
    0
  • Horrível
    0
DÊ SUA NOTA: