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Perdão aos pães, por Luís Henrique Pellanda

20 de abril de 2018

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Hoje não tenho história nenhuma para contar. Ou melhor, há nesta crônica a insinuação de uma ou duas histórias, mas elas não se mostrarão a nós, não inteiramente. Dizem respeito a um menino, um adolescente que vi, dias atrás, protagonizando um espetáculo de rua. Não que fosse o seu único protagonista. Havia com ele outros cem meninos e meninas da periferia de Curitiba. Estávamos todos, assistência, elenco e produção, na esquina da Kellers com a Clotário Portugal. Era o fim de uma tarde de sábado. Antes do tal menino, vários outros já tinham se apresentado: atores, músicos, poetas, bailarinos, capoeiristas. Artistas amadores, em geral. Esse menino não. Foi chamado ao microfone apenas para responder a uma pergunta, clara e objetiva: qual é o seu maior sonho? E ele a respondeu, também clara e objetivamente: “Meu sonho é ser padeiro”.

Ao ouvi-lo, a plateia reagiu com uma leve estupefação. Houve um riso difuso, mais de surpresa que de graça, uma comoção sincera, mas que traía, em todo mundo, uma grande ingenuidade. Pois então, entre tantos artistas, aquele menino vinha a público só para declarar que seu sonho era ser padeiro? Sim, por que não? Era aquela a sua parte no espetáculo. A sua fala. O que ele pôde nos oferecer, um sonho simples de panificação. De qualquer forma, diante do espanto simpático da audiência, o menino achou necessário justificar-se: “Cada um tem o seu sonho. O meu é ser padeiro”.

Aplaudimos. E lembrei, meio perplexo, de uma crônica de Rubem Braga, de 1956. O texto registrava a modéstia de um homem que o autor conheceu na juventude, e que entregava pães na porta de seu apartamento, todas as manhãs, numa época supostamente mais inocente que a nossa. Muito cedo, o rapaz tocava a campainha de Braga, na intenção de anunciar sua passagem, tomando o cuidado, porém, de tranquilizar seu cliente, gritando: “Não é ninguém, é o padeiro”.

Pois o menino que vi nesse espetáculo de rua, em 2018, ainda não é o padeiro. Apenas sonha em ser, e descobriu que verbalizar isso num microfone amplifica não somente a sua voz, mas o alcance de seu desejo. Tomara que o realize. Não, ele não me pareceu ser um cara romântico, e nem pragmático demais; só um menino que traz em si um talento oculto, a fé em suas próprias capacidades técnicas, ou quem sabe uma lembrança mais ou menos afetuosa da infância, a memória de um cheiro bom ou de uma pessoa de quem se sente saudade. Uma mãe, uma avó, um pai assando pães caseiros diante de uma criança, e a convocando a experimentá-los, a ajudar no preparo da massa, a untar uma fôrma, a selecionar os ingredientes. Impossível saber. Essa, como adiantei, será somente uma das histórias que podem ou não se insinuar neste texto.

E que, mesmo assim, me fez lembrar de outra, igualmente insondável. A de um sujeito com quem cruzei faz décadas, quando também eu era um menino. Foi na frente de um bar, onde eu bebia com amigos. Um mendigo me abordou ao me ver acendendo um cigarro. Fumamos juntos e, enquanto durou o fogo, ele me contou de sua vida. Tinha sido padeiro. Sentia falta do forno, do calor nos fundos da padaria, onde cumpria o turno da noite (conversávamos numa madrugada fria).

De tudo que me revelou, porém, guardei somente duas recomendações no mínimo extraordinárias. A primeira delas: um pão jamais deve ser cortado à faca, e sim partido com as mãos. Devemos evitar todo tipo de violência, me disse o mendigo, inclusive as simbólicas. E a segunda: se me acontecesse de, um dia, derrubar um sanduíche no chão, eu deveria beijá-lo antes de o morder novamente, de modo a me desculpar por aquele descuido.

Tratar o pão com amor e pedir perdão a ele se o machucarmos, foi isso que o ex-padeiro me orientou a fazer. Nunca o obedeci, confesso. Jamais beijei um pedaço de pão na vida, e admito que já os cortei à faca milhares de vezes, como quem decepa uma cabeça de galinha ou abre um peixe pela barriga. Mas até hoje, sempre que derrubo uma fatia de pão, algo dentro de mim, uma voz interna que me foge ao controle, sussurra mentalmente, não sei para quais ouvidos: perdão. E só depois disso sinto que já posso me abaixar.

 

Luís Henrique Pellanda é escritor e jornalista, autor dos livros “O macaco ornamental”, “Nós passaremos em branco”, “Asa de sereia” e “Detetive à deriva”. Siga no Instagram: @lhpellanda

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Artigo de: Luís Henrique Pellanda

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COMENTÁRIOS
  • Caro Sidney Rocha, ficamos muito felizes em saber que você está acompanhando as crônicas do Pellanda por aqui e agradecemos muito a sua contribuição. Você tem total razão. A partir de agora vamos retirar os negritos e olhos. E o sutien (por aqui chamamos gravata) será escrito pelo autor. Fique a vontade para nos mandar sugestões construtivas sempre que achar pertinente. Abraço.

  • texto vigoroso do Pellanda. Bom vê-lo em casa nova. Mas uma sugestão aos webdesigners e editores: que interfiram menos. Menos negritos: nenhuns. Menos olhos, nenhuns, e nenhum sutien. A crônica é para o livre olhar, para o leitor escolher onde pousar o olho. As "indicações" prejudicam a crônica. Deixem o texto fazer seu trabalho. Leitura quer dizer isso: escolha. que o leitor faça isso, por ele próprio. Grande abraço.

  • As crônicas do Pellanda são de uma delicadeza que parece nos arrancar um pedaço - como quando cortamos uma fatia de pão.

  • Luiz, que crônica mais linda e delicada!
    Como tudo seu - magnífico...

  • cara, que final! a ultima frase fez meu coracao sorrir. pellanda emociona sempre

  • Falar das crônicas do Pellanda é covardia. Não tem o que falar. É uma inspiração pra mim escrever algumas coisinhas, mas não mereço nem engraxar-lhe os sapatos.

  • Mais um texto sensacional!