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Rene Seifert, por André Bezerra

6 de julho de 2018

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Quando o pão é muito mais que um pão

Natural de Lajeado-RS, o professor Rene Seifert começou a se tornar mestre-padeiro ainda menino, olhando o pai preparar pães caseiros semanalmente, para a família. Naquela época, porém, não chegou a por a mão na massa. Anos se passariam até que ele realmente se interessasse pelo ofício. É que outro tema importante surgiu primeiro na vida e na rotina dele e da esposa, Vanessa: a sustentabilidade.

Casa da Videira

Casados e morando em Curitiba, Rene e Vanessa integraram a Casa da Videira junto com outras duas famílias de amigos. Eles mantinham uma espécie de propriedade – com 350 m² – onde criavam 2 cabras, algumas galinhas, porquinhos da índia e minhocas. Também cultivavam horta e pomar, adeptos das culturas em pequenos espaços. Os bichos eram alimentados com a produção gerada ali e os hortifrúti mantidos à base da compostagem. “Nós íamos às feiras e pequenos mercados arrecadando as sobras (…) quando vimos, estávamos gerando três toneladas de compostagem, além das culturas que também cresciam em escala”, calculou o Rene. Outra preocupação constante do grupo era com a geração de lixo. Há mais de dez anos eles já questionavam e se opunham ao consumo excessivo de sacolas plásticas, por exemplo, praticamente banindo seu uso entre os integrantes da Casa da Videira. Isso em 2005 e 2006, ano em que o casal Seifert se mudou para Birmingham, na Inglaterra, onde ele foi fazer doutorado em administração.

Um doutor na Inglaterra

Já no país europeu, a escassez de padarias chamou atenção do Rene e da Vanessa. “Os ingleses normalmente precisavam ir ao mercado para comprar pão (…). Havia a embalagem plástica do pão e, depois, a sacolinha plástica do mercado. Aquilo nos incomodava profundamente”, revelou o Rene. A solução foi fazer o próprio pão em casa. “Nós não tínhamos televisão, nunca tivemos o hábito de parar diante de uma tela, precisávamos ocupar o tempo livre com atividades (…) Lembrei do meu pai fazendo pães diariamente para a nossa família, usei a receita de um pacote de farinha e deu certo, foi um caso de amor à primeira vista”.

Nasce o mestre-padeiro

Dali em diante o Rene nunca mais parou de desenvolver técnicas e fazer pão. O trabalho dele é de artesão, nunca se propôs a produzir em larga escala, ele produz o “pão de casa”, o que é bem diferente do que produzir para o varejo. “O pão de fermentação lenta é um organismo vivo, cuidamos dele quase como cuidamos de um filho (…)  Meu fermento é a composição de várias histórias com a minha própria”, concluiu o Rene durante o bate-papo com a Tutano.

As relações vão muito além. Uma das primeiras lições que aprendemos com o mestre Rene é que o pão não deve ser partido com faca, mas com as mãos. A simples palavra pão é praticamente o radical da palavra compartilhar. A amizade é um aspecto central tanto no momento de produzir o pão quanto na hora de consumi-lo ou compartilhá-lo. Levando-se esses pensamentos em conta, somados à sobra da produção dos pães, o casal Seifert levava pães a todos os eventos sociais que compareciam na Inglaterra, geralmente entre outros mestrandos e doutorandos de lá e de outros países.

O pão de fermentação lenta é um organismo vivo, cuidamos dele quase como cuidamos de um filho

O retorno para o Brasil e a Colônia Witmarsum

Em 2010 voltaram para o Brasil, onde o Rene passou a lecionar primeiro para os alunos de administração da Universidade Positivo e, posteriormente, na UTFPR. Em 2014 o Rene comprou um forno Turbo para assar os pães e, com a ajuda de um aluno, encontrou e adquiriu uma boa amassadeira. A Casa da Videira teve que mudar para um espaço maior onde permaneceu por alguns meses e depois foi transferida para Palmeira-PR. O casal Seifert, então com dois filhos, seguiu para uma propriedade próxima dos amigos, mas na Colônia Witmarsum.

Economia da Dádiva

Em uma área de aproximadamente um hectare, o Rene estabeleceu sua padaria caseira. Autodidata e muito disciplinado “eu trabalho com o conceito de limite, como qualquer artesão. Estabeleço este limite na minha produção para poder estar com minha família e cuidar de todas as outras coisas na propriedade, preparar as aulas da universidade e ministrá-las” contou o Rene. Ele chegou a entregar os pães de fermentação natural em poucos pontos em Curitiba e Palmeira, como no Bon Vivant, Quintana, Nomade, Girassol e Bodebrown. Nesta última o Rene fez um curso de cerveja para obter a levedura e passou a trocar pães por cerveja. “Eu nunca consegui realmente precificar minha produção de pães, como colocar valor no tempo que você deixa de estar com os filhos, por exemplo?” questionou o Rene. “O preparo do pão envolve memória afetiva, é um ato de amor, a gente aprende a esperar, ter paciência, saber ouvir, apreciar e construir relações de amizade”, continuou. Então ele passou a dar o pão, dentro do conceito de “Economia da Dádiva: leve e retribua quando e como puder”.

Depois começou a trocar o pão por carne, leite, manteiga, iogurte, lenha, geleia, aula de música para os meninos, postes para fazer cerca, dois porcos Moura, galinhas e até os dois cavalos que a família Seifert usa para cavalgar, um dos passatempos que o casal mantem com os filhos Oliver (8) e Thomas (5). Aliás, duas horas semanais é o tempo que os meninos passam diante da televisão e ainda não têm tablets, pois há um universo de outras atividades e brincadeiras para realizarem.

Curso de pães e escola para a vida

Uma vez ao mês o Rene e a Vanessa recebem grupos para um dia de curso de pães na propriedade. O programa começa cedo, com um café da manhã com muito pão da casa. Depois as pessoas passam para o preparo da massa da pizza que será montada e servida de almoço e seguem tarde adentro, entre massas de pão, pizza e boa cerveja. Ao longo de todo o programa do dia, muita conversa sobre amizade, sustentabilidade, relações e as coisas importantes da vida são literalmente compartilhadas à beira de um fogão a lenha, um fogão Turbo e uma amassadeira.

Perguntado sobre o valor do curso, o Rene respondeu: “cada um contribui com o que pode, a ideia é ser inclusivo”.

rodape_andre

André Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra

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Artigo de: André Bezerra

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COMENTÁRIOS
  • Gosto de gente que tem e faz história. Parabéns !!!! Só faltou uma receita de pão para quem
    não tem acesso ao pão.