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Spaghetto, por André Bezerra

18 de janeiro de 2018

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O restaurante italiano onde gerações de amigos têm se encontrado há quase três décadas

Esta história começa na cozinha da família Buffara. Como normalmente acontece nas casas das famílias árabes e italianas, a parentada sempre se encontra em volta das mesas, diante do forno, fogão e em meio a louças, panelas, receitas, ingredientes e especiarias. Assim são temperadas as relações nessas famílias. Desde muito cedo.

Nas décadas de 50 e 60, as cozinhas da Dona Lélia Barusso Buffara e da Dona Linda Farah eram frequentadas pelo Antonio Carlos – o Tatalo, filho da Linda – e pelos primos dele – filhos da Lélia – os irmãos Nelson e João. A cozinheira Romilda também frequentava e era praticamente parte da família. Os primos Tatalo e Nelson tinham quase a mesma idade. Amigos inseparáveis, já na década de 70 abriram uma empresa de navegação. Alguns anos mais tarde, em 1982, foi a vez do caçula, João, substituir o irmão Nelson na sociedade e se juntar ao Tatalo na empreitada. Mais alguns anos e eles decidiriam abrir mão da empresa e trabalhar no segmento que estava no sangue deles: a gastronomia. Queriam abrir um restaurante e, junto com um terceiro sócio, o Luis Cuminezi, começaram a se preparar.

Nossas receitas são de família, os curitibanos apreciam o sabor caseiro no tempero, a propaganda boca-a-boca ajudou

Em meados de 1988 os três empreendedores convidaram a colunista de gastronomia da Gazeta do Povo, Cris Schaelenker, para assisti-los na criação de um cardápio italiano – “é uma cozinha leve, rica, saborosa, por isso resolvemos trabalhar com esse cardápio” – revelou Tatalo para a Tutano. Também entrou em cena a Romilda, fiel cozinheira da família Buffara. Ao longo de 6 meses, os jantares de segundas-feiras na residência dos Buffara se transformaram em um laboratório. Embora tivessem a consultoria da Cris, as receitas eram de família. Os amigos eram escalados semanalmente para provar os primeiros testes. Eles ainda não sabiam, mas toda segunda-feira provavam alguns dos pratos que fariam Curitiba se render ao longo das décadas seguintes.

Definido o cardápio que encanta os clientes do restaurante até hoje, era hora de encontrar um nome e um local. A dica para o batismo veio de uma amiga do Tatalo: Spaghetto. O endereço, a maioria conhece, uma bela casa tombada pelo patrimônio histórico numa esquina do centro de Curitiba, a Visconde do Rio Branco com a Carlos de Carvalho. “Hoje o ponto é nobre, mas no final dos anos 80 não havia todos os prédios comerciais, nenhum negócio chegou a ter vida longa ali” – recordou João Buffara. Ele e o Tatalo continuaram contando: “nós tivemos muito movimento desde a primeira semana e nunca mais parou”. Quando o restaurante tinha 17 anos, o Luis vendeu a parte dele para os dois primos, saindo da sociedade.

Observando-me intrigado com a receita de sucesso, eles seguiram dando pistas: “Nossas receitas são de família, os curitibanos apreciam o sabor caseiro no tempero, a propaganda boca-a-boca ajudou. A Romilda seguiu ensinando os cozinheiros que entraram no Spaghetto, garantimos que as receitas sigam originais, nossos garçons têm décadas de experiência. O Joãozinho, que se aposentou em outubro passado, esteve conosco desde o primeiro dia. O nosso gerente da noite, Aparecido, começou há quase 30 anos, quando era adolescente. Ele é filho da Maria Rita, que começou na cozinha, como auxiliar da Romilda”.

Enquanto eles falavam, o garçom Gelson (20 anos de casa) ia trazendo um banquete: aperitivo com pães frescos, manteiga e patê de berinjela com alho, um clássico do restaurante. “Este aperitivo é cortesia, não cobramos couvert” – disse Tatalo. Em seguida, raviolli com posta ao molho ferrugem. “Receita de família, a gente comia isso nos almoços em casa” – esclareceram os primos. Depois vieram a lasanha de espinafre com molho bolonhesa e, finalmente, o Filé Spaghetto: mignon grelhado no ponto do cliente, brócolis ao dente e massa verde caseira. Acompanha molho pesto da casa, que o próprio cliente coloca sobre a massa. “Todas as nossas massas são caseiras, assim como os molhos. A montagem do Filé Spaghetto foi sugestão de um cliente fiel, outro primo nosso, o Miguel. Mas a receita é da família”.

Passei o almoço ouvindo o João e o Tatalo contarem um pouco sobre esse templo da gastronomia italiana. Enquanto ouvia, comia e fotografava, eu pensava: não passa um dia sem que um dos dois esteja aqui. Eles recebem a clientela diariamente, com essa alegria e hospitalidade. À noite tem o Aparecido. Dia e noite tem esse time de garçons e cozinheiros que parecem uma verdadeira família – a cozinheira “Baixinha” veio da cozinha dar um oi para nós no salão. Atualmente tem o Bernardo Buffara, filho do João e neto da Dona Lélia, assumindo a administração da casa. Em breve virá a Eduarda, filha do Tatalo, neta da Dona Linda e prima do Bernardo, para assumir funções. Hoje os filhos e netos daquela primeira geração de amigos dos Buffara seguem frequentando o restaurante. Tem cliente que celebrou batizado e aniversário de casamento ali dentro, em volta daquelas mesas.

Dicas Tutano

No almoço, experimente as opções dos pratos executivos. Como são sempre bem servidos para duas pessoas, os preços são invariavelmente muito convidativos. Se resolver encarar sozinho, peça para levar a sobra para viagem. De sobremesa, prove os profiteroles e o pudim. As receitas, naturalmente, são de família.

Restaurante Spaghetto

Rua Visconde do Rio Branco, 1302 – Centro
(41) 3013-1294
Terça a sexta-feira, 11h30 às 14h; 19h às 23h
Sábados, 11h30 às 14h30; 19h às 23h
Domingos, das 11h30 às 15h e das 19h às 22h30.

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André Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra

Artigo de: André Bezerra

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COMENTÁRIOS
  • Que comentário bonito de ler!

  • Gente e comida boas tem que ser valorizadas!

  • Melhor profiteroles da cidade, sem sombra de dúvidas!

  • Adoro o restaurante. Comida da melhor qualidade, preço justo e sem frescura.

  • Excelente local André! Em outra oportunidade conversaremos mais sobre bons lugares. Isso se o turco nos convidar de novo pra mais um churrasco.
    Grande abraço!

  • Caro Andre.
    Parabéns pelo texto e principalmente por destacar a foto do Aparecido, pois o "conceito" Spaghetto é inseparável a Equipe de atendimento, o clássico cardápio, o João e o Tatalo.

  • Fico muito feliz pelo sucesso de vocês e tenho carinho especial por toda a equipe.
    Saber que faço parte do começo de um Restaurante de sucesso e respeito as receitas e tradições de famílias me deixam lisonjeada.
    Parabéns a todos e seus sucessores...
    Cris Schlenker.