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Velho Oriente, por André Bezerra

8 de junho de 2018

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Uma história de gerações em que a tradição encontra a vanguarda

A fachada do Restaurante Velho Oriente remete à arquitetura árabe, com grandes janelas de desenhos seculares. Ao entrar no grande salão, entre arabescos, aroma de especiarias e música típica, a primeira coisa que comentamos com a Vaneska Berçani foi “Uau, que lugar lindo, moderno”. Fomos ali para jantar comida árabe com a jovem restauranteur, dona do Velho Oriente e do Les Copines, serviço de catering para eventos e festas. Nossa missão era descobrir como tudo começou em um dos árabes mais tradicionais de Curitiba.

Oriente Árabe

A história começa em 1970, quando o libanês Jean Abdo se ausentou da mercearia que mantinha com um irmão no país de origem. Deu um até breve para a esposa, Salwa, e as duas filhas pequenas, Micheline e Marlene. Era para ter vindo a Curitiba para vender um terreno a um primo que morava aqui e, então, retornar. Acontece que esse primo tinha um restaurante no centro da cidade, o Oriente Árabe. Convidado para trabalhar no restaurante, senhor Abdo foi ficando e, ao invés dele voltar, dona Salwa acabou vindo de mudança com as meninas.

O restaurante já era frequentado por famílias endinheiradas a estudantes duros. Para estes últimos, o Seu Abdo mantinha o hábito de “escorregar” pratos mais bacanas do restaurante, sem cobrar nada. Como bom árabe, ele queria que os meninos se alimentassem bem na casa dele. Mal sabia que estava criando uma horda de fãs que carregariam a memória afetiva daqueles pratos ao longo da vida toda.

Os negócios iam bem. Mesmo assim outro primo comprou a parte do fundador. Com isso, o Faissal se tornou sócio do Seu Abdo no Oriente Árabe. Depois foi o Faissal Filho quem assumiu, ao lado de Abdo, numa sequência familiar que durou até 1999, quando um incêndio destruiu o restaurante. Com a parte dele na indenização do seguro, Faissal Filho foi abrir outro Oriente Árabe, dessa vez no Alto da XV.

O Seu Abdo, com quase 70 anos e já com mais um casal de filhos nascidos no Brasil – Toni e Juliani – foi dar uma descansada. O Toni mantinha, nessa época, uma banca de jornais no bairro Água Verde. Havia um cliente do Seu Abdo, o Claudio Berçani, que frequentava a banca. De papo com Toni, os dois ficavam de olho no belo imóvel do outro lado da avenida Água Verde. Eles concluíram que era hora do Seu Abdo voltar à ativa e começaram a pesquisar imóveis. Um dia, no ano 2000, não poderiam cumprir o compromisso de olharem uma casa na avenida Batel. Por isso o Toni mandou o pai dele ir se encontrar com a filha do Claudio. E foi assim que o septuagenário Seu Abdo primeiro se encontrou com a jovem estudante de direito, Vaneska Berçani, filha do amigo Claudio.

“Na época eu tinha vinte e poucos anos, não estava feliz na faculdade e, na cozinha, não sabia fritar um ovo”, contou-nos Vaneska.

Velho Oriente

As famílias Abdo e Berçani decidiram que, juntas, abririam um novo restaurante árabe. O endereço escolhido foi o belo imóvel da avenida Água Verde, do outro lado da rua da banca do Toni (que hoje tem mais de vinte lojas Toni Toys espalhadas pelo Paraná). O Claudio Berçani se encarregou da reforma física na casa, enquanto o Seu Abdo ficou responsável pela estrutura, enxoval e equipamentos. A Vaneska se envolvia aqui, ali e foi se ambientando desde a etapa da obra.

Em 2001, o novo restaurante foi inaugurado. A ideia para batizá-lo partiu de Seu Abdo: Velho Oriente, em referência a si mesmo, que era o “velho do Oriente Árabe”. Seu Abdo montou equipe e ficou entre a cozinha e o salão. Ela começou com atividades administrativo-financeiras. “Eu chegava no restaurante de manhã cedo e saía tarde da noite. Os dias e semanas eram longos e ficávamos praticamente internados ali”, contou Vaneska para a Tutano.

Aprendendo na Prática

A jovem começou a frequentar a cozinha e observar de perto enquanto Seu Abdo e cozinheiras experientes preparavam as tradicionais receitas árabes: quibe cru, quibe frito, esfihas, tabule, charutos de folhas de repolho e de uva, arroz com lentilhas, kafta, as pastas (homus, babaganush, coalhada), além dos doces árabes e as sobremesas caseiras. Curiosa e incansável, em 2006, ela estudou gastronomia e formou-se chef. “De manhã eu ia para o curso, voltava para atender o almoço no restaurante, à tarde voltava para as aulas e, à noite, atendia a janta no Velho Oriente”, recordou-se Vaneska.

Conflito de Gerações?

Nem tudo foram “flores de laranjeira”. Houve, naturalmente, os momentos de conflito de gerações. A Vaneska queria modernizar métodos e processos: “Uma vez tentei convencer o Seu Abdo sobre os infinitos benefícios do uso de um forno combinado. Ele simplesmente não acreditava, insistia que iria estragar o ponto dos alimentos, arruinar as receitas (…) Normalmente ele me dava abertura total. Eu ensinava às cozinheiras, por exemplo, novos processos, trazia novidades do curso. Muitas vezes ele acatava, me dava força. Outras, simplesmente observava em silêncio, me deixava ensinar. Quando eu saía da cozinha, ele ia lá e desfazia tudo. Nessas ocasiões, tinha que ser do jeito dele.” O respeito e cumplicidade entre a jovem descendente de italianos e o velho árabe seguiu inabalável.

O legado do Seu Abdo e a família Velho Oriente

Há menos de três anos, Seu Abdo faleceu, deixando uma jovem sócia, restauranteur experiente, e um time afinado dentro de um dos grandes restaurantes árabes de Curitiba. Os ensinamentos seguem presentes no dia a dia da Casa. Foi a Vaneska quem nos contou:

“O ambiente aqui dentro é familiar, nosso ritmo é diferente de outras cozinhas. Nossas cozinheiras me viram namorar (a Vaneska é casada com o Rene e tem dois filhos, de 5 e de 7 anos). Elas me viram casar, ficar grávida, assistiram o Miguel e o Vicente crescerem. O Seu Abdo sempre preparou as sobremesas pessoalmente, diante de todos nós, na cozinha. Ao preparar namura – espécie de bolo árabe de tabuleiro – ele cuidava da massa como se fosse uma filha. Tirava do forno e batia o tabuleiro sobre o balcão para assentar. Até hoje, quando bato com a travessa de namura sobre o balcão, as cozinheiras dizem: lá vem o Seu Abdo, lá vem o Seu Abdo!”.

Dicas Tutano:

A tradicional sobremesa Ataif é servida apenas aos domingos. Vale a pena provar;

O restaurante tem um amplo estacionamento sem custo, uma pequena loja de produtos árabes e, para as crianças, espaço kids;

Há 4 sabores de cerveja libanesa em garrafas long neck e uma carta enxuta de vinhos. Se você quiser levar o seu próprio, a Casa nunca cobra rolha.

Restaurante Velho Oriente

Avenida Água Verde, 1551, água Verde
(41) 3343-2007
Segunda-feira, 18h às 23h30, somente delivery
Terça a sexta-feira, 11h30 às 15h, somente delivery
Terça-feira a sábado, 18h às 23h30, rodízio, a la carte e delivery
Sábado e domingo, 11h30 às 16h, rodízio, a la carte e delivery

Delivery pelos aplicativos ou diretamente no 3343-2007 (pode retirar no balcão).

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André Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra

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Artigo de: André Bezerra

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