Conheça as abelhas nativas sem ferrão

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Foto: Bruna Junskowski

Todo mundo tem uma história de terror que envolve abelhas, desde as mais bizarras que parecem roteiro do filme Premonição até as mais comuns. Independente do seu caso de ódio com esses insetos, pedimos que você abra seu coração e entenda que, nesta matéria, as protagonistas são abelhas boazinhas e que não possuem ferrão: as abelhas nativas. Ao contrário das abelhas que te picam na praia enquanto você tá tomando picolé, as nativas não são capazes de te machucar.

Como todo mundo sabe, as abelhas são as responsáveis pela polinização. Se você foi um bom aluno e gostava das aulas de biologia da escola, vai lembrar que esse processo consiste na transferência do pólen da parte masculina da planta para a feminina. É o ciclo de reprodução das plantas, que forma frutos, flores, sementes, tudo o que você come no almoço.

Porém, Black Mirror tava certo no episódio em que todas as abelhas do mundo acabam e são substituídas por robôs que espionam a sociedade (talvez essa segunda parte seja exagerada, mas o plot é D+). Por conta do desmatamento e da crescente utilização de agrotóxicos, as abelhas nativas estão morrendo, e esse trabalho de polinização tão importante para a preservação da vida ambiental está morrendo junto. Diversas espécies nativas estão em risco de extinção por conta da exploração das florestas.

“Tá, mas qual a pira dessa abelha?”. As abelhas nativas, como o próprio nome diz, são as que vivem em nossos biomas. Elas não possuem ferrão e ao contrário das outras que perseguem seu sorvete na praia, elas são mais discretas, fazem mel em cumbacas e não em favos e produzem um mel mais cítrico. Cada região do país possui espécies que mais se adaptaram aos fatores naturais daquele ambiente e estima-se que existam mais de 300 espécies de abelhas nativas. E você aí achando que sabia tudo sobre elas só porque já foi picado uma vez ou tomou chá com mel para curar o resfriado.

Um mundo com harmonia precisa das abelhas

No Paraná, existem cerca de 50 espécies nativas que estão sendo resgatadas e protegidas para que possam se reproduzir para perpetuar a espécie e também auxiliar na propagação de diversas espécies de plantas.

“Hoje a consciência ecológica tá avançando, mas tem muito o que fazer. Porque as pessoas têm dificuldade em entender a importância do serviço ambiental, ecossistêmico das abelhas, que elas não são apenas o mel e os derivados. É preciso fazer um trabalho forte de educação ambiental”, explica o Felipe Thiago de Jesus, idealizador do projeto Jardins de Mel, da Prefeitura de Curitiba, e especialista na área.

E quando o Thiago fala sobre ABELHAS, ele tá incluindo as que você morre de medo. Embora elas tenham sido introduzidas no Brasil durante o Império Português, em que os colonizadores as trouxeram para ter uma garantia de renda, caso tudo desse errado, a relevância delas para o ecossistema é enorme. Então, nada de matar quando ver uma!

“Em 1950, para aumentar a produtividade de mel, trouxeram para o Brasil a abelha africana, que encontrou terreno fértil, se disseminou e cruzou com a européia, formando a abelha híbrida ou africanizada. Durante todo esse tempo as abelhas nativas foram esquecidas ou preteridas, porque as africanizadas produzem mais mel por terem uma população maior numa colméia, de 50 a 80 mil indivíduos, enquanto que a Mandaçaia — uma espécie de abelha nativa — possui 300 no auge da produção”, explica o rei supremo das abelhas nativas, Benedito Uczai.

Abelhas em Mandirituba

Quando o seu Benedito era pequeno, longe dos recursos médicos, a mãe o tratava com mel de abelhas nativas para resfriado, gripe e até mesmo bronquite. Um conhecimento que foi passado para o filho, que cultivou uma paixão grande pela causa. Em 2005, ele fez um curso sobre meliponicultores na cidade e em 2011, junto com outros simpatizantes, fundou a Associação dos Meliponicultores de Mandirituba, a Amamel.

“A partir do curso tive esse estalo, de que havia muitas espécies de abelhas nativas e que era preciso se preocupar em como salvar as abelhas da extinção e como oferecer recurso pra humanidade e para as florestas por meio delas”, explica o Benedito.

Além da troca de experiências sobre as espécies de abelhas nativas da Mata Atlântica, ele e o pessoal da Amamel se aprofundaram sobre o manejo de espécies endêmicas do bioma. O objetivo era difundir informação sobre essa riqueza natural e fazer com que as pessoas se tornassem guardiãs das abelhas, deixando o medo de lado. Hoje o seu Benedito e a sua esposa, a dona Salete, possuem 5 espécies diferentes de abelhas nativas: a Mandaçaia, a Manduri, a Guarapo, a Jataí e a Tubuna.

Cada uma delas têm uma particularidade. Como elas não têm ferrão, precisaram desenvolver formas alternativas para se defender. “Umas se defendem fazendo entradas bem pequenas, outras mordiscam o cabelo, outras fazem barulho forte pra assustar, armazenam propólis altamente grudante, em que se entra um inimigo elas o enrolam, jogam a própolis e ele fica lá, não consegue se locomover até morrer de fome”, comenta Benedito.

Mas nem todas são tão fofinhas e mansas, há abelhas que até soltam um líquido capaz de queimar a pele, como a Tataíra, também conhecida como pinga-fogo (ou caga-fogo, que é um nome muito mais sonoro). Mas o principal método de proteção delas é a discrição.

“Quando você manipula a colmeia das Guarapo, as abelhas se escondem, são bem desconfiadas. Também é uma das únicas espécies a ter mais de uma rainha”, explica o Benedito.

As abelhas Mandaçaias fazem uma colmeia com impressão digital. Não, nada tem a ver com ficção científica. Elas identificam suas colmeias por meio das entradas, que são diferentes para cada grupo, como os nossos dedos. Já a Guarapo, recebe esse nome por ter cores que imitam ao do Lobo Guará. Ela é considerada como uma das abelhas mais discretas e mansas. A Tubuna leva esse nome por conta das entradas que faz nas colmeias, em formato de um tubo bem pequeno, em que faz um voo certeiro para dentro.

“A maioria das pessoas carregam pelas abelhas apenas dor, e é o contrário. Temos que ter um respeito muito grande porque elas são as nossas intermediárias, são mensageiras do bem por só oferecerem pra humanidade itens positivos, só benefícios. Quanto mais existir florestas, mais existirão abelhas e vice-e-versa. Se for só pinus ou eucalipto, monoculturas, elas morrem, porque a diversidade de matéria prima é fundamental para as abelhas. Um mundo com harmonia precisa das abelhas”, diz o Benedito.

Para conscientizar a população sobre as abelhas, o Benedito comercializa o mel produzido pelas abelhas nativas que possui e também faz visitas guiadas para turistas terem a oportunidade de ver a produção das abelhas. No fim de 2018, fizemos uma Press Trip com a chef Manu Buffara, em que visitamos a dona Salete e o seu Benedito e conhecemos de perto o trabalho deles. É um lugar para ir com calma, disposto a aprender e a ter consciência de como os nossos atos influenciam no ecossistema. A gente recomenda! (No fim da matéria tem o contato para agendar a visita!)

Jardins de Mel

O Jardins de Mel surgiu de uma necessidade de resgatar uma cultura que estava se perdendo. Em 2006, quando o Felipe Thiago de Jesus fez seu primeiro curso de meliponicultura, o professor se emocionou contando a importância das abelhas nativas para o mundo, e isso o comoveu. Pensou: “Preciso fazer algo pra ajudar”. A partir disso foi participando de associações com diversos produtores, inclusive a Amamel. “Eu era o único jovem nas reuniões, ninguém mais se interessava pelas abelhas e os produtores ficavam felizes em me ver lá, querendo aprender, levando aquele conhecimento para fora daquele núcleo”, relembra o Thiago.

Depois de dar várias palestras sobre as abelhas sem ferrão em países como Malásia, Colômbia, Indonésia e Tailândia, o Thiago recebeu uma ligação da Prefeitura pedindo para que ele desenvolvesse um projeto relacionado ao seu tema de pesquisa. Foi assim que nasceu o projeto Jardins de Mel, em que colmeias de abelhas nativas são instaladas em parques e praças de Curitiba como forma de conscientização e também de resgate.

“Essas abelhas são um tesouro e o melhor de tudo é que é brasileiro! Temos que valorizar e colocar Curitiba como referência mundial nesse sentido, de mostrar a importância e a nossa biodiversidade” se empolga o Felipe, um dos caras com maior sensibilidade ambiental que já conhecemos.

Já foram 14 Jardins instalados e o primeiro deles foi o do Parque Barigui, lançado na primavera de 2017. A previsão do Felipe é de que esse ano sejam instalados mais 15 em parques e praças, além das escolas. “Nas escolas? Como assim?”. É que o projeto também faz visitas guiadas com estudantes da rede pública e privada para conhecerem a causa das abelhas nativas.

“Nós damos o mel para as crianças experimentarem, elas fazem um grito de guerra, recebem o super poder mel e viram protetoras da natureza. Também repetimos dez vezes, abelha, polinização, fruta, até que todos eles entendam que sem abelha não tem fruto, que sem fruto não tem animal. Fazemos visitas com crianças a partir de três anos”.

Além disso, as escolas também podem ter uma própria colmeia de abelhas nativas para que possam fazer um trabalho multidisciplinar com conceitos matemáticos relacionados às abelhas, geografia, história. Para a implementação, o Felipe vai até a escola e cria uma isca para encontrar abelhas sem ferrão. Depois ele retorna para fazer a transferência da isca para a caixinha que vai se tornar uma colmeia.

“É uma forma da escola conquistar o seu Jardim de Mel. A gente nunca chegou numa escola e só colocou lá. É um trabalho de base com os professores, que fazem cursos pra isso. Usamos essa metodologia para ter um resultado expressivo, não queremos levar abelhas e elas serem abandonadas. O nosso primeiro critério de seleção é o bem estar das abelhas, a possibilidade de conservação” acrescenta o Felipe.
Seu Benedito – Mandirituba
(41) 99966-5759

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3 COMENTÁRIOS

  1. Excelente reportagem, indispensável assunto. As abelhas são muito importantes e nem percebemos o quanto. Aqui no nosso condomínio, mantemos duas colmeias de mandaçaia. As crianças adoram participar do manejo das abelhas e muita gente que tinha medo agora ajuda a cuidar. Na área que tem nosso condomínio, antigamente tinha um pequeno bosque, que foi destruído para construir os prédios. Então, mantendo as abelhas, me sinto compensando um pouco o estrago que foi feito para que nós morássemos aqui

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