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Contratar não é fácil

9 de maio de 2016

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Mas isso não significa que a mão de obra é uma merda

Estou contratando. Recebo, em média, cinco candidatos por dia. Eu faço a segunda etapa da entrevista. A primeira quem faz é o RH, que explica cargos, horários e salários, enquanto o candidato fala sobre seu histórico profissional e seus sonhos para os próximos anos. Caso exista química nessa primeira conversa, o candidato vem pra mim. Certamente, já entrevistei mais de 500 candidatos durante minha vida de restaurantes. Hoje sou prático, direto e não caio em tantas ciladas quanto antigamente. Já sei, por exemplo, que dificilmente um cozinheiro de hotel vai tocar as panelas de uma cantina italiana, onde o ritmo de movimento é de cinco a dez vezes maior do que o cara tá acostumado. Já tentei isso outras vezes e o cidadão desaparece logo na primeira semana. Outro que me deixa com um pé atrás é o candidato a gerente que traz no texto do currículo: “Fui responsável pelo crescimento de 50% nas vendas na última empresa em que trabalhei”. Esse tem cheiro de vigarista. Eu, aliás, tenho aversão a currículo. Se o espírito bate, peço pro cara começar no mesmo dia. É ali, no meio da confusão, que vou saber o tamanho do currículo de cada um.

Contratar não é fácil. Por mais que se tome todo o cuidado possível pra não errar, a gente ainda comete erros. Durante muitos anos deixei de ver uma luz no fim do túnel e adotei o mesmo discurso do empresário comum: “A mão de obra é uma merda!”. Depositar a culpa na mão de obra é um conforto para os nossos fracassos. Dez a cada dez donos de empresa reclamam da mesma coisa, desde sempre, o tempo todo, esperando uma solução cair do céu. Claro que seria ideal contratar gente experiente, formada e culta. Mas como, se nem os empresários são experientes, formados e cultos?

Claro que seria ideal contratar gente experiente, formada e culta. Mas como, se nem os empresários são experientes, formados e cultos?

Passei a ter vergonha de mim mesmo ao reclamar e não agir. Notei que eu era parte do problema. Parei de apontar o dedo pra eles e passei a apontar pra mim. A mão de obra que contratamos é nosso reflexo: quanto mais profissional você for, mais profissional será o funcionário que você contrata. Quanto mais você se dedicar a essa pessoa, mais ela vai se dedicar a você. É uma troca. E não é uma troca falsa, é uma troca justa, legítima.

Ao me colocar como parte do problema, aprendi que se eu tivesse respeito aos valores, aos sonhos, às limitações e ao brilhantismo das pessoas que trabalham comigo, eu poderia transformar meu restaurante num lugar melhor, mais leve e harmonioso. A habilidade de reter e contratar pessoas não está ligada apenas ao salário, mas principalmente a valores imensuráveis da vida de cada um. Eu sei que esse é um discurso lindo na teoria e que na prática não é bem assim. Eu mesmo, quando comecei a fazer isso, tinha medo de seguir um caminho utópico, onde meus restaurantes se transformariam em casas beneficentes. Era um discurso distante do empresário padrão. Meu desafio seria encontrar o equilíbrio.

O tempo passou e hoje vejo resultados. Não falo de resultados econômicos, o que é fundamental pra continuidade e crescimento dos nossos negócios. Mas, acima de tudo, vejo que criei um ambiente em que gosto de estar, ao lado de pessoas que respeito e admiro, onde eu passo a maior parte das horas do meu dia. Fiz do meu trabalho uma casa feliz.

Texto publicado na Revista Tutano em novembro de 2013.
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