Crônica dos Natais passados

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Foto: equipe Tutano

Uma quinzena antes do Natal, as crianças percorriam a mata em busca do pinheirinho perfeito. Um tio solteiro as escoltava. Em geral, escolhiam uma araucária jovem, ainda muito verde, da altura de um cristão adulto. Replantada num latão de tinta, a árvore era levada para a casa da família, onde enfeitaria, até a morte precoce, um cantinho de sala. A seus pés, incompleto, o presépio se espraiava. Era um conjunto de estatuetas mínimas, trazidas da cidade ao campo por uma parente de posses. São José, a Virgem Maria, o Menino Jesus, meia dúzia de ovelhas, um par de reis magos. Todos cercados por grossos tufos de musgo, dando à cena uma atmosfera subtropical, úmida e fresca, em oposição à presença fria da araucária, cujos galhos ganhavam barbas-de-velho e até alguma neve, feita de algodão desfiado.

Isso na casa da mãe. Na do pai, mais austera, não se montava presépio nem se adornava pinheiro. Não se tinha tempo nem disposição para as atividades lúdicas, e a comida acabava ocupando o centro das expectativas infantis. Não havia ceia, é claro, só almoço, mas isso em ambas as casas. É certo que um banquete noturno, naquele mundo rural, arcaico e escuro, seria um luxo inconcebível, e até irrealizável. Mas havia outros motivos. A Missa do Galo, por exemplo. Celebrado à meia-noite, o ritual exigia, além do jejum aos que comungariam, um sacrifício coletivo de contenção. Afinal, não se rezava de barriga cheia, nem se podia arrotar na igreja. Jamais se ouviu falar de um santo empanturrado.

A comilança, assim, ficava para o dia 25. Tanto na mãe, quanto no pai. Só não se tratava exatamente de um feriado. Não havia descanso possível. As crianças, os adolescentes — eram tantos — acordavam já às quatro da manhã, às vezes antes, como de praxe. Os animais não tiravam folga, e era urgente alimentá-los. Recolher os ovos, ordenhar a vaca, ferver o leite. O leitão já fora morto e carneado na véspera e esperava somente a hora de sepultar-se no forno de pedra. As galinhas não. Ainda cacarejantes, ignoravam que viviam sua última alvorada. Logo mais, uma iria para o forno, fazer companhia ao porco, recheada com os próprios miúdos misturados a uma farofa de milho. A outra terminaria na panela, onde em breve se veria transfigurada em brodo e risoto. O radite e a alface eram para a salada; os tomates e as cebolas, para os molhos. E apenas de vez em quando, numa época sem geladeiras, é que se arriscava uma maionese.

O que se bebia no Natal? Capilé. E também cerveja caseira, indispensável. Inclusive para as crianças. O vinho era bebida de gente grande. Mas isso na casa da mãe. Na do pai, tão disciplinada, alguns excessos eram tolerados. O avô italiano cultivava o hábito de despedaçar o pão dormido num tacho, ensopá-lo de vinho tinto e então chamar os netos. A ninhada acorria, eufórica, as colheres em punho. Comia-se a papa em grupo, numa rara concessão familiar às subversões da alegria tribal. Mais que uma refeição, aquilo era um desaforo, um tributo feliz à selvageria. Decerto dormiriam bem.

Mas o que realmente importava eram os doces. A sobremesa. Na casa do pai, reinava a caçarola italiana, com muito coco. Na casa da mãe, as compotas de pera e pêssego. Além das iguarias de sempre: o cuque de farofa e o bolo de fubá, cuja assadeira se depositava sobre a chapa quente do fogão a lenha. As crianças não ganhavam presentes, não era o costume. Isoladas, nem sequer conheciam o Papai Noel. No máximo lhes davam balas, ou então uma maria-mole. Sem falar do Toddy, deslumbramento introduzido no Brasil no início da Era Vargas. Para bebê-lo, os pequenos faziam fila junto à vaca leiteira, cada qual com sua canequinha de esmalte a tiracolo.

O sentimento religioso é que talvez não se distinguisse tanto do de outros dias, santos ou não. As preces e os medos eram os mesmos, o pai-nosso e a morte, a ave-maria e a doença, o diabo, o inferno, as visagens. Preces e pavores ordinários. A comida é que variava, em fartura e qualidade. Como nas festas de ano-novo. Estas sim empolgavam a criançada. Reuniam-se os irmãos, os primos, os amigos e saíam por aí, autorizados a bater de porta em porta, pedindo um reforço financeiro aos vizinhos, as boas entradas. Cada moeda ganha era um prenúncio da liberdade que o mundo adulto prometia entregar aos meninos (às meninas, não).

Fora isso, era a rotina e o trabalho, e o ano que mais uma vez avançaria sobre eles. O presépio, como hoje, só podia ser desmontado em janeiro, após o Dia de Reis. As imagens de santos e os animais de pedra, então, retornavam intactos ao baú dos ornamentos finos, uma arca de orgulhos materiais, de onde só voltariam a sair em dezembro. A araucária perdia seus atavios e seu verde, mas tinha ainda a permissão para permanecer no seu cantinho de sala, nua, acobreada e raquítica, por mais algumas semanas, até secar e ser desovada na mesma mata em que nasceu, e onde voltaria a viver, agora para sempre, como fantasma.


Luís Henrique Pellanda é escritor e jornalista, autor dos livros “O macaco ornamental”, “Nós passaremos em branco”, “Asa de sereia” e “Detetive à deriva”. Siga no Instagram: @lhpellanda

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