Diário de bordo da 1ª Expedição Tutano, em Palmeira

Veja como foi a 1º Expedição Tutano e fique ligado que logo tem mais

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O dia estava nublado, um pouco frio até, quando nos encontramos perto do portal do Parque Barigui para subir no ônibus rumo à 1ª Expedição Tutano. Destino? Palmeira. O pessoal foi chegando meio desconfiado, alguns até arrependidos daquele impulso de comprar ingresso (comida boa provoca esses ímpetos de loucura) para um passeio em pleno sábado, quase madrugada. Ok, dizer que 8h da manhã é quase madrugada talvez seja exagero. Mas era sábado, né? O grupo foi chegando aos poucos, 20 pessoas no total, incluindo a equipe Tutano, fotógrafo e videomaker.

A partida atrasou uns 15 minutos, coisa de brasileiro. Nos 80km que separam Curitiba de Palmeira, o povo, meio sonolento, foi quietinho, curtindo a paisagem. Antes das 9h30 já estávamos na casa que o professor Rene Seifert divide com a Vanessa e os dois filhos do casal: Thomas e Oliver. Fomos recepcionados pela família Seifert e pela Rosane Radecki, chef do restaurante Girassol, e nossa anfitriã nessa aventura. Com uma mesa farta de pães (os melhores que já comemos), geleias, melado, nata, café e um tacho respeitável de fortaia (receita italiana a base de ovos, linguiça, tomate e cebola, feita pela Rosane) começamos o dia.

Rene contou um pouco da sua história (que você pode ler aqui), sobre o Pão da Casa e explicou como funciona o processo de fermentação natural dos pães. Foi uma aula básica, acompanhada de degustação e ensinamentos valiosos sobre a amizade e o conceito de Economia da Dádiva (Wikipédia: forma de organização social na qual os membros fazem doações de bens e serviços valiosos, uns aos outros, sem que haja, formal ou explicitamente, expectativa de reciprocidade imediata ou futura, como no escambo…).

Enquanto alguns não conseguiam sair de perto da mesa, outros foram passear pelo sítio, conhecer a pequena criação de porcos Moura, aproveitar o solzinho da manhã. Começamos muito bem aquela expedição, fazendo amizades em torno do pão, como nos ensinou o Rene assim que colocamos o pé na terra de Palmeira. “O pão me trouxe muitos amigos”. Captamos a mensagem, professor!

Mesmo querendo ficar na casa dos Seifert para sempre, sabíamos que ainda haveria muitas surpresas pela frente. Uma das promessas da Expedição era a de que todo mundo poderia tomar cerveja antes do meio-dia. E assim foi. Desembarcamos na Cervejaria Usinamalte, onde fomos recepcionados pelo Ferdinando e pelo Aldecir, dois caras que entendem tudo de cerveja artesanal. Eles contaram a história da cervejaria, a primeira da colônia Witmarsum (uma das 12 colônias que compõe Palmeira, explicou a Rosane), falaram sobre a cerveja especial criada para comemorar o bicentenário da cidade, deram uma aula básica sobre o processo de fabricação e nos levaram para experimentar algumas das melhores produzidas por ali. O povo que tinha chegado com sono no ponto de encontro já estava quase atingindo o grau máximo de felicidade. Não havia mais dúvidas: aquele passeio tinha sido uma grande pedida. Àquela altura, todos já estavam agradecendo os amigos que avisaram, convidaram (e insistiram) ou as nossas redes sociais, que anunciaram a viagem (esgotada em 5 dias, diga-se!).

Então chegou o momento tão esperado: experimentar o cultuado pão no bafo, da nossa musa-anfitriã Rosane Radecki, no Restaurante Girassol. Trazida pelos imigrantes russos-alemães há 140 anos, a receita foi resgatada pela chef, tombada e transformada em Patrimônio Imaterial de Palmeira. É o prato típico oficial da cidade e um dos motivos que nos levou a criar essa Expedição. Feito com carne de porco refogada na cerveja com repolho e servida com um pão que cozinha no vapor, o prato faz jus à fama. Mas, apesar de ser a estrela do cardápio, ele não reina sozinho no menu da Rosane. O restaurante serve muita coisa boa, como a carne na chapa com polenta brustolada, um sonho em forma de comida.

O Girassol faz parte da Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança e o prato desse ano é o Porco na Lata, uma homenagem aos Porcadeiros (tropeiros de porcos) que transitavam pela região. Porcadeiros é também o nome escolhido para batizar a trupe da Rosane — cozinheiros, padeiros, cervejeiros e amigos — um bando de gente que se reuniu com a missão de espalhar as origens e sabores da cidade, sempre com a carne de porco como ingrediente principal. Um pessoal animado, cheio de boas ideias, que valoriza as nossas raízes e mantêm a história viva através da culinária. Coisa mais linda!

E, como a gente não quer só comida (não???), fizemos nossa penúltima parada em um lugar mágico, o Sítio Minguinho. Criado e mantido pelo professor Arnoldo Monteiro Bach, esse espaço cultural é um museu a céu aberto que proporciona aos visitantes (só tem visita guiada e agendada pra grupos, tá?) uma viagem no tempo, passando pelos ciclos econômicos da colonização do município. O professor reproduziu vários comércios e serviços: uma sala de aula, uma bodega, uma barbearia, uma selaria e uma ferraria que mostram como eram os ofícios da época. Há um acervo riquíssimo de móveis, objetos, documentos e fotografias antigas, além de um barbaquá (usado para fazer erva-mate), uma tafona (não confunda com cafona, é um moedor de grãos), uma roda d’água e monjolos (não sabe? Vai pesquisar).

Mas a cereja do bolo, minha gente, é a sala dedicada aos estudos sobre a Colônia Cecília. Se você ainda não sabe o que aconteceu na região de Palmeira na última década dos anos 1800, se prepare. Foi aqui, no Paraná, que existiu a primeira experiência anarquista de que se tem registro no mundo. Fundada pelo italiano Giovani Rossi, a colônia existiu entre os anos de 1890 a 1894. Quer saber pouco mais sobre esse capítulo mucho loco da nossa história? Leia o livro (ou assiste a minissérie) Anarquistas Graças a Deus, da Zélia Gattai. Os avós da escritora deixaram a Itália e vieram para o Brasil em busca do sonho anarquista. Desembarcaram aonde? Em Palmeira. A família Cini, muito antes de criar os melhores refrigerantes do mundo, também anarquizou por lá! Agora, se você se interessou mesmo e quiser saber MUITO sobre essa história, compra o livro do professor Arnoldo (ele mesmo, o dono do Sítio). São mais de 1.000 páginas, uma verdadeira bíblia no anarquismo (perdoe-me pelo analogismo seu Rossi, sabemos que bíblia não era a tua praia). A sala dedicada à Colônia Cecília no Sítio Minguinho mexeu com o coração da nossa excursão: vimos fotos das famílias que moraram lá, relatos escritos do fundador, uma maquete da comunidade e aprendemos um pouquinho sobre fundamentos do Anarquismo. O que não faltou foi gente querendo voltar no tempo…

Já no caminho de volta para casa, inebriados de comida, bebida e história,  fizemos uma rápida parada no Girassol novamente, dessa vez para encher a mochila de lembranças (comestíveis) do passeio. A lojinha do restaurante é uma loucura: vende queijos, pães, mel, geleias, bolos, vinhos, artesanato, livros e até o pão no bafo! Ele próprio, congelado e pronto para ser feito na sua casa.

No final teve despedida com (quase) lágrimas, lembrancinhas (queijo porongo e Picalilli – picles com curry, bom demais) e a promessa de fazer muitas viagens lindas como essa. Fica aqui nosso agradecimento para a turma que topou a parada, aos que nos receberam com tanto carinho e, em especial, à Rosane, que foi nossa (estrela) guia nessa aventura. Ah, e tem o Beto. Sem ele nada disso teria acontecido.

Fala a verdade, você acabou de ler esse texto se remoendo de arrependimento de não ter ido junto na 1ª Expedição Tutano, né? Não se preocupe, já estamos loucos para organizar a próxima. Fique de olho no nosso Instagram e Facebook, em breve anunciaremos novas aventuras!

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