ENTRAR Bem-vindo! Faça login para ter
uma experiência completa.

Empreender Machuca

29 de dezembro de 2016

(29)
Morri e matei em 2016

Meu coração bate tímido, meio desajeitado. Meus olhos, sem foco e sem brilho, boiam apáticos no horizonte. Apesar das previsões, ninguém conseguiu evitar. O furacão veio varrendo e, quando a poeira baixou, o cenário era outro. Pessoas sem rumo batiam de porta em porta à procura de uma mão estendida. Tudo em vão. Eu mesmo me sinto um pouco responsável pela tragédia. Logo no começo do ano, foram dez. Dez demissões, dez sonhos, dez famílias para sustentar. Eu não tinha outra saída, era questão de sobrevivência. Meu restaurante era mais um que agonizava o desastre econômico do país. O movimento estava fraco e, pra não fechar de vez, sacrifiquei a equipe do almoço.

Ninguém contrata pensando em demitir. Eu, pelo menos, não. Demissões são pequenas mortes que estancam sonhos de quem fica e de quem vai. Morri e matei em 2016. Praticamente uma carnificina até encontrar o caminho certo. Algumas demissões são mais fáceis; outras são verdadeiras torturas. Mas, como eu disse, demitir nunca é bom. Bom é contratar. Contratar é sonhar. Contratei muito em 2016. Fiz planos, arrisquei. Voltei a abrir para almoço. Fecho o ano com mais contratações do que demissões. Ufa.

Demissões são pequenas mortes que estancam sonhos de quem fica e de quem vai. Morri e matei em 2016.

Mas saldo positivo não corrige equívocos.

A última demissão ficou marcada em mim. Um risco na alma. Sem me dar conta que faltavam poucos dias para o Natal, demiti um cara. “Sou do interior, vim tentar a vida aqui. Estou sozinho e longe da minha família, não posso ficar na mão bem agora”, disse ele, com o queixo trêmulo, sentando na minha frente.  “Olha, eu não posso voltar atrás, tem mais coisas envolvidas aqui”, falei. Se existem momentos certos e errados pra demitir alguém, aquele era o momento errado. De imediato, liguei para um amigo, dono de restaurante. “Velho, fiz uma cagada aqui. Demiti um cara na véspera do Natal. Você não arruma uma vaga pelo menos até o final do ano?”. “Manda ele me ligar”, ele falou.

Sentado sozinho num canto da sala, faço um retrospecto dos últimos 12 meses. Tento reencarnar aquele cara cheio de vida que, dois anos atrás, inspirava pessoas. Impossível, ainda estou enfermo. Dois mil e dezesseis foi o tombo da vida. Tombos fazem refletir. “Opa, empreender machuca”. Calejado, eu sigo. Daqui a um tempo, quando as feridas estiverem curadas, quero olhar para trás e dizer: “dois mil e dezesseis foi um ano do caralho!”

Leia mais:

Um filho de dono de restaurante
Precisa de muito dinheiro pra abrir um restaurante?

COMPARTILHE ESTA MATÉRIA
AVALIAÇÕES
(29)
  • Excelente
    17
  • Muito bom
    1
  • Normal
    2
  • Ruim
    2
  • Horrível
    7
DÊ SUA NOTA: