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Entrevista de emprego

7 de abril de 2016

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O que gera raiva é a cara de pau, a arrogância e o desprezo com que essas pessoas lidam com suas profissões.

Ontem, quinta-feira, às 4 horas da tarde, saí do meu escritório e fui dar uma volta pelo salão e cozinha do Restaurante Famiglia Fadanelli. Faz parte da minha rotina. Esse horário é estratégico para acompanhar a chegada das equipes e o início do preparo de suas praças. Num dos cantos do salão, vi que a Sonia, nossa chef de cozinha, conversava frente a frente com uma moça loira, de aproximadamente 30 anos, em uma das mesas. Aproximei-me sabendo que aquela era mais uma das dezenas de entrevistas de emprego que ela realizava nos últimos 10 dias. Cumprimentei as duas, certifiquei-me de que eu estava certo e puxei conversa:

– “Pelo jeito é entrevista de emprego, certo? Vaga pra cozinha?”. As duas sinalizaram que sim. Eu prossegui, dirigindo-me à entrevistada: – “Você acredita que a Sonia faz entrevistas de 50 minutos, uma hora, às vezes duas horas de duração, dedica uma tarde inteira de trabalho a um candidato, acertando todos os detalhes e, depois de estarem de acordo e marcarem horário e dia para começar, a pessoa simplesmente não aparece? Dá pra acreditar? Eu mesmo já perdi as contas de quantas vezes isso aconteceu comigo…”. A Sonia sorriu e concordou com a cabeça, enquanto a entrevistada se manifestou, dizendo que achava tal fato um absurdo, que não entende como as pessoas agem assim, que hoje em dia as coisas não são mais como antigamente, que ninguém quer saber de nada, e toda aquela ladainha tão previsível que você, leitor, também já está cansado de ouvir. Mesmo com ela se mostrando indignada com tal “desaforo” desses candidatos “irresponsáveis”, alguma coisa me dizia que aquela mulher faria exatamente o mesmo. Então eu insisti: – “Mas claro que com você vai ser diferente… Vocês já combinaram tudo, Sonia? Horário, salário, cargo e etc.?”. A Sonia disse que sim. E eu continuei: – “E o que você achou? Tá dentro do que você procura? Já trabalhou com isso antes? Quer começar quando?”. A candidata afirmou que sim, que a proposta estava dentro do que ela esperava e que no dia seguinte, sexta-feira, estaria às 16 horas de volta ao restaurante, como combinado com a Sonia, preparada para trabalhar. Deixei as duas terminarem a conversa e retirei-me.

Hoje é o dia seguinte. Sexta-feira, 17h34 da tarde. Acabo de voltar ao meu escritório (anexo ao Fadanelli), depois de circular pelo salão e pela cozinha do restaurante. Lá dentro, encontrei a Sonia limpando alguns camarões grandes que serão servidos à noite em nossos Fettuccines Paglia I Feno. Perguntei como ela estava e se tinha tudo preparado para o jantar. Ela disse que sim, “tudo bem, tudo bem”. E emendou: – “Lembra-se da entrevista de ontem? Então…” – “O quê? Não vai me dizer que ela não apareceu?”– perguntei, já sabendo que a resposta era negativa. Possuído por uma irritação descontrolada, dei dois socos na bancada, completamente puto. – “Não acredito! Não acredito que existe gente tão cara de pau neste mundo!” – desabafei indignado. A Sonia, que tem uma tolerância mais calejada do que a minha, achou graça.

Não se trata de ter uma equipe desfalcada para mais uma noite de trabalho. Não se trata de algumas mesas com pratos atrasados e clientes menos satisfeitos

Não se trata de ter uma equipe desfalcada para mais uma noite de trabalho. Não se trata de algumas mesas com pratos atrasados e clientes menos satisfeitos. Óbvio que isso é muito sério e importante. Mas o que agride profundamente, o que gera raiva e um desejo de vingança (que felizmente eu sei controlar), é a cara de pau, a atitude dissimulada, a arrogância e o desprezo com que essas pessoas lidam com suas profissões.

Eu estou há 17 anos nesta profissão, faço entrevistas de emprego há pelo menos 10, passei por situações idênticas a essa mais de 50 vezes, mas ainda não me conformo que isso acontece. Em reação a isso, mudei minha atitude ao longo dos anos e passei a dedicar cada vez menos tempo às entrevistas. Não tolero mais essa gente que se diz “vítima do capitalismo”, “vítima das desigualdades sociais”, sendo que na verdade são elas que nos fazem vítimas. Quando aparecem candidatos para vagas de cozinheiro ou garçom, eu peço que comecem imediatamente, na mesma noite, sem ter que passar por aquele lenga-lenga de saber sua história, seus valores e seus objetivos para o futuro daqui a 5 ou 10 anos. Passei a usar o caminho mais prático: “Fulano, venha trabalhar hoje à noite. Daí você vê se gosta da gente e a gente vê se gosta de você. Aqui não tem muita frescura. Deu deu, não deu, um abraço”. É ali, na hora do movimento, que você vai conhecer as atitudes, a postura e o comportamento. Vai bater o olho no cara e saber se ele tem ou não tem iniciativa, perceber sua educação e seus valores. Ele, por sua vez, também nos avalia: conhece o ritmo de trabalho, o perfil da equipe, o estilo dos clientes e as condições oferecidas. É um método eficaz. Uma vez que o cara apareceu para trabalhar, 50% da entrevista já está salva. Mesmo assim, ainda existem aqueles que aparecem no primeiro dia e depois somem para sempre, sem deixar vestígios. “É o mercado”, dizem alguns. “É o Bolsa-família”, dizem outros. Eu acho que é educação. Um simples telefonema agradecendo a oportunidade e dizendo que não tem interesse mudaria o mundo das relações de trabalho para melhor.

Não quero aqui dizer que o estilo de entrevista que passei a utilizar seja o melhor nem o mais correto. É apenas uma consequência dos fatos. Aliás, eu mesmo aplico as ferramentas de RH nos restaurantes, onde os gerentes têm como regra fazer a integração de novos candidatos. Tentamos incansavelmente encaixar a bela teoria dos livros na prática do dia a dia, não tão bela assim. Nos dias da “integração com funcionários” é visível o desapontamento dos gerentes. Sinto pena deles às vezes. Vejo a mesma frustração por qual eu passei através de seus olhos. – “Não desistam! ” eu digo com fé. “Um dia vai dar certo! ”

A Sonia, nossa chef, não merece isso. Ou melhor: ninguém merece isso. Mas são pessoas assim, donas de uma irresponsabilidade perversa, que prejudicam a imagem de tantos outros trabalhadores sérios e de boa fé. Trabalhadores que pagam uma conta alta, ao viverem relações de trabalho amargas e desconfiadas, que ainda existem por aí. A nós, empresários, cabe o desafio de lutar diariamente para desatar esse nó, em busca de harmonia e paz em nossos ambientes de trabalho. E um desejo: que Deus nos livre desses caras de pau!

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