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Estrada (sul) Real

20 de junho de 2016

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Beto Madalosso encara uma viagem de motocicleta pela estrada mais antiga do Brasil

Não foi nada programado. Eu e a Julia, na verdade mais eu do que ela, temos essa mania: escolher o destino da viagem no dia da partida. Por um lado isso é péssimo, porque muitas vezes acabamos nem viajando, já que cada um quer ir pra um lado e não há acordo. Por outro, quando a gente viaja, é tiro certo! Uma surpresa atrás da outra. Easy Rider! Nenhum hotel agendado, nenhum destino obrigatório, sem guias. 

Dessa vez foi o feriado da Páscoa. Pra onde? Ah, pode ser Foz do Iguaçu, pra relaxar, comer na Argentina, pedalar até as Cataratas – acabei de dar uma bicicleta de presente pra Julia. Ou Camboriú, a gente também usa a bicicleta, cozinha em casa, e ainda pega uma praia…. E por que não uma viagem de moto? Argentina? Serras Gaúchas? Campos do Jordão?

Escolhi a moto. Passei na casa da Julia na quinta-feira pela manhã. Carregamos as malas e saímos, primeiramente, atrás de uma capa de chuva – ela ainda não tinha uma. Paramos numa loja e, com a capa de chuva em mãos, saímos sem saber se pra norte sul do país. Instantes antes de pegar a estrada parei em outra lojinha de moto pra comprar uns elásticos e amarrar melhor nossas bagagens, que estavam balançando demais. Eis que um dos atendentes alertou: “Cara, teu bagageiro tá quebrado. Impossível você viajar com ele assim.” Estávamos extra carregados, o que fez o bagageiro romper. Desanimei. Pensei em desistir. Teríamos que partir apenas no dia seguinte. A Julia botou pilha: “Nem pense em desistir. Vamos arrumar isso de uma vez.” Em outra oficina consertamos o bagageiro. Voltamos pra casa e deixamos metade de tudo que levaríamos. Viajar de moto é assim mesmo: quanto menos bagagem, melhor. Mulheres normalmente odeiam. Quatro camisetas, uma calça jeans, um tênis, roupas íntimas, roupas pra pilotar (jaquetas, botas, calças, capas), e, claro, a bolsa da Julia, maior que uma caixa de ferramentas, com os produtos de beleza. Já passava do meio-dia. Decidimos almoçar em casa. Durante o almoço, lembrei: “Julia, me falaram da Estrada Real. É uma viagem longa, cheia de estradas de terra, talvez bem cansativa. Mas dizem que é uma espécie de Caminho da Compostela e que a gastronomia é espetacular. Que tal essa?” A gente gosta de comer. Ela topou na hora. Largamos os talheres sobre os destroços de um frango assado com farofa e caímos na estrada.

A longa e larga estrada nos abraçou carinhosamente rumo às descobertas que estavam por vir

Revivi o velho prazer de acelerar logo que entrei na BR 116 sentido São Paulo. Senti o cheiro da liberdade. O vento forte no rosto arrancava de nós a rotina e os compromissos que ficavam cada vez mais longe, à medida que Curitiba diminuía no meu espelho retrovisor. A longa e larga estrada nos abraçou carinhosamente rumo às descobertas que estavam por vir. Em qual cidade dormir? Que tipo de hotel? Onde comer? Até aqui apenas uma coisa era certa: tínhamos sete dias e seis noites para viver a Estrada Real.

Faltavam alguns minutos para o sol se pôr quando miramos o litoral sul de São Paulo. Adentramos a Mata Atlântica. Estrada simples com pouco movimento cercada por uma floresta virgem sub tropical. Avistamos algumas cachoeiras no caminho. Os últimos raios de sol pintavam de vermelho nosso céu enquanto percorríamos as margens das praias, até chegarmos, já à noite, em Bertioga, onde decidimos pernoitar. Uma praia extensa e estranhamente vazia. Na busca por hotéis parei a moto sobre um gramado em frente ao mar que refletia a luz da lua, que nascia por trás das nuvens. Pouquíssimos hotéis. Pousadas, também poucas, todas lotadas em virtude do feriado de Páscoa. Estávamos exaustos depois de um longo dia de viagem. Oito horas da noite. Oito e meia. Nove horas. Nada! Parávamos de pousada em pousada. Jogávamos com a sorte. Intimamente, dentro de cada um de nós, era certa a possibilidade de ter que passar a noite na rua. A ponto de desistir, paramos na orla. A Julia sentou-se no chão e disse “Por mim eu durmo aqui mesmo”. Mais uma tentativa. Outra. E, enfim… “Tem vaga, sim, senhor!”. Um beijo salgado de suor, poeira e fuligem de caminhão pra aliviar nossas dores. Subimos pro quarto simples e acolhedor. Ficaríamos ali por dias.

Saímos caminhar. Bertioga é exemplo raro de praia onde se vê o trabalho do Estado mais avançado que o trabalho da iniciativa privada. Ciclovia, pista de skate, paisagismo irretocável à beira mar. Poucos circulavam por ali; alguns outros brincavam molhando os pés na água do mar. O ruído das ondas interrompia o silêncio. Na Avenida Atlântica quase não passavam carros. A praia era nossa. Andamos dez minutos até encontrar um pequeno restaurante especializado em comida mexicana. “Mexicana?” Pois é, mexicana: tacos, nachos e caipirinhas debaixo de uma figueira lambida pela brisa do mar. Ausência de assunto, crise política brasileira. Presença divina.

Dormimos. Acordamos quando o sono acabou. Café da manhã simples. Pão, muçarela, bolo de cenoura, suco de laranja. O sol ardente nos convidou para entrar no mar. Sunga e biquíni. Poucos guarda-sóis. Poucos ambulantes. Gargalhadas inocentes ao entrar na água salgada. Alguns mergulhos depois carregávamos a moto no hotel.

maresiasCalor intenso. Ignoramos as jaquetas pesadas e caímos na estrada como quem vai ao shopping: camisetas e calças jeans. A passarela de 350 quilômetros à beira mar que liga Bertioga a Paraty é de tirar o fôlego. Entre túneis verdes de mata atlântica e vistas do horizonte em alto mar, velocidade não é prioridade. Quanto mais lento, melhor. Cachoeiras, mirantes, praias privadas e praias públicas se revezam. Umas mais cheias que as outras. Iates e jet skis nas mais abastadas; caiaques e banana boat nas mais simples. Hotéis, pousadas e restaurantes charmosos disputam clientes entre o mar e a estrada. Enfiamos a moto por uma estreita passarela de um restaurante em Maresias. Sobre o deck de madeira, petiscamos camarão ao alho e óleo e observamos a multidão na areia, assim como curiosos observavam nossa moto carregada procedente de Curitiba.

Seguimos viagem e, sem saber dizer se era tarde ou noite, recebemos às boas vindas de uma placa verde em Paraty. Circulamos pela cidade antes de achar hotel. Diferente de cidades grandes, nas cidades pequenas o centro normalmente é o melhor lugar para ficar. Nos perdemos entre a multidão de turistas nas ruas de paralelepípedo do século XVII. “Não é Brasil, é Portugal”, algum guia comentou com uns gringos ao fazer referência à arquitetura barroca da cidade. Encontramos um hotel. Hotel bom, com direito à banho de piscina com caipirinha. “Qual o melhor restaurante aqui?”, perguntei ao recepcionista. “Banana da Terra, senhor”. Sem conhecer outros restaurantes de Paraty, tenho certeza que ele acertou. “Eu queria esse restaurante pra mim”, falei pra Julia assim que entramos. Paraty está representada ali, numa mescla de rusticidade com sofisticação, e de história com contemporaneidade. Charme despretensioso. Portugal com samba e clima tropical. Cardápio elaborado com ingredientes locais. Música e iluminação pra esquecer a hora de ir embora. Magia.

parati

Acordamos cedo. Bufê farto no café da manha. Caminhamos até o centro histórico para buscar nossos passaportes da Estrada Real. Era ali, exatamente ali, o marco zero da nossa viagem. Carimbamos os passaportes com a imagem da igreja Matriz da cidade. Na mesma igreja fizemos nossa última foto antes de seguir para Cunha.

Cunha! Ah, Cunha! Quem poderia dizer que essa cidadezinha perdida no topo da serra do mar nos daria tantos encantos. Não foi a primeira vez que Cunha passou por nosso caminho. Quatro anos antes fizemos esse mesmo trajeto, Paraty – Cunha, de carro. Trinta quilômetros, mil e quinhentos metros de desnível, e dez graus Celsius separam as duas cidades. O trecho mais temeroso para as expedições que escoavam o ouro nos tempos do Brasil Colônia. Mata densa e íngreme, recentemente pavimentada para desfrute dos turistas. O caminho não poderia ser diferente: mirantes, cachoeiras, restaurantes, artesanatos e, o principal para quem viaja de moto: estrada vazia e centenas de curvas com gostinho de montanha russa. Em Cunha encontra-se a famosa Pedra da Marcela. Dos seus 1.700 metros de altitude avista-se o litoral de Parati e Angra dos Reis. Pico dos pilotos de asa delta. Aos pés da Marcela algumas propriedades produzem cogumelos paris e shitake, e restaurantes  familiares oferecem a iguaria em suas receitas. Foi num desses que almoçamos, envolvidos pela paz dos campos inatingíveis por ondas de telefone celular. Moqueca de truta, arroz com coco, compotas de cogumelos, cerveja artesanal produzida pela micro cervejaria Wolkenburg, vizinha da propriedade. Hora de pegar a estrada.

demarcacao da estrada real

A Estrada Real é demarcada por pilares de aproximadamente três metros de altura em todo o seu trajeto. São fáceis de reconhecer. Eles levam o mapa do trajeto talhados em suas estruturas. Dizem que estão dispostos a cada dois quilômetros e que em cada cruzamento duvidoso vai ter um, pra ninguém se perder no caminho. Não vimos tantos assim. Nos perdemos várias vezes, mas, admito, nos encontramos sempre graças a eles. Cruzamos a fronteira que divide São Paulo e Minas Gerais e seguimos para o meio do Brasil. Estradas simples, vazias, tranqüilas e favoráveis. Lá de vez em quando eu parava num vilarejo, tirava o capacete, e perguntava pra quem estivesse por perto: “Aqui é a Estrada Real?”. Às vezes sim, às vezes não. E seguíamos até achar o caminho original. Paramos em Passa Quatro pra tomar um café. Assim como todas as outras cidades da Estrada Real, Passa Quatro também tem seu centro histórico, suas ruas de paralelepípedo, e sua Igreja barroca. Simpatia é o que não falta pra esse povo mineiro. “Então… A gente tá viajando assim, meio sem destino. Onde você sugere passarmos a noite?”, perguntei pra moça do café. “Ah, vai pra São Lourenço. É lindo lá. Vocês precisam conhecer o Parque das Águas”.

Achamos justa a tarifa do maior hotel do Centro Histórico de São Lourenço. Moto estacionada, saímos pra caminhar. Em frente à praça, um boteco harmonizando cervejas, hambúrguer e rock and roll. Enchemos a cara. De volta à praça ficamos tocados ao ver casais namorando e famílias inteiras desfrutar dos brinquedos infantis, das feirinhas e do bailinho “lustra fivela” promovidos pela prefeitura. Todo mundo feliz. Feliz com pouco. As luzes e a música alta do salão de festas chamou nossa atenção ao voltarmos pro hotel. Cabelos prateados e os cuidadosos passos dos casais na pista de dança não deixavam dúvida: baile da terceira idade. Um tecladista solo com seu repertório naftalina animava a festa. Entramos de peru pra ouvir Whisky a Go Go e clássicos de Roberto Carlos. Fizemos sucesso pela falta de gingado.

Abrimos um novo dia com um passeio de pedalinho no Parque de São Lourenço. Sob um sol de rachar, seguimos viagem. Uma pacata estrada de barro nos levou até São Thomé das Letras, onde almoçamos uma picanha na chapa em meio às casas de pedra e à comunidade hippie que não deixa dúvidas acreditar em alienígenas – a cidade é famosa por isso.

galinha dangola no tragaluz em tiradentes

Já era noite quando cruzamos a ponte de pedra do centro histórico de Tiradentes. Tiradentes está mais para cenário do que para cidade. Tudo é tão perfeitamente harmonioso que faz sentir mais orgulho do Brasil de Dom Pedro do que do Brasil de Dilma. Era domingo à noite. Tudo tão em paz que nossos passos sobre as pedras ecoavam das paredes brancas com janelas coloridas. Entramos no Tragaluz, um restaurante iluminado por velas que ocupa o interior de uma das casas preservadas culturalmente, com peças centenárias à mostra. Galinha d´Angola e Leitão a Pururuca. Caipirinhas e uma taça de vinho. Gatos, cachorros e nossos passos ecoando na volta para o hotel.

No dia seguinte, logo pela manhã, lavamos o sal do mar de Bertioga das nossas roupas de banho nas águas de uma das cachoeiras de Tiradentes. Logo depois cruzamos as ruas da cidade com nossa possante máquina futurística, cabelos molhados e roupas de praia, em meio às construções do Seculo XVII. Um episódio psicodélico pra história da cidade cenário.

Tiradentes está mais para cenário do que para cidade. Tudo é tão perfeitamente harmonioso

“Vocês precisam conhecer o Tempero da Angela. Quer comida mineira de verdade? É lá que tem!”. Não foi nem uma, nem duas pessoas que vieram com esse mesmo discurso pra cima da gente. Tocamos pra Bichinho, direto pro restaurante da Angela. Infinitas lojas de artesanato brasileiro se amontoam nos sete quilômetros que separam uma cidade da outra. A Angela é mulher simples. Não faz ideia do potencial que tem. Seu restaurante é um salão improvisado conectado com uma salinha onde fica um buffet de comida mineira sobre um fogão a lenha. Mesas de pau, cadeiras de pau. Serviço de garçonetes tão humildes e prestativas que tocam o coração dos clientes sensíveis. Leitão a pururuca, tutu, batata doce, galinha com quiabo, chuchu, abobora assada, feijoada, angu, jiló refogado, abobrinha refogada, queijo mineiro, e mais, tudo ali na chapa daquele fogão que dona Angela não vencia repor nem os pratos, nem as lenhas pra dar conta do recado.

igreja em ouro pretoA paz da estrada e a natureza selvagem repetiu-se assim que seguimos para Ouro Preto pela Estrada Real. Chegamos a tempo de almoçar. Restaurante turístico de comida mineira. Nada interessante depois do incomparável Tempero da Angela. Exaustos, como sempre, sem lugar definido pra passar a noite, tivemos nossa primeira discussão debaixo de um sol ardente com suor escorrendo sob nossas roupas pesadas de motociclistas. Largamos a moto fomos visitar o museu da Inconfidência antes que o sino da catedral batesse cinco horas e fosse tarde demais. No final do tour de uma hora, entre joias da princesa Izabel e obras de Aleijadinho, fizemos as pazes. Achamos um hotel honesto e saímos para desbravar Ouro Preto à noite. Comemos pizza e bebemos vinho ao ar livre no restaurante mais badalado da cidade. Muitos jovens universitários misturados aos turistas gringos animavam o lugar. E nossa viagem pela estrada que conta as primeiras historias do Brasil, ia ficando por ali.

estrada_real-01

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COMENTÁRIOS
  • Viajei na estória. ...adoro este tipo de aventura...só que de carro. Parabéns pela narrativa.

  • Muito bom, Beto como disse, da um bom livro de viagem! Parabéns!

  • Que viagem maravilhosa ! "Viajei" com vocês a medida que lia o texto.Excelente.Beto Madalosso é um escritor nato. Escreva um livro ! Assinado: Uma leitora da tutano e fã do Beto !

  • manda parabens pro cara que escreveu essa materia. ta otima.

  • é o beto ali? estudei com ele no positivo junior. meu, quanto tempo!!! abraco do carlos.

  • nossa, como eu queria ter feito essa viagem. parece incrivel. se eu fosse mais novo eu iria.