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Europa de motocicleta

3 de maio de 2016

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Beto Madalosso vai da Dinamarca à Portugal experimentando comidas de beira de estrada

Numa viagem de moto em que eu acordo todas as manhãs sem saber onde vou dormir no final do dia, conhecer restaurantes famozinhos está longe de ser prioridade. Não por falta de vontade, mas porque é um empecilho enorme no fluxo da viagem. Além disso, entrar sozinho num restaurante classudo com decoração intimista e velas nas mesas não é nada agradável. Ver aqueles casais apaixonados em lua de mel ou fazendo pedidos de casamento dobra o sentimento de solidão, aí é fácil se abraçar numa garrafa de conhaque e acabar a noite mais bebendo do que comendo. Hospedagem pra quem viaja sozinho é camping ou hostel, e comida é em posto de gasolina. Falo isso com profunda sinceridade. Essa foi minha terceira longa viagem solo e finalmente percebi que é principalmente nesses lugares que vou de encontro ao prazer de estar só. Mas calma, não desista ainda desta leitura. Eu sou, acima de tudo, um trabalhador. Também dediquei-me a alguns dos compromissos que ainda estavam em minha memória depois daquela conversa com os editores da Tutano

Beto Madalosso comendo na estrada

Postos de gasolina são como miragens!

Primeiro de tudo: nunca despreze comida de posto de gasolina. Ainda mais na minha frente, agora que sou um grande apaixonado e especialista no assunto. Quer conhecer os clássicos da gastronomia de um país? Vai num posto de gasolina. Veja por nós. Só aqui no Brasil você vai encontrar um bufê com feijoada, picanha grelhada, farofa e couve num posto de gasolina. Ah, calma! Tem mais: pão de queijo, pastel, caldo de cana, paçoca, bala de banana, pamonha, pingado no copinho de vidro, cachaça e uma infinidade de outras coisas. Postos de gasolina concentram o que há de mais regional da gastronomia, coisa que nem restaurantes, nem supermercados conseguem fazer tão bem. E o mesmo serve para os países europeus. Quer saber o que é popular na região? Vai no posto e seja feliz! Croissant, strudel, pastel de belém, cachorros-quentes dos mais variados formatos e molhos, sucos de frutas inéditos, etc. Assim foi. Agora, se você vai se sentir feliz, imagina quem está de moto e a prioridade de comer vem antes da prioridade de degustar… Postos de gasolina são como miragens!

Quer conhecer os clássicos da gastronomia de um país? Vai num posto de gasolina.

Estou neste momento sentado no aeroporto de Guarulhos, aproveitando o tempo de espera da minha conexão pra escrever este texto. Tô aqui, bem em frente à Livraria Laselva, tentando lembrar de algumas refeições, fora de posto, que marcaram a viagem. Vou mais ou menos seguir a ordem de países pra facilitar.

Cheguei na Dinamarca

Foi na Dinamarca que desembarquei pra resgatar minha moto, que me esperava há mais de três anos na casa do amigo Chistoffr Ulf. Uma longa história que depois eu conto. Fui recepcionado com um jantar fenomenal que a mãe do Chris preparou. E olha, vou dizer: talvez tenha sido o melhor jantar da viagem toda. Eu já conhecia a mãe do Chris e sabia do seu potencial na cozinha. Supertécnica, usando sempre produtos que ela mesma planta no jardim e invariavelmente tendo os melhores peixes na geladeira, já que eles moram próximos ao mar e são os melhores clientes do pescador. Jantamos numa mesa especialmente montada no jardim, de frente pra um lago enorme. Nós quatro: eu, Chris e seus pais, como uma bela família, num fim de tarde perfeito, ao som de pássaros e crianças que brincavam lá longe, no meio do lago, com um lindo pôr do sol. Caranguejos de entrada, peixe com limão e tomilho, e batatas perfeitamente assadas. Falamos um pouco da gastronomia dinamarquesa e pra mim ficou evidente que essa cultura está enraizada em todas as pessoas daquele país. O domínio de técnicas não está restrito a chefs de cozinha ou profissionais ligados à alimentação, e sim a todas as pessoas. As lojas mais simples vendem sofisticados equipamentos de cozinha, o que prova que esse é um assunto popular.

Casa_Chris

Da Dinamarca fui pra Noruega

Lá a conversa é diferente. Turistas que viajam pelas estradas da Noruega levam sua própria comida. Hã? Como assim? Isso mesmo! A Noruega é um país absurdamente caro para se comer e se hospedar. Então, boa parte de quem vai pra lá viaja em trailers (motorhomes) e leva tudo o que vai comer ali dentro. Aprendi isso logo de cara, quando fui comprar uma água no mercado e paguei algo em torno de 9 reais. No mercado! Em restaurantes nem se fala… Meu plano na Noruega era chegar até Nordkapp, última cidade ao norte da Europa, lá onde acontece o sol da meia-noite no verão e a aurora boreal no inverno. Como eu iria ficar vários dias explorando as suas belezas naturais e não queria gastar todo o meu suado dinheirinho na largada, fiz como os outros: tratei de encher minhas malas de comida para evitar restaurantes. Pão, queijo, presunto, molho enlatado, massa, arroz, salmão (que, claro, apodreceu e empestou meu saco de dormir), um fogareiro pra camping, um minibujão de gás (do tamanho de uma maçã), uma panelinha e talheres de plástico, e segui viagem. O prazer das refeições “into the wild” é incrível. Não pelo resultado da mistura de massa com molho enlatado em si, mas pelo aspecto inusitado de cada refeição. Os campings na Noruega estão, via de regra, em lugares deslumbrantes. Beiras de lagos, cachoeiras, fiordes, topos de montanhas, etc. Então, você pega sua panelinha e vai cozinhar sua gororoba na frente de uma cachoeira, a milhas e milhas de qualquer lugar, a dois passos do paraíso. Isso sim é o que pode se chamar de programa de índio! E se você, assim como eu, sentir uma profunda vontade de virar índio, daí, amigo, você encontrou a felicidade.

bagageiro

Camping_Noruega

Entre a Finlândia e a Rússia

A Finlândia foi um país de transição pra mim, apesar de ter dormido três noites ali. Sem dúvida, a refeição mais marcante foi na primeira cidade que parei, Ivalo, bem ao norte da Escandinávia. Região que ainda é habitada pelos indígenas Sapmi (ou laplanders), que servem as refeições dentro de tendas, ao redor de uma fogueira. Ali, acima do círculo polar ártico que, por razões culturais e políticas, ainda pode-se consumir carne de rena. Provei a iguaria numa receita parecida com o Strogonof (ou, em russo, stroganov). Comida boa, atmosfera sensacional.

Jantar Sápmi em idalo

Estraganov_museu_da_vodka

Da Finlândia segui pra fronteira da Rússia. Pense num cara perdido. Meu GPS só tem mapas europeus e a Rússia não faz parte da Europa. Comprei mapas e passei a decifrar o diferente vocabulário comparando símbolos das placas na estrada com os símbolos no meu mapa. De algum jeito cheguei à periferia de São Petesburgo e um trânsito infernal foi me jogando pro centro da cidade. E que cidade! Que surpresa! Parei logo na primeira placa que dizia “hotel”. Ali peguei aqueles mapinhas que ficam na recepção e segui pra rua principal, lá pelas 10, 11 da noite. Eu precisava comer. Caí num desses restaurantes pra turista de primeira viagem. Sentei e fiz meu pedido. Na mesa ao lado duas russas, uma loira e uma morena, me fitavam. Cabelos lindos, dentes podres. Eu sabia que era esquema. Logo começaram com o interrogatório: “Você é turista?”, “Você vem de onde?”, “Com o que trabalha?”, “Vai fazer o que depois do jantar?”, “Nós conhecemos bons lugares!”, tudo naquele inglês de sobrevivência. Prostitutas! Cortei o papo e as duas caíram fora. A cidade tá abarrotada de prostitutas. Mas estou aqui pra falar de outro tipo de comida. No dia seguinte conheci lugares incríveis em St. Petersburgo. Sofisticação, serviço, comida, tudo! Muito, muito além do que eu poderia imaginar. Sem dúvida, seu cenário gastronômico não perde em nada pra metrópoles como Nova York, Londres ou Paris. Além disso, em muitos desses lugares você pode comer com a vista para as cúpulas douradas das igrejas e monumentos que dão fama à cidade.

Fiquei três dias inteiros em St. Petersburgo. Isso porque eu passei dois dias com uma indecisão maluca na minha cabeça: seguir para leste até chegar em Vladivoltock, ou para oeste, até chegar em Lisboa? Eu levaria mais ou menos o mesmo tempo pra fazer tanto um quanto o outro. Uns 12 ou 15 dias. Algumas coisas pesaram pra eu seguir pra Portugal. Uma é que eu queria visitar alguns amigos que estão espalhados na Itália, Mônaco, Espanha e Portugal. Outra é que minha passagem de volta era de Portugal. Mas o que mais pesou foi a logística da moto. Deixá-la em Portugal seria muito mais fácil do que deixá-la em Vladivostock, na Rússia. Em Lisboa eu já tinha um espaço garantido e Portugal é um ponto estratégico pra próxima etapa da minha viagem (pretendo ir pra África). Além disso, em Portugal eu entendo o que dizem, na Rússia não. E tratar de assuntos de logística da moto é coisa séria.

Rumo a Portugal

Saí de St. Petersburgo em direção a oeste, até chegar na fronteira de um país que eu demorei pra saber qual era. Entrei na Letônia seguindo símbolos nas placas, mas, pela pronúncia ser diferente da nossa, eu não sabia se estava na Estônia, Letônia ou Lituânia (os três países bálticos). Passei batido pelas estradas ruins da Letônia até entrar na Lituânia e, só no fim do dia, quando entrei pra jantar em um restaurante na cidade de Kaunas, é que alguém me localizou no mundo e explicou, mostrando num mapa, que eu estava na Lituânia.

Gostei de Kaunas. É daquelas cidades românticas, uma pegada Gramado, Canela, onde estar sozinho é desolador. Mas, a essa altura, eu já estava me virando bem comigo mesmo.

Gostei de Kaunas. É daquelas cidades românticas, uma pegada Gramado, Canela, onde estar sozinho é desolador. Mas, a essa altura, eu já estava me virando bem comigo mesmo. Pedi minha cerveja escura, uma costelinha de porco assada, e fiquei ali, assistindo o vai e vem dos casais em lua de mel. No dia seguinte entrei na Polônia, direto para a Cracóvia, com objetivo principal de visitar Auschwvitz. Parei num hostel do centro histórico e acabei jantando num restaurante qualquer. Na manhã seguinte pulei cedo e fui pra Auschwvitz – campo de extermínio polonês da Segunda Guerra Mundial. Fiz uma visita guiada de três horas pelo museu e parei num posto pra almoçar antes de seguir pra Eslováquia. A comida não descia, eu estava embrulhado com toda a barbaridade que ouvi sobre a guerra. Segui pra Eslováquia acompanhado daquele mal-estar até o final do dia.

Costelinha de porco Lituânia

Já passavam das 22 horas quando encostei em alguma cidade fantasma da Eslováquia que eu não lembro o nome. Só achei um hotel pra dormir, que já estava lotado. Perambulei com minha moto pelo calçadão central, onde alguns zumbis circulavam fazendo sei lá o que, até que dois policiais me abordaram dizendo que ali era proibido usar a moto. Fiz mímicas dizendo que precisava de hotel. Então, entraram em sua viatura e pediram que eu os seguisse, até que chegamos numa pousadinha e eles foram embora. Agradeci a gentileza. Em cidade pequena não existe lugar aberto pra comer depois das 22h. O que eu fiz? Perguntei pro dono da pousada qual seria o posto mais próximo. E lá eu estava novamente, comendo um cachorro-quente eslovaco dentro de uma maravilha chamada posto de gasolina.

café_manhã_eslováquia

Dali fui pra Hungria. Almocei em Budapeste. De lá pra Viena, na Áustria. Jantei um shnitzel, o prato mais tradicional de todos. De Viena segui pro norte da Itália. Cortina d’ampezzo! É nessa região que se viaja por uma das estradas mais lindas do mundo. Comida italiana na Itália é covardia. Não tem massa ruim. Não tem pizza ruim. Os clássicos spaghetti alle vongole, spaghetti ala carbonara e as lasagne alla bolognese estão por todos os cantos, perfeitamente bem preparados. Me senti em casa. Foram três dias. Passei pelo Lago di Garda e pela Cinque Terre. Mais estradas, mais paisagens fantásticas, mais refeições caseiras em trattorias inesquecíveis.

peixe_espada_italia

Pizza é na Itália copy

Ufa, enfim um dos melhores do mundo

Passei batido por Mônaco e pelo litoral sul da França e Espanha, onde não comi nada de muito especial, até que resolvi cumprir minha missão com a Tutano e perguntei pro Google se eu estaria próximo a algum dos 50 melhores do mundo pela lista San Pellegrino. Resposta: Vila Joya, número 22 do mundo, em Albufeira, sul de Portugal. O sul de Portugal não estava nos meus planos de viagem, mas visitar um dos melhores, estava. De Granada, na Espanha, onde eu havia passado a noite e provado o legítimo jamon serrano, liguei pro Vila Joya a fim de fazer uma reserva. “Estamos lotados”, a atendente falou. “Estou sozinho, trabalho pra uma revista de gastronomia e quero fazer uma matéria com vocês. Isso é um apelo!” “Olha, se quiser tentar, pode vir no risco. Talvez tenha lugar na mesa do chef, mas vai ser difícil. Nossa agenda tem semanas de espera…” Cheguei lá cedo, umas quatro da tarde, pra insistir na minha mesa. O cara que me atendeu falou: “Tenho a mesa do chef, mas o menu ficará em 225 euros por pessoa”. O normal custaria 175. Nessas horas não tem muita discussão, é dizer sim e pronto.

Estava tudo certo pra noite. Nesse meio tempo coloquei uma bermuda e mergulhei na praia de Albufeira, onde turistas do norte da Europa chegam antes do dia amanhecer pra garantir o melhor lugar ao sol. Água fria, revitalizante! Às 20h30 entrei no Vila Joya (de calça, não se preocupe) e lá estava a mesona de seis lugares, dentro da cozinha, só pra mim. Aproveitei e pedi pra harmonizar tudo com vinho. Lá se foram mais 100 euros. O gerente do restaurante, um carioca gente finíssima, perguntou: “Você não se incomoda se o dono do hotel jantar aqui com você?”. “Claro que não, será um prazer!”, eu disse. O Vila Joya fica dentro de um hotel que tem mais de 30 anos. Ali são organizados festivais de gastronomia com chefs do mundo inteiro. Estiveram lá: Helena Rizzo, Daniel Redondo, Jeffrson Rueda, Alex Atala, entre outros que não estou lembrando agora. O proprietário, um senhor de aproximadamente 70 anos, sentou-se e contou algumas histórias do hotel, e também explicava pra mim sobre como nasceram as estrelas do Guia Michelin (eles possuem duas). “Beto, uma estrela é simplesmente pra indicar que naquele ponto da estrada existe um restaurante, um restaurante de passagem. Duas estrelas é quando o restaurante merece o desvio da rota. Três estrelas é quando o restaurante é o destino da tua viagem”. “Então, pra mim, vocês são três estrelas. Eu vim pra Albufeira só pra conhecê-los”, eu disse. Contei pra ele sobre o meu trabalho no Brasil, sobre o Madalosso e sua capacidade de atender milhares de pessoas ao mesmo tempo. Então ele disse: “Você tem que conhecer o Frango Piri-Piri do Teodósio. Deve ser parecido com o que tua família tem. Quando vêm chefs internacionais pra cá, fazemos questão de levar lá. Ele atende mais de 1.500 pessoas por dia, é um ponto turístico. E esse sim merece três estrelas”, disse ele, animado com a conversa. Tive uma noite fantástica dentro da cozinha do Vila Joya, com a visão de tudo o que acontecia com a equipe do chef Matteo Ferrantino, que mais tarde sentou-se conosco e fiou até o último funcionário sair.

Tive uma noite fantástica dentro da cozinha do Vila Joya, com a visão de tudo o que acontecia com a equipe do chef Matteo Ferrantino, que mais tarde sentou-se conosco e fiou até o último funcionário sair.

No dia seguinte almocei no Teodósio, mas não tive tanta sorte. Esqueceram de servir a minha mesa e a pimenta do frango me causou algum tipo de efeito colateral que começou no estômago e foi parar no intestino – daqui pra frente vou omitir os resultados. Acho que eu não estava acostumado com tanta pimenta. De qualquer forma, valeu a visita. Vá ao sul de Portugal pra conhecer o Vila Joya e O Rei dos Frangos Teodósio. Se assim for, dá pra dizer que os dois são três estrelas.

frango piriri

Lisboa, minha última parada

Lisboa tem muitos restaurantes sensacionais. Você não precisa nem de indicação. É só se perder um pouco ali pelo Bairro Alto, olhar pra algum lugar que você simpatize que você vai se dar bem. Fiquei três dias por lá pra resolver a logística e armazenagem da moto e conheci estes: o 100 Maneiras, o japonês Umai, o SeaMe, o Bica do Sapato, o Mercado da Ribeira (com diversos restaurantes) e o Pastel de Belém. Mas tem um especial. Como eu fiz questão de levar minha moto até o Cabo da Roca, o ponto mais ocidental da Europa, passei pela Praia do Guincho e comi no Bar do Guincho, sobre um deck de frente pro mar. Por que inesquecível? Porque aluguei uma prancha e ainda consegui pegar umas ondas antes do meu voo sair. É… Que fio, que nada…. Não são todos os dias que comer bem está em primeiro lugar.

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COMENTÁRIOS
  • Beto, sensacional o texto e ainda mais a viagem !
    Sou iniciante no cozinha e também viajo de moto, juntar os dois deve ter sido uma experiência incrível.
    Pergunta: como voce mandou sua moto para a Dinamarca ?
    Abs, Valeton !