Faxinal do Emboque, por André Bezerra

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Filhotes de Porco Moura. Foto: André Bezerra

Numa manhã de dezembro, um grupo de 30 pessoas ligadas a diversos segmentos da gastronomia deixa Curitiba em direção a São Mateus do Sul, a 120 km da capital. O destino final era o Faxinal do Emboque, organização de pequenos agricultores situada no município de 46 mil habitantes.

Por definição, faxinais são organizações formadas no sul do Brasil que se caracterizam pelo uso coletivo de recursos naturais, especialmente água e terra. No centro da organização, um criadouro comum.

Outra característica fundamental nos faxinais é o uso da produção agrícola para consumo próprio, beneficiamento e agregação de valor para posterior comércio. As famílias moram na área delimitada e se encarregam da produção e dos animais, que são criados soltos e se alimentam das frutas que literalmente caem das árvores: pinhão, guavirova, pitanga e jerivá, além da própria pastagem. Ao final do dia, porém, os animais – no caso do Emboque os porcos são maioria – retornam para os chiqueiros onde são alimentados com milho, abóbora e mandioca.

São pouco mais de 50 famílias no Faxinal do Emboque e elas cultivam, em sua maioria, milho, feijão, batatas, arroz, centeio, fumo e erva-mate.

História

No início do século XX, famílias descendentes de imigrantes poloneses chegaram ao Faxinal do Emboque, onde alguns agricultores já haviam se estabelecido e organizado. Os novos faxinalenses ajudaram a organizar ainda mais as culturas e criações. A principal iniciativa foi se mobilizarem em mutirões com os habitantes originais e construírem cercas, separando os animais das plantações.

Em 1934 a Associação Agrícola e Escolar do Emboque foi fundada. Até a década de 80 os filhos das famílias foram alfabetizados na bela construção em estilo polonês, toda levantada com madeira nativa. Ao longo das décadas também foram realizadas festas e eventos onde hoje é a sede da Associação Agrícola Adão Ianowski.

Tradição x Modernidade

A tradição é um dos pilares dessa forma de vida e organização. Alguns exemplos são o beneficiamento da erva-mate, feita no barbaquá. A farinha de mandioca é beneficiada na tafona, enquanto as sementes crioulas são transformadas em broas de centeio assadas no forno alimentado com a lenha nativa. As carnes, por sua vez, são feitas de forma artesanal e viram linguiça, torresmo, carne de lata e banha.

Equipamento para limpeza dos grãos e extração do óleo foi adquirido e uma agroindústria foi construída. Ali, as mulheres da comunidade produzem pães, bolachas, manteiga e ainda processam frutas e erva-mate para produção de polpa congelada e até sorvete, que é fabricado junto a uma indústria parceira, em São Mateus do Sul. A atividade gera renda extra para as famílias, além de permitir que as mulheres diversifiquem sua atividade para além da agricultura. Portanto, se você pensava que a vida no campo era pacata, é porque ainda não conheceu a rotina de um faxinal.

E não dá para falar em modernidade sem falar em preservação. Pois os faxinalenses conhecem e aplicam a destinação de lixo reciclável em todas as atividades que realizam.

Projeto Terra Faxinalense

De olho nos resultados contundentes da interação ser humano x meio ambiente, em 2013 foi criado o Projeto Terra Faxinalense, com patrocínio da Petrobrás e apoio fundamental do Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR), da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e do Instituto Equipe de Educadores Populares. Objetivos gerais e específicos foram traçados e vem sendo perseguidos à risca. A coordenadora do projeto, Giovana Lemos de Melo, relaciona alguns deles:

  • Fortalecer a identidade faxinalense e camponesa das famílias que vivem no faxinal;
  • Melhorar condições de trabalho dos agricultores;
  • Potencializar geração de renda;
  • Permitir a continuidade dessa forma tradicional de vida.

Entre os objetivos específicos, melhorar condições de criação dos porcos crioulos pelas famílias estabelecendo, inclusive, um Selo de Qualidade com a chancela das  instituições apoiadoras do projeto. Entre esses porquinhos, o Moura. E para falar em porco Moura, ninguém melhor do que o professor doutor Marson Buck Warpechowski, coordenador do Projeto Porco Moura na UFPR.

“A raça Moura é a única adaptada ao frio do sul. Sua carne mais vermelha e o marmoreio especial da gordura são procurados pelo mundo inteiro, como uma iguaria. Em agosto de 2014 tínhamos um plantel total de cerca de 120 animais, em 2016 eram 320 e seguimos aumentando o número de Moura raça pura. Sistemas de produção e criação locais, como o faxinal, permitem a recuperação da raça, a exemplo do que acontece com o presunto Pata Negra, na Espanha, e com o Parma, na Itália. Eles se utilizam da tecnificação sem perder o jeito de fazer, aproveitando recursos locais para garantir um produto de qualidade com grande valor agregado no faxinal as pessoas comem e vendem produtos melhores.”

Gastronomia Paraná no Faxinal do Emboque

Pois foi ninguém menos que o próprio Professor Marson quem convidou e  orientou os comilões – em boa parte integrantes do Gastronomia Paraná – para aquela terça-feira que mencionamos no início da matéria. É claro que a Tutano foi, representada pelo Beto Madalosso e pelo colunista que vos escreve. Ali fomos recepcionados pelo faxinalense Paulo Márcio e por outras famílias locais com um baita café da manhã na varanda da propriedade da família Wenglarek.  Entre broas, cucas, pães e manteiga artesanal, banha, geleias, sucos, sorvete e outros produtos coloniais, tudo preparado dentro dos faxinais, ouvimos sobre o projeto. Eram chefes de cozinha, cozinheiros, produtores, empresários, acadêmicos, jornalistas, enfim, toda a cadeia da gastronomia representada se reuniu sob as árvores e em meio aos animais criados soltos no Faxinal do Emboque. Tivemos também um almoço, novamente preparado com produtos dali, fotografamos tudo o que pudemos e ainda visitamos a Associação Agrícola Adão Ianowski, a usina de beneficiamento, a agroindústria, os campos e culturas e compramos os produtos artesanais.

Acima de tudo, falamos de tradição, logística, cultura, produção, capacitação, comercialização, conservação, destinação e renda. Mas a melhor notícia é que a visita não terminou quando encerrou. Uma aliança foi estabelecida naquele dia e, principalmente pela iniciativa do Márcio Wenglarek e demais agricultores do Faxinal do Emboque, ações que devem transformar a gastronomia no estado serão implementadas. É o campo se aproximando do prato da melhor maneira possível, a partir da aliança tradição x modernidade.

Aqui embaixo você pode assistir um vídeo bacana sobre o Projeto Terra Faxinalense!

Como chegar ao Faxinal do Emboque? Clique aqui! 

rodape_andreAndré Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra

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5 COMENTÁRIOS

  1. Foi um privilégio passar o dia com tanta gente boa em um lugar tão legal, falando sobre (e comendo!) comida genuinamente paranaense (se não me engano, apenas o sal não era dali mesmo). Desde que conheci eles, fiquei esperando a oportunidade de mostrar pra todos o quão formidável é termos um sistema como esse sobrevivendo até agora, graças à importância que eles dão à sua tradição e à qualidade de vida que preservam. Obrigado por acolher a ideia e pela forma generosa que escreveu a matéria, André, Beto e equipe Tutano. E obrigado a todos que participaram, especialmente aos faxinalenses que nos receberam. Foi um dia memorável.

  2. Seria ótimo se todas as informações aqui mostradas fossem verídicas!
    Gostaria de sugerir uma pesquisa de satisfação dentro da comunidade do Faxinal Emboque com TODOS os moradores para avaliarmos o contentamento ou descontatemento da aplicação dos fundos recebidos, pois ao que se vê somente 5 famílias da comunidade usufruem dos projetos, os demais só tem acesso a informação através de pesquisas na internet e redes sociais, pois só depois do acontecido se tem notícias dos fatos.
    Quando a referida entrevista foi realizada (dezembro 2018) o restante da comunidade não foi comunicada.
    Outro fato interessante a ser pesquisado é sobre a Associação Agrícola Adão Ianowski, tal qual se tornou privada por 5 famílias, sem uso livre, sendo que o restante da comunidade quando necessita do acesso aos serviços da associação precisam pagar preços sem fundamentos.
    Ressalto a grande importância em se fazer uma nova visita na comunidade para checar a satisfação de todos que residem na Terra Faxinalense já que no documentário diz ter mais de 50 famílias.

  3. Cara Jaqueline, obrigado por acompanhar a Tutano. Conforme relatado na matéria, estivemos pessoalmente no Faxinal a convite do Professor Marson, da UFPR que integra o projeto em questão, o Terra Faxinalense. O próprio vídeo do projeto, disponível a quem tiver interesse em acessar, serviu como importante fonte de informação e descreve, em riqueza de detalhes e imagens, o que relatamos. Mais do que isso, durante um dia inteiro fomos ciceroneados por famílias moradoras do Faxinal e testemunhamos “in loco” as ações descritas, assim como as benfeitorias, beneficiamentos, criação, produção e os produtos finais. Veja que menciono que chegamos a comprar produtos dentro do próprio Faxinal. Como veículo que trata de gastronomia, integrantes de um grupo maior composto por representantes de diversos segmentos interessados em desenvolver o setor, constatamos que o projeto existe, é abrangente e pode ser referência para iniciativas relevantes na mesma direção. Investigamos a informação a partir da visita e das rodas de conversa – inclusive com a família Wenglarek que estava presente – até porque, novamente, o foco da Tutano está na Gastronomia e em tudo do melhor que a atividade pode oferecer. Para além do que está descrito, recomendamos que procure a Associação diretamente.

  4. CARO ANDRÉ BEZERRA sugiro que ao relatar a sua visita não mencione que a realizou no FAXINAL EMBOQUE, dando ideia que foi recepcionado pela comunidade faxinalense como um todo, sendo que deveria citar FAMILIA WENGLAREK a qual lhe recepcionou, (constatado isso em foto) informando somente o que era conveniente a família, inclusive através da postagem nesta mesma página podemos encontrar várias inverdades.
    Gostaria de relatar ainda que sua visita a comunidade causou grande curiosidade e especulação: De quem era os carros luxuosos que passaram por aqui nessa manhã? ….. Ora, era o senhor e seu grupo, tal fato só se tornou público na comunidade depois que essa página ganhou ares do Facebook.
    Att. JAQUELINE

  5. Jaqueline wenglarek…
    É triste ver uma pessoa que mora aqui dentro do faxinal e não apoia ele, no caso de que você está falando que uma família que se beneficiou do projeto e tantas coisas, quero que você prove isso no tribunal… Já que você sabe tudo quero ver você provar, isso é calúnia e não gostei dessa atitude, quero que prove no tribunal….

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