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Fazer uma crítica te faz bem?

30 de janeiro de 2017

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Tenho um cliente que almoça todos os dias no meu restaurante e todos os dias ele reclama de alguma coisa. Eu adoro ele.

Faz tempo que venho quebrando a cabeça pra identificar o perfil do cliente que sempre reclama. Claro que qualquer pessoa reclama, até porque qualquer restaurante comete erros. Mas eu queria identificar de qual grupo seriam os mais reclamões para poder dizer o que dizem os governantes: “é tudo culpa da oposição”. E, enfim, poder dormir com a alma tranquila todas as noites depois do expediente. Eu queria diferenciar, nesse emaranhado de opiniões aleatórias, o que são críticas construtivas e o que são críticas destrutivas. Gostaria, sinceramente, de saber que poderes mágicos um simples “filé fora do ponto” tem, capaz de ativar as mais profundas fúrias de alguns clientes. Saber por que os eleitos “Melhores Restaurantes da Cidade” por revistas “formadoras de opinião” não são “Os Melhores” na opinião dos usuários do TripAdvisor, por exemplo. Quem é mais importante, afinal? Entender por que precisamos nos humilhar, demonstrando humildade cristã, pra ter o perdão daquele cliente que diz: “Tudo bem, vou te dar mais uma chance. E que isso não se repita!”.

Gostaria, sinceramente, de saber que poderes mágicos um simples filé fora do ponto tem, capaz de ativar as mais profundas fúrias de alguns clientes.

O texto que segue será um brainstorm com minhas próprias observações sobre clientes e, talvez, ao final do texto, eu chegue a alguma conclusão sobre o assunto…

Alguns “Profissionais Liberais”

Quem não tem subordinados jamais entenderá o que é viver na pele de um empresário, pois jamais saberá os problemas que passamos com o chamado “capital humano”: rotatividade, falta de comprometimento, atestados médicos em noites de pico, brigas durante o expediente, etc. A gente entende: já que seu trabalho depende exclusivamente de si e não dos outros, esse cara não admite “falha humana” e acaba colocando as garras – e o veneno – pra fora. Vou chamar isso de falta de empatia.

Alguns “Novos Ricos”

Frustrados por não serem reconhecidos pela sociedade, esses caras se valem do poder do dinheiro para aparecer: subornam a recepcionista pra furar a fila, escolhem a mesa “vitrine”, tratam o garçom como capataz e fazem questão de assumir a conta da mesa sozinhos – mas não sem antes pedir um descontinho, é claro.

Alguns “Ex-donos de Restaurante”

Falo especialmente daquele que justifica sua falência por culpa de fatores externos e nunca por seus próprios erros. É o cara que está fora do mercado, mas ainda te vê como concorrente. Depois de fazer uma reclamação, ele te diz: “Eu sei o que tô falando, eu já tive um restaurante”. É o cara que não se conforma com o sucesso do seu negócio.

Alguns “Futuros Donos de Restaurante”

Aqueles que, por algum motivo, sonham em um dia ter um restaurante. É o cara que tem o hobbie de jantar fora e cozinhar pra família. Que dá dicas pros amigos e tem até um blog onde dá notas dos lugares que frequenta. É o presunçoso que entende tudo de tudo e compara todos com todos – o cara que eu contrataria pra ser nosso “cliente oculto”. Ah, se você soubesse quantos donos de restaurantes queriam que esses blogueiros abrissem um negócio… Mas não, cada um no seu quadrado: raramente um “crítico de sucesso” se torna um “empresário de sucesso”.

Alguns “Consultores”

Ah, os consultores… Esse time levanta muita suspeita. Não foram poucas as vezes que o cliente se levantou, pediu pra falar comigo, fez dezenas de detalhadas críticas sobre meu estabelecimento e, no final, me entregou um cartão dizendo: “Trabalho com consultoria, qualquer coisa dá uma ligada”. Sim, senhor, seu oportunista.

Alguns “Ativistas Sociais”

Esse é o cara que tem mania de perseguição. Ele pressupõe que todas as pessoas do mundo são preconceituosas e que ele mesmo é alvo de preconceitos. Então, para chamar a atenção e ir à luta em defesa das classes oprimidas, ele exagera no visual e no comportamento expansivo durante o jantar… E ai de você se olhar torto! Ele vive com o radar aguçado em busca do menor sinal de desaprovação. O mínimo movimento em falso é motivo pra dar o bote e botar a boca no trombone; sempre iniciando com “quem você pensa que é pra…”

Alguns “Preconceituosos”

Por incrível que pareça, até hoje, alguns clientes não gostam de ser atendidos por negros, por gays, por tatuados e, por isso, não voltam mais ao seu restaurante. Isso sempre foi lamentável, quem dirá em pleno século 21.

Alguns “Coadjuvantes”

É curioso como para alguns clientes o próprio restaurante parece uma ameaça. Não sei explicar bem isso. Sei que, quando teu negócio está totalmente em alta, especialmente após uma inauguração estrondosa ou depois de um importante prêmio da gastronomia, esses caras saem sedentos para encontrar seus defeitos e negar suas qualidades. Seria algo como procurar celulite no corpo da Gisele Bündchen. É como se o sucesso do restaurante desviasse a atenção que ele gostaria de ter pra si mesmo. O restaurante vira o protagonista, e ele, o coadjuvante.

Alguns “Covardes”

É o cara que não gostou do jantar e não reclama nem para o garçom, nem para o gerente, nem para o proprietário – por mais que tenha tido a oportunidade de fazer isso. Ao chegar em casa, ao invés de mandar um e-mail para o restaurante, resolve publicar sua reclamação nas redes sociais, pra chamar a atenção dos amigos e ganhar uns “likes” dos “maria vai com as outras”. Vá entender esse ego…

Bom, acho que minha listagem já está grande demais. Dalai Lama diz: “As pessoas deveriam pagar com cinco dólares cada crítica que recebessem”. Tanto é que grandes empresas já desenvolveram um sistema de premiar com dinheiro ou cortesias os clientes dispostos a fazer uma reclamação. Veja só: tenho um cliente que almoça todos os dias no meu restaurante e TODOS OS DIAS ele reclama de alguma coisa. Eu adoro ele. Eu gosto muito mais dele do que daquele outro que veio uma vez, não reclamou e nunca mais voltou.

Na verdade não há como rotular ou classificar de onde vem o cliente reclamão. A única coisa que consigo dizer é que existem dois tipos de críticos: o crítico que quer teu bem e o crítico que quer o bem de si mesmo. No primeiro caso, a crítica é construtiva; no segundo, a crítica é destrutiva. Uma é “do bem”, outra é “do mal”. Então, antes de criticar, faça uma autocrítica pra ver onde você se enquadra e evite, assim como Dalai Lama também prega, fazer o mal aos outros.

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COMENTÁRIOS
  • Mais importante do que fazer as coisa bem é se pensar o que faz... e você faz isto com genealidade... parabéns! Sou sua fã...

  • Beto
    Simplesmente sensacional, Parabéns.

  • Nossa Beto, não sabia de nada disso. Comi nunca tive restaurante (aliás, nunca fui dona de nada) e só como fora de casa de vez em quando, não sabia que as pessoas reclamavam. Acho que nunca reclamei. Mas lembro uma vez que fiquei frustrada. Quando fui almoçar no restaurante de um cara muito querido e ele não estava lá. Nome: Beto Madalosso

  • Ótimo comentário que sirva para as pessoas que gostam de humilhar de outros.Parabéns gostei.

  • Meus parabéns pela matéria, já fui garçom ,inclusive em seu restaurante ,e hoje trabalho com delivery ,e meu amigo ,vou dizer , não é fácil lidar com o povo não,qualquer coisinha é motivo para pedirem um crédito ou aparecer nas redes com uma reclamação . Obrigado por essa matéria ,espero que os críticos do mal leiam e entendam o que é o correto a se fazer ,cansei de ouvir "nunca mais compro aí " e na outra semana o sujeito pede novamente , e reclama de novo . Não dá pra entender .

  • Adorei a matéria , é assim mesmo , pessoas insatisfeitas com a vida !!! Tá triste ??? A vida tá ruim ??? Pegue a moto e vá pro Chile !!!

  • Existe um ditado que diz : quem desdenha quer comprar" - sabe o que isso quer dizer : os invejosos adorariam ser você , ter o teu sucesso , tua vida , todo mundo acha que a grama do vizinho e mais verde, mas jamais saberá o quanto de trabalho houve pra que ela ficasse tão verde. O teu cliente de todo dia adora tua comida, mas jamais dará o gostinho de dizer " isso está uma delicia" sei que foi caprichado , feito por alguém que ama o que faz! O que é uma verdade, estive apenas uma vez em teu restaurante e a gente reconhece quando as pessoas têm prazer na profissão . Sabemos o quanto é duro trabalhar com pessoas, alias somos pessoas, tem alguém que diz o mesmo de nós também . Quanto aos novos ricos , te garanto o dinheiro não compra "berço " pra que se incomodar ou tentar entender quem não tem conhecimento do que realmente é bom na vida : simplicidade , cultura , educação e respeito, isso não se compra , vem do berço.
    Segue teu caminho., não tente entender o que não tem entendimento , você tem o dom que significa graca imerecida , Deus nos dá de graça , depende de nós sabermos aproveitar, você sabe! Aí está o x da questão . . Continue proporcionando jantares deliciosos , tem muita gente que sabe apreciar!

  • Tesão piazinho você manja nas escritas kkkkkk parabéns!

  • Muito eloquente! Admirável.

  • Se logue, piá!