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Feijoada: uma breve história do prato mais brasileiro de todos

6 de maio de 2016

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E dicas para fazer um “tour feijoada” por Curitiba

Sempre tem alguém para fazer a diferença em aglomerações, protestos, polêmicas, comentários na rede e afins. E foi assim que um comentário de uma notícia sobre as agruras do país ganhou mais destaque que as próprias manchetes. Virou meme. “Brasil. Crime ‘ocore’. Nada acontece. Feijoada.” Assim, com erro de português e tudo, a frase foi ganhando destaque e substituiu até o “Ordem e Progresso” da bandeira brasileira. Pode dar um Google.

Nada acontece? Feijoada! Dá até para interpretar assim. Melhor ainda. Tudo acontece? Feijoada! Porque, vamos combinar, não precisa de motivos para comer uma boa feijoada. Tudo ou nada acontecendo, o que importa é o sabor. E tem muita gente em Curitiba que entende bem do assunto. Os “dois Paulinhos”, por exemplo, fazem a história da feijoada da capital paranaense há quase duas décadas.

O Paulo Sérgio da Silva, o Paulinho do Bep’s, começou a servir o prato mais brasileiro do planeta há 18 anos. No bar que hoje fica na Mateus Leme (antes ocupava outro endereço, no bairro São Lourenço), o sábado é reservado para a tradicional receita. O preparo, no entanto, começa bem antes, na quarta-feira, colocando as carnes de molho. Depois, dia após dia, é um passo adiante. O feijão é colocado na panela apenas na sexta-feira, às 9 da manhã, e passa 12 horas cozinhando.

Porque sim e pronto. Ou melhor: porque esse é o segredo de reunir há tanto tempo cerca de 250 pessoas em um único dia para comer uma só receita. São 12 quilos de feijão por sábado. É feijão pra caramba. E do bom. Quer dizer, da marca Caldo Bom. Porque Paulinho não troca nada da receita desde que começou a servir o prato. É tudo sempre igual. Desde 1997.

A feijoada é aquela tradicional, mas basta um olhar de relance quando o garçom está servindo a mesa para perceber, digamos assim, um prato intruso. Maionese! “Eu servia a maionese com a picanha, mas fez tanto sucesso que hoje todo mundo pede a feijoada e a maionese”. Feijoada com maionese? Então, tá… Tudo acontece.

Feijão, feijão, feijão, és o rei da criação

Já o outro Paulinho, o não menos conhecido Paulo Zanatta, do Don Max, não abre mão da tradição, mas também colocou na feijoada servida desde 1998 uma pitada do seu dom. A feijoada do Don Max acompanha banana empanada com castanha e coco e farofa de mandioca com cúrcuma. O restante dos acompanhamentos é clássico. Arroz, couve, laranja e vinagrete. Ah, sim, são dois tipos de vinagrete, um com pimenta e outro sem. Aliás, duas coisas que não podem faltar de jeito nenhum em uma boa feijoada, na opinião do Paulinho Zanatta: pimenta e cachaça. Cachaça para a receita, não para beber, mas claro que uma cachacinha também faz parte da tradição de quem não abre mão de uma boa feijoada. É Brasil!

E de Brasil Paulinho entende. Ele passou oito anos fora, na Inglaterra, morrendo de saudade do feijão brasileiro. Em uma temporada na Itália, não teve jeito. Foi cercado por amigos e intimado a fazer uma feijoada. O problema é que lá para aqueles lados não tem feijão, não tem farinha, não tem couve. Então, ficou assim, uma feijoada muito engraçada, não tinha charque, não tinha nada.

“Foi a feijoada mais estranha que eu já fiz. Usando um tipo de alface no lugar da couve e substituindo as carnes”, conta. E lembra que perambulou por umas três cidades (sim, cidades) para achar ingredientes minimamente parecidos.

Por isso, ao voltar para o país de origem e inaugurar o Don Max, não abriu mão  de fazer a verdadeira feijoada. É servida aos sábados, mas é na quinta que ele começa. Dessalga as carnes, dispensa as carnes gordas, vai cozinhando um pouco por dia até que, tchanram, no sábado é só chegar. Ou pedir.

Paulinho conta que se surpreendeu desde que começou a fazer o delivery da feijoada. “O telefone não para e desde o meio-dia até as cinco fazemos entrega do prato”, diz. Isso para quem não quer parar nem para se locomover até o cantinho delícia que é o Don Max ou quer mesmo fazer bonito com o prato alheio. “Vem, gente, fiz uma feijoada que está ótima”. Aí pega o telefone e liga pro Paulinho. É uma ideia.

Todo brasileiro tem uma relação íntima com a feijoada. Com o chef Flávio Frenkel não foi diferente. Brasileiro, com muito orgulho, ele aprendeu a comer (e a fazer) feijoada ainda criança, quando morava em uma chácara no município de Quatro Barras.

E ele ressalta que era a mais tradicional das feijoadas. “Aos 7, 8 anos eu já ajudava meus pais a cozinhar. Não lembro quando fiz a minha primeira feijoada sozinho, mas certamente foi antes dos 13 anos”, conta. Esse entende do prato!

Frenkel revela que uma boa feijoada deve ser feita “de véspera” e não pode ter frescura na hora de escolher as carnes. “Carne gorda é fundamental. E partes menos nobres também. Feijoada de verdade tem que ter aquelas partes como rabo e orelha, que soltam colágeno e formam o caldo grosso”, ensina.

Ao gosto do chef, o tempero é essencial. Muito alho, cebola, vinagrete e laranja para equilibrar, além de acompanhamentos que podem não ir para a panela, mas são essenciais para a receita ficar perfeita. “Para começar, feijoada tem que comer em um dia para não fazer nada depois. Cachaça, cerveja e rede são fundamentais”, enfatiza.

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O primeiro feijão da feijoada

A história da feijoada tem várias versões. Pode pesquisar. A mais comum é aquela que diz que o prato foi criado pelos escravos nos tempos coloniais, aproveitando as sobras da comida dos patrões. Já ouviu essa? Pois a história conta que os fazendeiros descartavam as partes do porco como pés, orelhas e rabos na hora de “carnear” o bicho. Os escravos pegavam “os restos”, juntavam tudo com o feijão e faziam o maior festerê. Porque desde que a feijoada é feijoada, a receita está relacionada à festa.

No entanto, existem outras versões. Uma delas é a de que a feijoada não tem origem nos restos nem aqui, nem na China. É, sim, uma adaptação do cozido português e do cassoulet francês, ambas receitas que reúnem várias carnes e grãos. Todos nobres porque era uma época em que comida era comida, não era de se jogar fora.

Para alguns, a origem nem importa, desde que o sabor seja mesmo bom. O fato é que a feijoada foi mesmo apropriada pelos brasileiros e virou o prato típico, uma paixão nacional, quase um estereótipo. Como os tacos mexicanos, alfajor argentino, croque monsieur francês, cada qual com a sua nacionalidade, a feijoada é a cara do Brasil.

Feijoada Completa

E quem quiser fazer um “tour feijoada” por Curitiba e eleger a preferida, vamos às dicas:

Com tudo separado

Santa Marta Bar
A “Santa Feijoada’’ é servida todos os sábados e preparada com uma seleção de carnes e com diversos acompanhamentos, como caldinho de feijão, couve, farofa e torresmo. Batidas de frutas, cachaças, caipirinhas e doces típicos da culinária brasileira, como pudim de leite condensado e doce de abóbora também estão no cardápio. O almoço é acompanhado por trilha sonora, ao vivo, formada por pop, samba-rock e sertanejo. R$ 30 para as mulheres e R$ 40 para os homens.

Rua Bispo Dom José, 2030, Batel.
(41) 3343-2803

Mercearia Fantinato
Repleta de detalhes e peças vintage, a Mercearia Fantinato lembra aquelas mercearias antigas do interior. A feijoada é servida aos sábados, em buffet por pessoa. O diferencial é a couve frita, que fica bem sequinha e é um ótimo acompanhamento para a já tradicional feijoada. Preço por pessoa, R$ 32,50.

Rua Mateus Leme, 2553, Bom Retiro.
(41) 3023-1953

Hotel Bourbon
A feijoada do Bourbon Curitiba Convention Hotel é aberta ao público. Feita da forma tradicional, é servida com arroz, couve, farofa e banana. O diferencial está na entrada: caldinho de feijão, torresmo e acarajé, pra completar a brasilidade. O preço é R$ 85 por pessoa.

Rua Cândido Lopes, 102, Centro
(41) 3221-4600

Na cumbuca

Don Max
Todos os sábados, a partir do meio-dia, o Don Max serve a feijoada completa (costela defumada, lombo, paio, calabresa, charque, pé, orelha e rabo), arroz, banana na crosta de castanha, couve, laranja, farofa e vinagrete. A entrada é caldinho de feijão, costelinhas de porco assadas e bacon. A cumbuca para duas pessoas custa R$ 49,00 e para uma pessoa, R$ 32,00.

Rua Tenente Max Wolf Filho, 37, Água Verde.
(41) 3343-7989

BEP’S Paulinho
A mesma receita, utilizando a mesma marca dos ingredientes, é servida desde 1997. A feijoada começa a ser preparada na quarta-feira e sábado é preciso chegar cedo para garantir lugar. O diferencial, além das cumbucas com a feijoada, couve, vinagrete, laranja, arroz e farofa, é a maionese da casa. Preço sob consulta.

Rua Mateus Leme, 885, São Francisco.
(41) 3085-9065

Bar Jacobina
O bar e restaurante Jacobina oferece a tradicional feijoada aos sábados, acompanhada de arroz, couve, farofa e vinagrete. O bar é especializado em comida brasileira e a feijoada já virou tradição por lá. Custa R$ 39,80 por pessoa.

Rua Almirante Tamandaré, 1365, Juvevê.
(41) 3016-6111

Para comer ao ar livre

Pantagruel
Para quem quer comer feijoada ao ar livre, como se estivesse no quintal de casa. O jardim do Pantagruel lota nos fins de semana, portanto, é bom chegar cedo ou reservar com antecedência. A feijoada, destaque no cardápio do sábado, é servida com carnes como charque, lombo, calabresa, paio e costelinha sem gordura. Servida para uma ou mais pessoas, na cumbuca. Preço sob consulta.

Rua Professor Joaquim M. Barreto, 300, São Lourenço.
(41) 3253-7772

Paraguassu Grelhados
Uma das tradições curitibanas: passear na Feira do Juvevê e depois ir direto para o Paraguassu Grelhados. A feijoada acompanha arroz branco, fatia de bacon frito, couve refogada, laranja e farofa. O caldinho de feijão também é uma das especialidades da casa.

Rua Machado de Assis, 525, Juvevê.
(41) 3029-1020

Restaurante do Passeio
Quem quer viver uma experiência curitibana autêntica precisa comer a feijoada de sábado no Restaurante do Passeio, dentro do Passeio Público. Se o dia estiver bonito, você aproveita para dar uma voltinha e matar as saudades da infância. A feijoada é servida na cumbuca e vem acompanhada com tudo aquilo que manda o figurino!

Rua Presidente Faria, s/n, Centro.
(41) 3322-7067

Kátia Michelle é jornalista, exploradora gastronômica e chef amadora nas horas vagas!

 

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