Fernandinho e os 3 mil metros com obstáculos

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Quem cruza a porta de correr envidraçada para entrar na Forneria Copacabana, de segunda a sábado, recebe, das mãos de Fernandinho, a ficha de consumação. Ele tem Síndrome de Down e um sorriso que ganha qualquer um! Mas não se engane se a carinha simpática do Fernandinho transmitir uma aparente fragilidade. Fernandinho é um vencedor. Apenas 1% das carteiras de trabalho assinadas no Brasil são de pessoas com deficiência (apesar de representarem quase 25% da população, segundo dados do IBGE). E Fernandinho bravamente faz parte desse grupo. Para chegar onde chegou, teve que correr nas Olimpíadas da Vida. Superou vários obstáculos, contou com uma equipe de apoio de primeira e hoje comemora sua vitória.

A história do Fernandinho desperta muitas reflexões, muitas dúvidas e uma certeza: ainda tem lugar pra muita gente nesse pódium. A inclusão da pessoa com deficiência no mercado de trabalho é um assunto tão importante que no último Mesa São Paulo, um dos mais importantes encontros de gastronomia do país, o assunto foi debatido na abertura geral do evento. Entre os vários temas discutidos, ganhou destaque o potencial que a gastronomia tem de promover bem-estar social. Existem várias formas de se fazer isso e uma delas é construir ambientes de trabalho inclusivos. E isso vai muito além das rampas de acessibilidade.

Como tudo que pretende melhorar o mundo – ou a vida de alguém – construir esse ambiente dá trabalho sim. Caso contrário, não seria chamado de construção e sim de mágica. Construção pressupõe projetar, empilhar tijolo sobre tijolo. Pressupõe investir. Não é fácil, mas vale a pena. Quem garante isso é o Beto Madalosso, que contratou o Fernandinho na Forneria Copacabana e há quatro anos tem um funcionário autista no seu quadro de funcionários. Para ele, a contratação fez bem para o desenvolvimento da pessoa com deficiência, dos demais funcionários, do cliente e de toda sociedade, portanto, não deve ser feita para tapar buraco.

É preciso lembrar que INCLUSÃO não é apenas contratar alguém e dar um salário no fim do mês. Exige disposição, responsabilidade e paciência. Beto conta que foram quatro meses para conseguir contratar Fernandinho, totalmente acompanhado pela atuação da psicóloga Deisiane Correa, da dEficiente, especializada em elaborar e implantar programas de inclusão de pessoas com deficiência no ambiente de trabalho. “Descobrimos juntos o que tanto a empresa quanto o novo funcionário poderiam contribuir para o crescimento mútuo”, explica Beto.

O papel da família

Thami Nascimento é mãe da Geovana (12) e da Caroline (9), e luta para que suas filhas tenham espaço no mercado de trabalho no futuro. Apesar da surdez, ambas usam implante coclear – um aparelho que capta o som e o transforma em pulsos elétricos, também chamado de ouvido biônico – e encontram dificuldade apenas com palavras estranhas. O papel da família, salienta, é estar presente e cobrar o desenvolvimento dos filhos – como qualquer outro pai e mãe. “Tento ao máximo prepará-las para se virarem sozinhas no futuro, e estudar é parte do processo. Não quero que sejam despejadas numa fábrica barulhenta, sem nem chance de escolher. Elas precisam trabalhar, tanto para si mesmas como para o mundo”, reforça.

Ela é empresária e já trabalhou fazendo cadastro de profissionais com deficiência para o mercado de trabalho em um stand no Shopping Jardim das Américas. Dessa experiência, sua percepção foi que as empresas costumam já taxar e enxergar as pessoas com deficiência como profissionais desqualificados, sem nem ao menos olhar direito o currículo com cuidado. Além disso, a falta de especificidade da deficiência é um problema constante no cadastramento. “Para dar um exemplo, a pessoa tem que assinalar ‘deficiência nos membros inferiores’, genericamente, mesmo se a deficiência seja não ter dois dedos ou uma perna mais curta que a outra”, explica.

Instituições fazem ponte entre empresa e funcionário com deficiência

Pessoas como Valéria Abrão, da Universidade Livre para Eficiência Humana (Unilehu), Deisiane Correa, da dEficiente, e Luiz Ribas, da Ação Social para Igualdade das Diferenças (ASID) são fundamentais para que a ponte entre empresa e funcionário com deficiência aconteça. Com projetos diversos, as três instituições auxiliam nas duas pontas. De um lado, auxiliam as pessoas com deficiência a descobrir seus talentos e habilidades, além de fazer o cadastro do currículo de maneira mais certeira, de modo a valorizar tudo aquilo que não é digno de diagnóstico. Na outra ponta, atuam também auxiliando os empresários em todo o processo de contratação e adaptação com a equipe.

Luiz, que é um dos fundadores da ASID, enfatiza que as empresas precisam focar nas qualidades, não nos limites. Na virtude por trás da deficiência. Há dez anos a ONG atua na construção de uma sociedade inclusiva através de três diretrizes: empoderamento da família, desenvolvimento da pessoa com deficiência e, principalmente, na inclusão no mercado de trabalho. Ele acredita que é preciso que seja posto em prática um conceito chamado inclusão atitudinal, no qual os demais funcionários incluem integralmente a pessoa com deficiência. “Não é apenas estar na empresa, mas, de fato, inserir elas na rotina de todos os processos empresariais”, explica.

Rudyellen Pelissari, proprietária da Supimpa Casual Food, é uma das que desenhou um projeto junto a ASID e a escola Primavera para a contratação da Gabi, que tem uma doença intelectual leve. Todo o processo de documentação e contrato foram iguais aos dos demais funcionários: “a única coisa que a difere é o cartão de transporte, que o dela é isento”.

Outra instituição focada no desenvolvimento da empregabilidade das pessoas com deficiência e na preparação das empresas para que se tornem mais aptas a inclusão destes profissionais, é a Unilehu. Valéria Abrão conta que, projetos como o Emprego Apoiado, são fundamentais para proporcionar segurança a todas as partes, onde um profissional especialista no assunto acompanha constantemente cada passo do desenvolvimento da pessoa com deficiência dentro de cada empresa.

Uma dica para facilitar a adaptação mútua dada pela especialista é mostrar de forma clara que existe uma referência dentro da empresa. Um outro funcionário – não necessariamente o chefe – a quem ele pode recorrer em caso de dúvidas. “Ter alguém para conversar sobre questões relacionadas com a área de relações humanas da empresa é fundamental”, explica Valéria. Trabalhar com exemplo dos colegas de trabalho também é imprescindível, mostrando que determinados comportamentos são inadequados, como atrasos e faltas sem justificativa, confundir papel do chefe ou da equipe de trabalho ou se negar a realizar determinadas tarefas sem motivo aparente.

Mas todos os especialistas concordam: qualquer relação de trabalho exige, acima de tudo, respeito. “Pessoas com deficiências mentais relacionadas a dificuldades de aprendizado podem demorar um pouco mais de tempo para realizar determinadas tarefas. Isso não quer dizer que elas não serão feitas, ou que serão feitas de forma inadequada. Apenas é preciso que os demais funcionários sejam orientados a ter um pouco mais de paciência”, conta Michele Dupoint, chef que trabalhou com crianças e idosos com diferentes graus de deficiência mental no Japão. “Pessoas com deficiência intelectual geralmente são boas em movimentos de repetição. Na cozinha, por exemplo, aprendem com facilidade a fatiar, descascar, cuidar de toda preparação do alimento. Só é preciso um pouco de boa vontade para ensinar”, explica Michele.

Para além das rampas de acesso

Para Pier Petruzziello, vereador e presidente da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência e Acessibilidade da Câmara Municipal de Curitiba, “ao contrário do que muitas pessoas pensam, acessibilidade não é só construir rampa e reformar calçadas. Precisamos também ter uma atitude acessível, que é a base de tudo. Quando todos nós tivermos a preocupação em incluir de verdade, as outras barreiras de acessibilidade irão se quebrar naturalmente”.

Pier é responsável pela primeira lei do estado do Paraná a tratar sobre o autismo (Lei Municipal 14.809/2016), e acredita que, a partir do momento que passamos a conviver com uma pessoa com deficiência, conseguimos entender de forma sincera o quanto ainda temos que evoluir em relação a quebra de preconceitos. Ele defende fortemente que sejam rompidas as barreiras do assistencialismo: “nós, pessoas com deficiência, temos opiniões, gostos, desejos, capacidades e dificuldades que nos diferenciam uns dos outros, assim como todo mundo! Nem sempre isso é respeitado ou visto como uma condição comum ao ser humano como um todo. O termo que explica isso é o CAPACITISMO, situação onde as pessoas com deficiência são entendidas como incapazes, simplesmente por não se enquadrarem em um padrão. É contra esse sentimento que devemos lutar”, finaliza.

Hoje, a legislação nacional obriga empresas com mais de cem funcionários a contratarem pessoas com deficiência. Mas se eles representam quase um quarto de toda população brasileira, como não inseri-los no mercado de trabalho na mesma proporção? Uma sociedade composta por pessoas conscientes das diferenças e que respeitem e permitam a participação de todos nas suas rotinas sociais é imprescindível para um mundo melhor. O caminho pode ser longo, apresentar alguns obstáculos, mas no final, meu amigo, dá uma alegria maior do que ver o restaurante lotado todos os dias. Quem garante? O Beto!

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