Gabrielle Mahamud, por André Bezerra

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Foto: Gabi Mahamud e seu livro, Flor de Sal

Há pouco mais de um ano, no MESA SP, a Jussara Voss me apresentou formalmente para a Gabi. “André, peça para ela te contar sobre os projetos com alimentos que seriam desperdiçados”. Tivemos uma conversa breve no Memorial da América Latina, onde o evento da revista Prazeres da Mesa é sediado. Lembro da minha primeira impressão depois dessa conversa, há um ano. Foi tipo de que planeta ela veio? E assim abrimos a entrevista desta semana com a Gabrielle Mahamud, cozinheira, escritora, blogueira, empreendedora, atleta e defensora da alimentação saudável. Perguntamos de saída: Gabi, de que planeta você veio? Rindo, ela começou a contar um pouco da história de vida de uma brasileira cheia de ouro nos bolsos.

A Gabrielle Emily Silva Pereira Mahamud nasceu em Pouso Alegre-MG. “Morávamos com a minha mãe em um bairro muito simples. Embora tivéssemos uma condição melhor do que a média da vizinhança, eu testemunhei famílias passando necessidades e muitas privações bem perto de nós, achava aquilo injusto. Sempre fui muito inquieta, aos dez anos já tinha uma consciência da minha responsabilidade no mundo, aos sete eu queria ser presidente do Brasil e poder ajudar para muito além do meu bairro”, contou a Gabi. Por esta mesma fase uma tia a levou para o centro espírita. A menina se apaixonou pelo que viu e ouviu ali e começou a frequentar uma espécie de catequese espírita. “Foi quando comecei a ouvir falar muito sobre as consequências pelas escolhas e autorresponsabilidade”.

Cedo também foi que a Gabi se envolveu com trabalho voluntário, mas ela queria mais. A mãe, Dona Selma, teve restaurante onde a jovem Gabrielle teve contato com alguns conceitos de logística e sempre lhe chamou atenção que muita coisa era desperdiçada. Ali estava uma garota que via alimentos indo para o lixo ou perdendo sua validade enquanto pensava que o vizinho de muro muitas vezes não tinha o que comer. A avó mantinha uma horta em casa e a família se reunia para cozinhar e comer juntos. A Gabi é a mais velha de cinco irmãos. “Eu adorava frequentar a casa e a horta da minha avó. Cada época do ano era tempo de comermos um tipo diferente de alimento da estação”. Na faculdade quis estudar gastronomia, mas a Dona Selma não deixou. Fez arquitetura na PUC-MG, morou um tempo como intercambista na Itália e se mudou para Curitiba. Queria trabalhar como urbanista no Instituto Jaime Lerner, com quem chegou a trabalhar em alguns projetos pontuais. Acabou entrando como voluntária no projeto Teto.  “Ali tive contato com uma pobreza que nunca tinha visto, conheci pessoas que simplesmente não tinham acesso à alimentação”.

Good Truck

Lembrando do restaurante da mãe, concluiu que talvez a solução para promover este acesso estava na logística. Nascia um dos pilares do Good Truck Brasil. “O programa nasceu da vontade de levar comida de qualidade a quem não tem o que comer, recolhendo e preparando alimentos não manipulados de restaurantes e supermercados. Dessa forma impactamos positivamente dois problemas sociais, ambientais e econômicos, minimizando o descarte de resíduos e ajudando a combater a fome de forma digna e saborosa.”

Alimentação, bem-estar pessoal e o Flor de Sal

Ao descobrir que tinha intolerância ao glúten, a Gabi resolveu estudar e se cuidar ainda mais. Leu tudo e mais um pouco sobre alimentação saudável, alimentos glúten free e concluiu que a vida poderia sorrir para ela mesmo nesta condição. “Não dá para interferir no mundo sem passar pelo autoconhecimento. A mudança começa dentro da gente”. Então a Gabi retomou o esporte – corridas e yoga – com força, além de se empenhar na criação de receitas. Nasceu o blog Atleta Veg. Deu tão certo que acabou virando o livro Flor de Sal, pela editora Alaúde. O título do livro substituiu o Atleta Veg no portal. O nome vem do sal marinho, que é muito mais delicado do que os sais comuns, daí o nome (flor). Trata-se de um cristal recolhido da superfície da água e secado ao sol. É considerado o mais puro sal. No blog, Gabi ensina e comenta as receitas que aprendeu e desenvolveu. Chama atenção o belo design do portal e do próprio livro, herança do senso de estética da arquiteta que abandonou a profissão de formação para abraçar as causas sociais e melhorar o mundo com as próprias mãos.

O futuro

De dois anos para cá a Gabi vem se dedicando aos dois projetos: Flor de Sal e Good Truck. Este segundo passa pelo período de amadurecimento. “O foco hoje está mais na educação. Queremos expandir para outros lugares, aumentar o mix de produtos e investir na educação e consciência. No meu sonho, o Good Truck deixará de existir porque não haverá mais razão para ele no mundo”.

Finalmente, perguntamos a esta ariana com ascendência em câncer e lua em libra, filha da Dona Selma, neta da Dona Maria do Carmo, menina-mulher delicada como uma flor, mas agressiva com valores e ideais qual é o prato favorito para fazer e qual ela mais gosta de comer:

“Gosto de fazer e comer bolo de cenoura.”

Sobre o Good Truck:

  1. O Good Truck circula a cidade recolhendo alimentos bons (não preparados) que seriam descartados no Ceasa, em supermercados, feiras e parceiros.
  2. Voluntários e colaboradores preparam o alimento em uma cozinha base.
  3. As refeições são servidas, através do caminhão, ao público em necessidade.

Existem cerca de 1,8 milhão de pessoas em situação de rua em todo o território brasileiro. Só em Curitiba, são aproximadamente 1.715. Dentre as diversas dificuldades, a fome é considerada por eles uma das mais graves. A desnutrição também influencia diretamente na saúde dessas pessoas. Estima-se que no Brasil são desperdiçados entre 7,5 e 10 milhões de toneladas de alimentos por ano. O equivalente a 24 mil toneladas por dia. Só no Ceasa de Curitiba são descartadas aproximadamente 14 toneladas todos os dias.

rodape_andreAndré Bezerra é amante da gastronomia boêmia e “garimpeiro” de experiências que surpreendem o paladar. Fundador da Monstro Animal – produtora de eventos – e escritor por hobby. Siga no Instagram: @andrbezerra

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