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Garçons pop

13 de junho de 2016

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Conversamos com Zezinho, Diogo e Expresso, alguns dos garçons mais queridos da cidade

Amigão, chefia, amizade. Como você chama o garçom? Antes de começar esta matéria, vamos te contar uma coisa: eles gostam é de ser chamados pelo nome. Se não souber, chama de garçom mesmo, eles não se importam. Agora, estalar os dedos ou chamar de psiu é feio. Ofende. Então, da próxima vez que for a um bar ou restaurante, lembre do Zezinho, do Expresso ou do Diogo, nossos personagens desta entrevista.

Cada um no seu estilo, esses três têm uma coisa em comum: adoram a profissão. Eles não ganham estrelas, não são aclamados pela crítica, mas estão sempre lá para garantir que a cerveja chegue gelada e a comida, quentinha. Equilibram copos e pratos com maestria, correm de um lado para o outro e, muitas vezes, chamam você pelo nome, conseguem a sua mesa preferida, sabem o ponto certo do seu filé e servem “o de sempre” com um sorriso no rosto. “Mas nem todos são assim”, você deve estar pensando. É verdade. Como em qualquer profissão, há os que se destacam.

Muitos começam no negócio meio sem querer, para pagar as contas de casa, bancar uma faculdade. Alguns se profissionalizam, seguem carreira, se apaixonam pelo ofício de servir. Escolhemos três dos garçons mais queridos de Curitiba para nos contar um pouquinho de sua trajetória. Com você, três figuras que vêm acumulando muitas histórias no vai e vem entre a cozinha e o salão!

Zezinho, do Velho Oriente

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Homem de poucas palavras. O estilo do Zezinho é este: eficiência com discrição. Aos 84 anos de idade, ele trabalha há quase duas décadas e meia com comida árabe. Ficou 10 anos no Oriente Árabe e voltou quando o restaurante reabriu com o nome de Velho Oriente, há 15 anos. Segundo Vaneska, sócia do restaurante, muita gente só aceita ser atendida por ele. Se não conhece o Zezinho, corra pra lá: esse senhor é uma instituição na cidade.

Como você começou na profissão?

Eu era marceneiro e aí comecei a trabalhar no Jockey Club como copeiro. Eu via os garçons trabalhando e achava bonito, gostava de ver. Com o tempo, comecei a trabalhar como garçom também, só que no Clube Curitibano. Fiquei uns 12 anos ali, até que o bufê saiu e eu continuei como free-lancer. Com o tempo, me convidaram para trabalhar no Oriente Árabe, que agora é Velho Oriente. Trabalhei dez anos com eles, até que o restaurante pegou fogo e ficou dois anos parado. Aí, quando reabriram, em 2001, me chamaram de novo.

Incomoda quando as pessoas chamam “psiu”? Como você gosta de ser chamado?

Incomoda porque não é maneira de se chamar o garçom. O certo era cada um se identificar, chegar na mesa e dizer: “Eu vou atender o senhor, eu sou o Zezinho”. Mas lá onde eu trabalho o pessoal já me conhece. Eu tenho 14 anos de casa, né? E quase todo mundo me chama pelo nome.

Tem muita gente que quer ser atendido por você?

Tem. Inclusive sábado chegou lá uma mocinha com o namorado, foi no caixa e disse que queria ser atendida por mim. Para mim foi uma honra.

Mudou muita coisa na profissão desde que o senhor começou?

Tem coisas que os mais novos não sabem mais fazer, como flambar um conhaque na mesa. Eu conheci um senhor que destrinchava o frango na frente do cliente, outros que preparam o strogonoff na mesa. São coisas dos bem antigos mesmo, a maioria já se foi.

Diogo, da Mercearia Fantinato

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Ao contrário do Zezinho, Diogo gosta de falar. Piadista e colecionador de histórias, tem 55 anos de idade, 38 de profissão e sete de Mercearia Fantinato. Todos os dias, Diogo faz seu pequeno show particular quando, com toda a calma e elegância, prepara passo a passo, na frente do cliente, a carne de onça mais famosa de Curitiba.

Como você começou na profissão?

A história é longa, dá um livro… A minha caminhada começou na escola de hotelaria do Senac, de 79 para 80. Eu estava entre duas opções, ou fazia o curso de cozinha, ou fazia o curso de garçom. Daí optei por garçom. Foram sete meses de curso, três de teoria e quatro de prática. Na teoria eu passei fome. Te juro. Não tinha dinheiro para fazer um lanche na hora do intervalo, nem um pão com manteiga. Quando passou pra prática, ficou diferente, tinha almoço. Para estar onde estou hoje esfolei tudo. E daí foi indo, foi indo e foi indo…

Nessa época você não trabalhava ainda?

Eu tinha uns 17 anos e só fazia o curso mesmo. Pra dizer que não trabalhava, eu entregava gás e às vezes trabalhava em construção. Daí me lembro que o meu compadre falou: “Pô, Diogo, vamos fazer o curso de garçom”, e eu disse: “Cê tá é louco! Garçom negrão é só na televisão e cinema, nunca vi ao vivo e a cores”. Ele insistiu e eu acabei indo. Com sete meses de curso eu falei para o professor Nereu que ia desistir. Ele falou: “Mas desistir por quê?”. E falei a mesma coisa: “Pô, negrão, garçom… só na televisão e cinema”. Ele falou pra eu continuar que eu era o sétimo melhor aluno do salão e disse que ia me ajudar. E me ajudou mesmo. Ele me arrumou um serviço num restaurante que se chamava Tuto Massa, que acabou virando um bar gay. Fiquei sete anos trabalhando no bar gay que era onde hoje fica a Confeitaria Suíça, na Voluntários da Pátria. Não foi fácil chegar onde eu cheguei, passei necessidade, passei fome e tinha muito racismo na época.

Não foi fácil chegar onde eu cheguei, passei necessidade, passei fome e tinha muito racismo na época.

Você acha que ainda existe muito preconceito com negros?

Eu senti muito, mas hoje, graças a Deus, do jeito que eu tô, não tem como. A primeira vez que aconteceu foi no Pavaroto, um restaurante que ficava em frente ao Mueller. Um dia chegou um casal que não queria ser atendido por negrão. Na hora em que eu fui atender, os outros garçons me avisaram: “Diogo, o casal não quer que você atenda”. Daí eu falei: “Cê tá de brincadeira comigo, né? Eu vou dar no cara”, fiquei muito nervoso. Meus amigos me acalmaram e eu subi pra falar com o patrão. Expliquei tudo e ele foi até a mesa, agradeceu o pessoal por ter vindo e disse: “Aqui na minha casa é tudo igual, aqui é preto, é branco, é vermelho, é cor de rosa… Então, clientes como vocês eu não quero. Pode levantar e não precisa nem pagar a conta”. Eles levantaram e foram embora.

E já aconteceu essa situação em outros restaurantes?

Teve um hotel em Curitiba que quando fui fazer o teste pra trabalhar, o meu compadre, que era gerente, já me adiantou: “Nem vá lá que eles são racistas”. Teve um restaurante no Batel onde aconteceu a mesma coisa: mandaram recado para o meu amigo dizendo que não iam me contratar porque eu tinha corte de cabelo de jogador de basquete. Pô, daí fica complicado, né? Eu pensei: sabe de uma coisa? Eu vou é dar um tombo em toda essa turma. Comecei a mostrar meu trabalho, ler bastante, estudar e graças a Deus estou onde estou hoje.

Hoje você está famoso por causa da carne de onça da Mercearia Fantinato. É só você que prepara?

O preparador oficial sou eu, mas tenho meus alunos. Só que as pessoas chegam lá e querem que eu prepare, dizem que o meu tempero é diferente do dos meninos.E eu não vou dar o caminho do ouro pra eles, né? Tem um segredo na preparação e esse segredo só eu sei. Nem o patrão sabe.

Quais você acha que são as características de um bom garçom?

Bom, primeiro ele tem que gostar… Eu sou apaixonado. Minha esposa diz: “Pô, você é mais apaixonado pela profissão do que por mim”. Mas eu sempre digo que ela vem primeiro. Eu gosto muito, mas não é fácil. Cansei de dar beijinho na nega, deixar ela no samba e ir trabalhar.

O que acha que diferencia você de outros garçons?

A minha característica é que eu sou engraçado. Se você quiser que eu trabalhe pra você, tem que me dar liberdade. Eu não sei trabalhar sério, não consigo. Eu sou muito brincalhão, brinco com as crianças, com a família, com as pessoas de idade…

E como você gosta de ser chamado? Te incomoda também o cliente que fala: “Ei, psiu”?

Isso aí todos odeiam. Ou você chama pelo nome ou de garçom. Lá no Fantinato as pessoas me chamam de Seu Jorge, de La Peña… Daí dou risada, brinco com eles. Assim é legal, até gosto.

Como você descreve o cliente legal, que você gosta de atender?

Ah, cliente legal tem bastante. É aquele que te deixa à vontade, que deixa você fazer um bom trabalho na mesa dele. E o cliente chato? É aquele chupeta que já chega meio mamado. No final não gasta nada e ainda quer cortesia, a saideira… Na verdade saideira pra mim não existe. Teve uma vez lá no Fantinato que eu servi doze saideiras, então não tem esse negócio. Quais são as táticas? Você tá querendo fechar a casa e o cliente não para de pedir bebida… Na verdade, a gente não pode atropelar, é falta de ética, de educação. Mas tem que ter jogo de cintura. Eu chego e falo: “Vamos tomar a saideira? Mas vamos lá no Gato Preto, na Rua 24 Horas, vai pra lá que lá dá pra você tomar bastante saideira…”. Esse é meu jogo de cintura, mas na boa, na esportiva.

E o cliente chato? É aquele chupeta que já chega meio mamado. No final não gasta nada e ainda quer cortesia, a saideira…

Se não fosse garçom, o que você gostaria de fazer?

Eu queria ser radialista. Meu sonho era trabalhar em rádio, falar que Dona Maria precisa fazer isso, que seu José precisa parar de beber que a cirrose tá pegando…

Tem muito cliente que transforma o bar em divã?

Não sei se você sabe, mas nós, garçons, somos psicólogos. Teve mulher chorando, homem que a mulher largou, aquela coisa toda… Aquela choradeira e tal, o casamento passando pelos vãos da água… Eu tenho até um caderno com histórias de lugares onde já trabalhei. Quero um dia transformar em livro.

Conta uma dessas pra gente.

Tem a do Fantinato. Uma mulher surtou dentro do bar, só que ela não tinha bebido nada, só umas seis ou sete cervejas. A guria estava louca, começou a xingar, a falar alto… Um cliente nosso, que é italiano, queria chamar a polícia. Daí a poeira foi abaixando e de repente ela disse: “Vocês sabem quem é esse moço aqui? Esse moço é meu amante. E sabe o que ele é meu? É meu cunhado!”. Ela falando até que pá, meteu a mão na cara dele. Ele aceitou o tapa e ficou na maior postura. Depois disso, ela subiu na cadeira, ergueu a saia e mostrou a calcinha pra galera. Os homens aplaudiram, né? As mulheres enfiaram a cabeça debaixo da mesa. Na saída, ela já estava indo embora e ergueu a saia que nem aquela dança do can can, sabe? Nenhum dos dois apareceu de novo no bar. E teve uma vez, lá no Scavollo, que eu derrubei dois copos de cerveja no Jaime Lerner.

E o que ele fez?

Ele olhou pra mim e perguntou: “Pô, moço, e agora?”. Eu disse: “Pois é, aconteceu…”. Daí ele: “Pois é, mas se você tivesse entrado pelo lado certo, não tinha acontecido. Como você entrou pelo lado errado, olha o que aconteceu”. Eu pedi desculpa, mas vai fazer o que, molhou, molhou, não tem como secar, né? O pior é que eu entrei pelo lado errado mesmo, ele tinha razão.

Expresso, do Restaurante Madalossso

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Ele nega, mas muita gente garante que o seu Agenor ganhou o apelido porque é rapidinho! Mesmo correndo de um lado para o outro, Expresso garante que nunca derrubou uma bandeja. Velho conhecido de muitas famílias tradicionais curitibanas, ele trabalha no Madalosso há 40 anos. Bem articulado, muito educado e apaixonado pelo que faz, Expresso é modesto e faz questão de dividir suas glórias com a equipe e com a direção da casa onde trabalha desde que começou na profissão.

Conta pra gente a sua história…

Meu nome é Agenor da Silva, tenho 64 anos e trabalho há 40 anos no mesmo local, o Restaurante Madalosso. Eu comecei na profissão como se fosse por pouco tempo, mas acabei gostando muito do que eu fazia e o tempo passou. A gente às vezes não se dá conta, a vida vai levando, mas lá eu acabei encontrando um ambiente de trabalho que me agradou, pessoas comprometidas e uma família de origem simples, honestas, trabalhadoras.

E esse apelido, Expresso, veio de onde?

Veio de lá, do restaurante. Lá era quase que uma irmandade, então a gente se reunia em torno de uma mesa antes de iniciar o trabalho e um começava a conversar com o outro, a rir, a se descontrair e ali surgiam os apelidos. Na verdade, meu apelido, Expresso, não tem nada a ver com agilidade. As pessoas chamam os garçons de todos os jeitos, né? Amigo, moço, psiu… Tem um jeito que você não gosta de ser chamado? Psiu! Esse nenhum gosta. Às vezes você deixa passar, mas em outras deixa transparecer que não gostou.

Você faz cara feia?

Não, não faço, mas a gente tenta abrir o diálogo, conversar diferente, se identifica, dá um jeitinho, fala seu nome, tal… Quais são, na sua opinião, as qualidades que um bom garçom precisa ter? Ser educado, gostar daquilo que faz, achar bacana interagir com as pessoas, gostar de trabalhar com o público e ser responsável, né? Acho que em qualquer profissão, não importa qual seja, você tem que ser responsável.

Qual é a melhor parte desta profissão?

A melhor parte é interagir com as pessoas. Eu acho isso muito bacana, porque te traz muito conhecimento. E esse conhecimento, mesmo que depois você faça uma boa faculdade, é preciso adquirir.

E qual é a parte ruim?

Da família, né? Essa é a parte ruim. Isso te traz muitas complicações. Trabalhar sábado, domingo, feriado. É quando você mais trabalha e todo mundo está se divertindo. Se você não souber administrar nem isso, pode ter várias complicações.

Ao longo desses 40 anos de trabalho, mudou alguma coisa na profissão?

Olha, mudou quase tudo. Se for imaginar o que era o Madalosso 40 anos atrás, não tem nada a ver com o que é hoje. Eu sempre digo que o Madalosso está muito bem administrado por pessoas que gostam daquilo que fazem e sabem como ultrapassar muitas barreiras. Com 45 anos, o restaurante já passou por várias dificuldades, vários planos econômicos que não deram certo, mas sempre soube se segurar e se garantir, crescer nem que fosse um pouquinho para seguir novamente a rota.

Você prefere trabalhar com a casa cheia ou com a casa vazia?

Cheia! Nossa profissão, nosso ramo, é pra estar com a casa cheia, sempre lotada. Casa cheia garante o crescimento, o emprego dos funcionários e sustenta as famílias, né? Então isso é muito importante, quando você  vê a casa cheia, também se alegra.

Casa cheia garante o crescimento, o emprego dos funcionários e sustenta as famílias, né?

O que você acha mais importante em um restaurante, boa comida ou bom atendimento?

Um sem o outro não sobrevive, né? Veja bem, nós temos um padrão de qualidade que se mantém há vários anos e conservar isso hoje é muito difícil, custa caro. A gente vê o sacrifício da Dona Flora nesse sentido, pagando o que os caras pedem pela qualidade. Não dá pra oferecer um produto para o cliente hoje e amanhã o produto estar diferente. Acontece muito de pessoas que moravam aqui, foram embora para outra cidade e voltaram 15, 20 anos depois, comentarem que a comida é a mesma.

O que você diria para quem está começando nessa profissão?

Eu diria que ele está escolhendo uma profissão muito bonita e que se dedique ao máximo, que seja honesto, que seja responsável e que traga uma boa educação já de berço. Também gostaria de dizer que essa profissão é um elo de sustentação para outras realizações, tanto profissionais quanto pessoais. Alguns permanecem porque se encontram. Outros se tornam empresários, juízes, médicos, como foi o caso de um companheiro que encontrei em um consultório médico de uma Unidade de Saúde Pública, medicando.

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