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Gastronomia à flor da pele

17 de agosto de 2016

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Tudo acontece em fração de segundos, mas para mim é um filme em câmera lenta de uma vida inteira de trabalho

São nove e meia da noite. A casa está cheia. Mais um daqueles dias que não para de entrar gente pela porta, e meu sentimento é um misto de felicidade e desespero.

Dois garçons, de uma equipe de 12, não apareceram; e um barman teve que sair antes para resolver um problema com a mulher – fato comum nos sábados à noite. Mas quem ficou, ficou, e agora é hora de segurar a onda e tentar ganhar o jogo com o time desfalcado.

Estou feito uma barata tonta, pra lá e pra cá, rodando pelo salão. Atendo a porta, tiro um chope no bar, recolho pratos sujos das mesas, cobro algumas contas. Tudo anda no limite entre o ótimo e o desastre, e eu sei disso.

De repente um garçom suplica no meu ouvido: “Seu Beto, já faz 40 minutos que tirei o pedido da mesa 34 e nada!”. Eu entendo a mensagem. Corro pra dentro da cozinha e grito feito um louco sem direção: “Cadê a 34? Cadê a comanda da 34, porra?”. Os cozinheiros mal escutam. Estão todos tão enlouquecidos quanto eu. Mas sabem que o meu mar não tá pra peixe. O chef, o único que ouviu, me entrega a comanda. Verifico o horário e vejo que a situação é ainda pior: 45 minutos se passaram desde que a mesa fez o pedido. “É a próxima”, ele diz ao mesmo tempo que berra com sua equipe: “Pessoal, manda a 34 já! Anda rápido, anda!”.

Verifico o horário e vejo que a situação é ainda pior: 45 minutos se passaram desde que a mesa fez o pedido.

Eu, descontrolado e encoberto pelas paredes que separam a cozinha do salão, descarrego meu nervosismo dando chutes numa porta de madeira. Espero por ali mesmo com o nariz e a testa encostados na parede tentando me controlar. Dois minutos eternos se passam até que os pratos da mesa 34 começam a aparecer na boqueta, aquecida por fortes lâmpadas. Estão lindos, impecáveis, suculentos.

Imediatamente seguro um garçom pelo braço fora e digo: “Pare tudo e sirva a 34. Agora!”. Sigo seus passos e espero que ele coloque os pratos sobre a mesa. Acompanho, de longe, a reação dos clientes.

Nesse momento meu mundo para. Fico ali, disfarçado atrás de uma coluna, na expectativa das primeiras garfadas. É como se eu estivesse prestes a bater um pênalti dentro de um estádio lotado numa final de campeonato. É a hora da verdade. Acompanho a maneira com que cada um olha para seu prato. Observo, vidrado, a cerimônia sutil da primeira garfada, a primeira mordida, o movimento com a cabeça e o olhar de aprovação ou desaprovação entre os comensais. Tudo acontece em fração de segundos, mas para mim é um filme em câmera lenta de uma vida inteira de trabalho. Essa é a sensação. É ali, naquele momento, que sinto a recompensa dos nossos esforços do dia a dia. É ali, naquele gesto de satisfação, que sinto amor por minha profissão. “Pronto! Foi mais uma”, penso comigo. Desperto da minha transe mental e sigo em frente. Não posso parar. Ainda faltam diversas mesas para serem servidas e outras tantas para sentar.

Nossa noite está longe do fim.

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COMENTÁRIOS
  • Talvez algumas das vezes que fui na Forneria a equipe estivesse desfalcada como você fala no seu relato, mas foi imperceptível sempre tudo perfeito serviço acontecendo com maestria regido por grandes maestros como uma sinfonia impecável !

  • Genial! Até eu, que sou bobo, fiquei sem ar. Texto bom é assim, leva a gente para o meio do olho do furacão, por menos que o que está sendo abordado tenha a ver, diretamente, com a nossa rotina. Se algo tivesse dado errado no prato da mesa 34, até eu chutaria uma porta aqui agora. Como tudo deu certo, seguirei aliviado.